Sarkozy injecta mais 200 milhões na imprensa

Numa altura em que até os mais liberais são forçados (ainda que entre-dentes) a pronunciar a palavra ‘nacionalização’ (e variações, consoante o grau de intervenção dos estados) quase deixamos passar despercebida a mais recente iniciativa do Estado francês para salvar a imprensa.

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O presidente Nicolas Sarkozy anunciou há dias a injecção de mais 200 milhões de euros (para além dos cerca de 280 milhões já atribuídos) na economia da imprensa (escrita e online), através de incentivos fiscais e da duplicação do investimento publicitário.
O apoio excepcional terá uma duração de 3 anos e inclui ainda uma medida emblemática – todos os franceses com 18 anos de idade vão poder aceder a uma assinatura anual de uma qualquer publicação à sua escolha.

Boa ou má ideia?

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Todas essas ‘não-notícias’

“Só ontem, foi anunciado, por várias empresas multinacionais, um conjunto de despedimentos que equivalerá à perda de 70 mil postos de trabalho. (…) A segunda-feira negra do emprego, como ontem já se lhe chamava apenas revela uma pequeníssima parte do que está a acontecer. É menos do que a ponta emersa do iceberg, pois deverá representar bem menos de um décimo dos empregos que estão a desaparecer um pouco por todo o mundo. O que os distingue é que são notícia – as grandes empresas são sempre notícia. Mas quem dá notícia do empregado que deixamos de ver no café que frequentamos? Ou na loja da esquina? Ou quem repara que agora há um taipal onde antes estava uma montra? (…) Contudo, todas essas ‘não-notícias’, esses micro-eventos que. mesmo quando ocorrem ao nosso lado, podemos não dar por eles podem ser, ou são mesmo, socialmente muito mais desestabilizadores que qualquer dos lay-off listados pelo Wall Street Journal“.

José Manuel Fernandes, Público, 27.1.2009

O que corre bem…

“A imprensa portuguesa não costuma dar muita importância a estas coisas, e mais uma vez não deu, mas o piloto que protagonizou o “milagre” do rio Hudson foi recebido como herói na sua terra natal, Danville, Califórnia. (…) A imagem do aparelho pousado suavemente nas águas com dezenas de pessoas sobre as asas, à espera de serem retiradas por mar, esteve nas primeiras páginas dos jornais. Com incredulidade: estariam mesmo a salvo? Nenhum ferido grave? Nenhum morto? Felizmente, e ao contrário do que é hábito, sim. Isso valeu notícias concisas mas comedidas. Se Chesley tivesse errado, se lhe faltasse o sangue-frio ou se duvidasse do método que aprendera, teríamos muito mais páginas. A contar os mortos, a questionar os porquês do acidente, a clamar por maior segurança. Esta constatação não é, sequer, condenatória da imprensa. O que se procura, na maior parte dos casos, é explicar o que corre mal para evitar novos acidentes ou erros. O que corre bem, porque é suposto que corra, não faz história”.

Nuno Pacheco, in Público, 27.1.2009