Quando o telespectador se integra nos alinhamentos dos noticiários

A queda de um avião, ontem, no Rio Hudson, em Nova Iorque, mais do que um espectacular acontecimento, demonstra que é importante criar canais para integrar o telespectador nos conteúdos informativos. A notícia de ‘última hora’ chegou a Portugal na recta final dos telejornais das 20h00 dos canais generalistas. Os pivots limitaram-se a comentar as imagens que, em casa, nós também víamos. Quando, às 21h00, arrancaram os noticiários da SIC Notícias e da RTPN, o assunto continuava a dominar os alinhamentos. Quem tinha a notícia? As imagens dos canais internacionais transmitidas em directo pouco ajudavam a perceber o que se passava. Na RTPN, João Adelino Faria passa a emissão ao outro pivot que o acompanha, o Alexandre Brito, que faz a ligação com a Net. Uma passagem interrompida para dar espaço a um telefonema em directo com o correspondente em Washington. Que também não trouxe muitas novidades. Regressa-se ao pivot Alexandre Brito e à Net e percebe-se logo que há aí muita informação: fotografias dos passageiros a saírem do avião caído nas águas do Rio Hudson, vídeos que mostravam a descolagem de um aparelho idêntico ao acidentado a partir da mesma pista… Uma das fotos mostrada foi tirada por Janis Krums que a colocou de imediato no Twitter com esta legenda: “There’s a plane in the Hudson. I’m on the ferry going to pick up the people. Crazy”. Aí está um bom exemplo para demonstrar que os cidadãos, em determinados momentos, podem saber mais do que os jornalistas. Isso não implica que sejam repórteres. “Apenas” exige que os jornalistas multipliquem as suas ‘fontes’ e criem outros canais de diálogo com os seus públicos.

10 thoughts on “Quando o telespectador se integra nos alinhamentos dos noticiários

  1. No fundo, continuamos a falar apenas e só de uma coisa: jornalismo. Pergunto: Porque é que um dos procedimentos básicos do repórter de um acontecimento inusitado, de uma tragédia, é, sempre foi, e continuará a ser procurar informações e testemunhos, de preferência, de pessoas que assistiram aos factos, para depois cruzá-los, editá-los, separar o trigo do joio, reconstituindo assim os factos, aproximando-se da essência destes? O que aconteceu em Nova Iorque tem a ver com isto: houve muitos milhares de testemunhas oculares do acontecimento. Tiraram fotos e partilharam-nas no instante seguinte, usando as plataformas disponíveis. Fizeram jornalismo? Acho que não, limitaram-se a partilhar e potenciar a sua qualidade de testemunhas. Mas esta ânsia de partilha que afirma a individualidade contemporânea, este ‘egocasting’ que as tecnologias propiciam, constituem-se deste modo como desafio acrescido a um jornalismo que, para ler o mundo, tem de saber acompanhá-lo: o acesso à informação e o respectivo tratamento editorial desta estão obrigados a estar onde estão as pessoas, onde está a informação. E esses, estão hoje em todo o lado, e em nenhum. A tarefa do jornalismo continua a ser… encontrar as pessoas, recolher as informações, seleccionar, editar.

  2. Nem mais, LML! O jornalismo tem de constituir-se como um valor acrescentado à simples informação, ao mero testemunho. Daí que, para mim, não faça qualquer sentido o conceito de cidadão-jornalista. Ou é um jornalista (que, obviamente, também é cidadão) a tratar a informação e, nesse caso, é jornalismo. Ou não é.

  3. Caro Luís, caro Vítor,

    No meu entender, há duas formas de ver esta questão do envolvimento dos cidadãos no jornalismo (não acho, porém, e devo frisá-lo, que esse mero envolvimento faça de um qualquer indivíduo um jornalista – há a componente legal e até a da formação, menos consensual, a impedi-lo):
    – se o cidadão (a testemunha, neste caso) recolheu, tratou e difundiu informação (através de um blogue, ou do Twitter, como na situação acima descrita), ele levou a cabo um acto de jornalismo, mas a nível amador (não está reconhecido legalmente para tal, não tem vínculo ético e deontológico); costumo até dizer que ele procura substituir-se ao jornalista – e isso pode até acontecer porque não está satisfeito com o papel dos gatekeepers, mas tem a ver, essencialmente, com o facto de as novas tecnologias lho permitirem; ortodoxias de lado, aceito que lhe chamemos “jornalismo cidadão”;
    – se o cidadão se limitou a recolher, qual repórter, e porque o seu telemóvel – por exemplo – lho permitiu, uma boa foto ou um qualquer outro acto de reportagem num qualquer local, que ele posteriormente enviou para/cedeu a um jornalista/órgão de comunicação social, ele está, efectivamente, a participar no processo jornalístico (a tal recolha, tratamento e difusão de informação); é por isso que acho que a este tipo de colaboração é legítimo chamarmos “jornalismo participativo”.

    Complemento o meu primeiro parêntesis com a seguinte informação: também parti de um ponto de vista intransigente quando comecei a estudar a questão, mas acabei por achar que fazia mais sentido arrumar (a intransigência e) as coisas assim.

  4. Penso que a questão, caro RC, tem de ser centrada na prática e não na consequência. De facto, a prática, cruzando-se com o jornalismo porque envolve, neste caso, a disponibilização de conteúdos que podem ser definidos como “notícia”, não tem nada de jornalístico em si. É uma prática de maior alcance social que parte da noção de partilha, de construção e participação social em rede. Insere-se, na minha perspectiva, num contexto mais vasto de ‘egocasting’ (sugiro-lhe que veja o que Christine Rosen diz sobre isto): todos somos potenciais produtores e consumidores de conteúdos. Note bem: conteúdos, que podem ser informativos, mas não falo aqui de notícias. Considero, assim, que o trabalho das notícias continua a ser o intrínseco trabalho dos jornalistas. O tão propalado “jornalismo participativo” torna-se, a esta lupa, tão participativo como as redes sociais que hoje construímos online, e das quais participamos num desenvolvimento de partilhas e troca de experiências. A participação fará, assim, parte da construção reticular, mas não implica forçosamente a destruição dos velhos paradigmas do jornalismo. É apenas mais um dado que devemos acrescentar à equação jornalística, e que, obviamente, a prática não poderá negar, sob o risco, como antes afirmei, de não conseguir acompanhar. Reforço: ao jornalismo continua a caber a velha tarefa de encontrar as pessoas, e saber onde deve recolher a informação que lhe cabe tratar sob a forma de notícia.

  5. Percebo a perspectiva, Luís, mas a prática com fins propositadamente jornalísticos não pode ser comparada nem colocada debaixo do mesmo chapéu que as redes sociais, por exemplo. Que as novas tecnologias estejam na base de tudo, aceito. Mas o egocasting, que é algo que já vem sendo falado desde o aparecimento dos blogues e das primeiras redes sociais, é mais um fenómeno de consequência do que um universo. E nesse universo, a meu ver, não cabem a prática dos cidadãos com os tais fins propositadamente jornalísticos e dificilmente caberão os actos “de reportagem” aproveitados pelo jornalismo, mesmo que feitos noutro contexto qualquer.
    Dou-lhe exemplos básicos, mas que ilustram a minha visão:
    – o OhMyNews (jornalismo cidadão, no meu entender), que há 10 anos pede aos cidadãos que sejam repórteres e que editem os trabalhos, para que eles os difundam, é o quê?
    – o trabalho do Sr. José que se indignou com o carro da Polícia mal estacionado e tirou uma foto para mandar para o jornal (jornalismo participativo, a meu ver), é o quê?

    (Também havemos de discutir isto pessoalmente)

  6. (Concordo com a necessidade de execução da intenção manifestada na frase entre parêntesis, até porque este é um debate profícuo).

    Quando refiro a questão das redes sociais, tendo a enquadrá-la de um modo mais vasto do que a ideia que delas fazemos a partir das suas manifestações “online”. Entendo que as práticas sociais “online” são um evidente reflexo das dinâmicas sociais contemporâneas. É óbvio que “online” elas ganham visibilidade mas esta não deve ser confundida com transparência. Esta visibilidade pode ser, muitas vezes, bem mais opaca do que julgamos. É nesta opacidade que enquadro a discussão sobre o “jornalismo participativo” (cuja prática ainda admito como possível) e sobre o, para mim, mais inverosímil “jornalismo do cidadão”. “Participativo” será, assim, uma das várias formas de olharmos para o fenómeno do ‘egocasting’, embora autores cépticos como a própria Christine Rosen, que cunhou o termo, falem dos perigos da falência democrática de uma tal forma de exercício da cidadania: eu só vejo o que quero ver, só interajo no meu universo restrito de interesses, o que limita desde logo o meu acesso àquilo que me não interessa, logo, aos interesses gerais da colectividade. Note que, ao falar de ‘egocasting’ falo de um fenómeno com determinadas características. Um fenómeno que, embora possa ser mais abrangente do que aponta, dificilmente será totalizante, mas que me parece interessante como teoria para entendermos o que se passa numa boa parte das manifestações de participação social como as que estamos aqui a discutir.
    Os exemplos que dá, nomeadamente do OhMyNews, podem, por vezes colocar a questão da institucionalização do exercício do jornalismo. Mas não sei se será mesmo assim. Pode dizer-me, provavelmente com razão, que esses cidadãos não estão obrigados a seguir a cartilha ético-deontológica dos jornalistas e, por isso, se diferenciam destes. Serão, assim, “jornalistas cidadãos” ou “cidadãos que partilham informação” (eventualmente misturada com opinião pessoal, etc)?. Mais. Pergunto-lhe: será o OhMyNews um site de referência de “notícias”, de tal modo que se possa constituir como substituto dos sites de referência de notícias? Não será, antes, um site onde se encontra “informação”, constituindo-se, por isso, como uma das muitas fontes de informação de onde o jornalismo pode beber? Está a ver em que lugar coloco o jornalismo? Aí está, para mim, o OhMyNews é apenas um exemplo de ‘egocasting’: partilha social da individualidade, construção identitária em rede. Que diferenças substanciais terá relativamente às redes sociais que poderemos situar mais no campo do entretenimento, do passa-tempo?

    Enfim, caro RC, esta conversa suscita-me uma série de reflexões que estão longe de terminadas, e que têm de ser amadurecidas. A questão de uma leitura mais “universal” que posso estar a propor é pouco pós-moderna, eu sei, e por isso, este discurso pode correr o risco de se esgotar num amorfo “consenso” habermasiano. Mas assumo, para já, esse risco.😉

  7. Caro Luís, de facto, considero que o envolvimento dos cidadãos no jornalismo pode assumir as formas de substituto (jornalismo cidadão) ou de complemento (jornalismo participativo). Não significa isto que os espaços que considero fazedores de jornalismo cidadão, como o OhMyNews, tenham capacidades para constituir verdadeiras alternativas ao jornalismo tradicional. Acontece que procuram ter esse papel. É importante que explique esse meu ponto de vista.
    Eu aceito – e até defendo – que se coloque o jornalismo “acima” destes fenómenos. Os colaboradores do sítio em questão podem até ser apenas, como sugere, “cidadãos que partilham informação”. A questão é que eu acho que esse fenómeno deve ter um nome que o enquadre no domínio do jornalismo e/ou da informação. Proponho “jornalismo cidadão” ou “jornalismo amador”, mas haverá, certamente, muitas outras hipóteses.
    Por outro lado, se o OhMyNews fosse, apenas, “um site onde se encontra informação” que os jornalistas usam como fonte, eu catalogá-lo-ia como um espaço de jornalismo participativo – fosse o propósito, apenas, o de “abastecer” os média. Mas penso que não era a isso que se referia; o Luís isola o jornalismo dos restantes fenómenos sociais na área da comunicação (nomeadamente daquilo que considera frutos do “egocasting”) e mantém tudo como dantes (isto não tem carácter depreciativo): jornalismo aqui, cidadãos ali. É possível. Eu também “acredito mais” no jornalismo participativo; mas acho que devo dar ao jornalismo cidadão a hipótese de confirmar ser aquilo que eu acho que ele pretende ser. Analisemos e reflictamos. Um abraço!

  8. Bem, o debate continua e urge, de facto, que possamos fazê-lo nas circunstâncias em que o RC propôs na sua frase entre parêntesis.😉
    Acho que não está a interpretar correctamente um dos aspectos da minha argumentação. Quando refere que eu isolo o jornalismo “dos restantes fenómenos sociais na área da comunicação” parece-me estar a inferir algo que eu não disse. Se algo lhe deixa indicações nesse sentido, agradeço-lhe que me ajude a clarificá-lo. O jornalismo não pode ser isolado, desde logo, por ser parte integrante desse mundo cada vez mais vasto da comunicação. Mas pode, e na minha perspectiva, deve ser analisado nas suas especificidades, e desde logo, na forma como se estabelece a si próprio numa determinada ordem metacomunicativa (repare como até o próprio jornalismo é, tantas vezes, objecto do seu discurso). Pergunto-lhe: fará então sentido uma análise, que não sei bem se é a que está a apontar, que preconize um olhar do jornalismo como mero fenómeno comunicativo, em plano de igualdade com os restantes fenómenos comunicativos? E onde fica a parte metacomunicativa que lhe é inerente e sem a qual ele deixa de ter impressão digital, de se diferenciar no indistinto mar de uma comunicação feita apenas de vagas e fluxos? Daí, a minha abertura total a estudar-se a participação activa dos cidadãos no jornalismo (numa perspectiva que não esqueça que a participação não começou agora com a Internet, mas já existe há muito tempo, por exemplo, nas “cartas ao director”), e a minha dificuldade em aceitar de ânimo leve o avanço de um conceito que se designe “jornalismo do cidadão”.

  9. Creio não o ter interpretado mal, mas posso não me ter feito entender. Para não incorrermos em equívocos nem eternizarmos o debate, parece-me efectivamente melhor que adiemos a continuação para as referidas circunstâncias🙂
    Queria referir, apenas, que também vejo o início – não da participação, mas – do envolvimento dos cidadãos nos domínios dos jornalistas ligados a fenómenos como os das cartas dos leitores. Lembro-me sempre, a esse propósito, do interessante caso relatado por Kovach & Rosenstiel em “Os Elementos do Jornalismo”: em meados do séc. XIX, o Houston Star convidava os seus leitores a reunirem-se e a lerem as notícias no átrio do próprio jornal, desfrutando de uma bebida e de um charuto.
    Abraço!

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