Ricardo Costa: é assim que se entrevista?

A maioria dos comentários à entrevista do Primeiro Ministro à SIC centrou-se, naturalmente, nas afirmações do entrevistado. Mas, ao contrário de entrevistas entrevistaanteriores, em que os entrevistadores foram criticados por deixarem Sócrates “à vontade”, desta vez, a performance especialmente de Ricardo Costa foi objecto de leituras bastante díspares. Houve quem a considerasse um exemplo do que deve ser a atitude de um jornalista e quem a tomasse exactamente pelo oposto.
Em que ficamos, afinal? O que deve ser uma boa entrevista e um bom entrevistador, particularmente em televisão? Não será importante discutir o assunto?
Para já, aqui ficam alguns contributos:

EDUARDO CINTRA TORRES
“É certo que a SIC tem dias: por exemplo, a entrevista a Sócrates foi bem conduzida e as perguntas não ficaram por fazer. Mas esta é a SIC que vai cobrir o ano das três eleições. Não inspira confiança”.
(in Público, 10.1.2009)

SÃO JOSÉ ALMEIDA
“O que se passou foi que José Sócrates foi confrontado com uma atitude atenta, preparada e agressiva por parte dos dois jornalistas que conduziram a entrevista, Ricardo Costa e José Gomes Ferreira, atitude, essa sim, rara no jornalismo português.”
(in Público, 10.1.2009)

TIAGO BARBOSA RIBEIRO
“Um dos problemas do nosso jornalismo político é o exercício da política na condição de jornalista. E confundir contraditório e olhar crítico com discordâncias políticas não acrescenta propriamente muito a um debate parlamentar. Com a diferença, não negligenciável e independentemente do actor X ou Y, que o primeiro-ministro e os deputados foram eleitos para os cargos que ocupam”.
(in O País Relativo, 6 .1.2009)

MAGALHÃES E SILVA
“…lamento que a entrevista do primeiro-ministro à SIC vá ficar recordada pela ridícula e inqualificável agressividade dos entrevistadores, feitos menino Zequinha à compita pela maior grosseria, abrindo caminho, afinal, para que o entrevistado fizesse uma prestação televisiva de gabarito.(…) É tempo de grande parte dos nossos entrevistadores perceberem que não estamos nada interessados nas suas opiniões e que a sua função, à semelhança do psicanalista, é a de questionar tudo e de fechar todas as fugas – para que o escrutínio se possa fazer. Tudo, menos perder a serenidade e substituir-se ao psicanalisado, queria dizer, ao entrevistado”.
(in Correio da Manhã, 9.01.2009)

FERNANDO MADRINHA
Uma entrevista televisiva pode revelar-se tão assassina para quem responde como para quem pergunta. Por isso, custa a perceber que um entrevistador experiente e bem informado, como é Ricardo Costa, tenha caído na tentação de fazer de cada diálogo uma zaragata e de acompanhar cada pergunta de uma opinião pessoal que os telespectadores não lhe pediram — e na qual talvez não estivessem minimamente interessados naquele contexto. A noite pouco feliz de Ricardo Costa é um bom pretexto para se reflectir sobre as tentações do jornalismo justiceiro e a auto-regulação de que sempre falamos para contrapor aos excessos dos reguladores oficiais, que terão sempre tendência para o ataque censório. Se os próprios jornalistas não fizerem essa reflexão sobre o seu papel e o seu comportamento, alguém vai fazê-la por eles, mais tarde ou mais cedo e com consequências funestas, quer para a liberdade que tanto prezamos, quer para a prosperidade dos media”.
(in Expresso, 11.1.2009)

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10 thoughts on “Ricardo Costa: é assim que se entrevista?

  1. É preciso perceber quatro coisas e só depois analisar a prestação do Ricardo Costa:

    1) A entrevista política é um sub-género jornalístico que exige dos jornalistas certa dose de agressividade, sobretudo quando o entrevistado tende a não responder às perguntas ou a refugiar-se em argumentos vagos, como é notoriamente o caso de Sócrates (o João Adelino Faria dizia há dias à Visão que enquanto o entrevistado não diz directamente que não responde a certa pergunta pergunta, o correcto é insistir até ao limite);

    2) a agressividade e contundência na entrevista política justificam-se plenamente quando o entrevistado exerce um poder público, sendo certo que o jornalismo é socialmente reconhecido como uma actividade de escrutínio dos poderes (ninguém entrevista velhinhas na rua com a mesma gana com que entrevista um primeiro-ministro);

    3) quanto mais próximo ideologicamente está o jornalista do entrevistado maior é a tendência para se querer distanciar dele logo, de se socorrer de expedientes como a agressividade;

    4) a ideia de que os jornalistas não podem emitir opiniões é ridícula (os jornais têm editoriais, crónicas e críticas culturais assinados por jornalísticas); mesmo no exercício de um género jornalístico factual (e não opinativo, como aqueles), a opinião do jornalista não deve ser eliminada, muito menos quando o jornalista tem à sua frente o visado, com tempo de antena para contrariar a opinião emitida pelo entrevistador.

  2. José Carlos de Vasconcelos
    “A entrevista poderia, no entanto, ser mais esclarecedora, designadamente se os entrevistadores, camaradas por quem tenho estima, não dessem tantas opiniões, questionassem mais, de forma incisiva, e discutissem menos, etc. De resto, um clima de aparente “oposição” por parte dos jornalistas, interrupções, essas coisas, só favorecem a conquista da adesão ou simpatia dos telespectadores por parte do entrevistado…”
    in Visão, nº827, 8 a 14 de Janeiro 2009

    Muito bem apontada a questão do impacto emocional nos telespectadores. Mas isto é elementar em política. Só os jornalistas parecem ter-se esquecido que não são políticos e daí deveriam trabalhar mais para serem capazes de preservar o seu próprio estatuto.

  3. O ponto referido no comentário de Nelson parece-me crucial: os jornalistas e os políticos têm papéis diferentes, e, portanto, não pode transformar-se uma entrevista de um jornalista a um político num debate entre dois políticos, como que discutindo ‘de igual para igual’ as suas diferentes opiniões sobre as matérias (tal como a investigação jornalística não pode fazer-se da mesma maneira que se faz a investigação policial, para citar outro exemplo muito frequentemente discutido). Por outro lado, acho que uma coisa é ser um entrevistador incisivo, bem preparado, insistente, directo, incómodo se necessário, e outra coisa completamente diferente é ser um entrevistador agressivo, zangado, sobranceiro, com constantes interrupções ou ‘bocas’ de gosto duvidoso – quando não no limite da boa educação. Se me permitem a metáfora (e sem ofensa, claro!) não é por “ladrar” muito que o cão “morde” mais ou melhor; é por ser certeiro e firme, mas ao mesmo tempo calmo e determinado, seguro da função que desempenha.

  4. O J. Fidalgo tem toda a razão.
    Na minha opinião, instalou-se ali um clima de guerrilha tal, um ambiente em que os jornalistas perguntavam e contra-argumentavam ao mesmo tempo, que a coisa correu mal. Creio que tiveram tanta vontade de “entalar” o Primeiro-ministro e de se defenderem, simultaneamente, da sua habilidade retórica, que se deram pior ainda do que se o não tentassem.

    Talvez fosse interessante, também, discutir a entrevista de hoje de Mário Crespo a Alberto João Jardim. A fasquia estava muito alta, ainda para mais tratando-se de uma estreia, e acho que o jornalista – que aprecio no registo em causa, embora lhe tirasse, por vezes, um ligeiro excesso de subserviência – não consegui superá-la.

  5. Achei, de facto, como já referido, a prestação de Ricardo Costa um tanto aquém das qualidades que lhe são reconhecidas. Emocionalmente envolvido em várias dos temas debatidos, perdeu um pouco a sua noção de entrevistador para tentar criar (sem dar por isso, creio) uma situação de frente-a-frente que só seria compreensível se também estivesse inserido no mundo político activo.

    Quanto à entrevista de Mário Crespo a Alberto João Jardim, para a qual RC nos remete, acho que o entrevistado teve nas mãos o entrevistador. Acompanho RC na sua ideia de que seria interessante discutir este tema.

  6. Os entrevistadores não tentaram “entalar” o PM. Quiseram evitar serem acusados de complacência, como na outra entrevista com RC e Nicolau Santos. Tentar olhar apenas para o que se diz é esquecer algumas condicionantes que existem na televisão e também na rádio. Por exemplo, a voz de Nicolau Santos nunca poderá ajudar a uma boa entrevista em televisão (e em rádio tb). Ricardo Costa não é um jornalista do audiovisual, pelo menos não devia aparecer nos ecrãs. Não consegue abandonar o “à vontade” de quem está na mesa de café. Quando o tenta fazer passa para a agressividade e não para a assertividade. JGFerreira, embora consiga descer da linguagem cifrada da Economia e Finanças, quando a situação é mais dura, torna o discurso mais cerrado. Não abundam os bons entrevistadores televisivos em Portugal. Há, mas é preciso que passem no crivo complexo das opções das direcções (e administrações ?).Finalmente, quer Sócrates, quer AJJardim, não são nunca apanhados desprevenidos. AJJardim é entrevistado por quem ele aceita e Sócrates a única incursão fora da pública RTP é feita à SIC. Ele sabe quem o espera, e sabe também que em ambiente televisivo dificilmente será posto em causa. Ou são complacentes ou a agressividade volta-se contra os entrevistadores. Sócrates tem muitas horas de televisão, ou já se esqueceram do seu lançamento mediático patrocinado por ERangel, na RTP-1, em conjunto com Santana Lopes ?

  7. Só vi um bocado da entrevista de Mário Crespo a AJJardim e, no pouco que vi, pareceu-me ser mais o entrevistado do que o entrevistador a conduzir a conversa. Aliás, o próprio Jardim explicou, preto no branco, que não estava ali para responder às perguntas que M. Crespo quisesse fazer, mas para falar directamente ao povo português (“ao meu povo!”)… Nestes casos, reconheça-se que é muito difícil fazer entrevistas. Mas Crespo já sabia – ou já devia saber. Por que motivo jornalístico se decidiu fazer agora uma entrevista de uma hora, em ‘prime time’, a Jardim? Que é que ele teria de tão novo, de tão relevante, para dizer “ao povo português”?… Ou será que a SIC escolheu entrevistá-lo na inauguração de um novo programa só porque ele, desbocado e trauliteiro como é, diz sempre umas palavras fortes e garante audiência em qualquer serão de entretenimento?…
    Trago ainda outro elemento para o debate: até que ponto o LUGAR e o contexto físico da entrevista condicionam, de algum modo, essa mesma entrevista? Fazer uma entrevista a Jardim ‘em casa de Jardim’ seria, até em termos psicológicos, a mesma coisa que fazer-lhe uma entrevista no estúdio de Televisão? Crespo é o mesmo a entrevistar quando está sentado na ‘sua’ mesa habitual, no ‘seu’ espaço, a comandar o Jornal das 9, ou quando se senta na sala principal do palácio de Jardim? Neste último caso, não se reforça subliminarmente a ideia de que Jardim está mesmo ‘em sua casa’ e, portanto, ‘nas suas sete quintas’?…

  8. Acho que a escolha de Jardim terá sido, em tudo, uma escolha “comercial” e “de marketing”. Por um lado, pelas audiências, como o J. Fidalgo referiu, e por outro pela vontade de começar “em grande”, até no sentido de afirmar o próprio Mário Crespo como “grande entrevistador” (a própria SIC tem tentado passar essa imagem) e, com isso, de impulsionar o próprio programa.
    Quanto à questão do espaço físico, também não podia concordar mais. O entrevistado só aceita ser entrevistado ali, colocando-se numa posição de grande autoridade – essa redoma protege-o e condiciona, inevitavelmente, o entrevistador.

  9. Depois de ler o excelente debate que este “post” aqui estabeleceu, resta-me juntar às opiniões expressas, com as quais, em geral, estou de acordo, três elementos:

    1. Penso que o facto de a certa altura ter parecido mais um “debate entre políticos” se deveu, pelo menos em parte, à necessidade que o Ricardo Costa (RC) terá tido de defender as suas próprias análises na SIC. Recordo, por exemplo, o episódio do Estatuto dos Açores, que RC disse não ter dúvidas em afirmar que será chumbado pelo Tribunal Constitucional, o que já vinha afirmando nos seus espaços de análise nos jornais da SIC e SIC-Notícias.

    2. Não terão essas análises sido instrumentais na preparação que Sócrates fez da entrevista? Não terão tido os entrevistadores (em especial, RC) dificuldade em apresentar uma questão que fugisse àquilo com que Sócrates já contava ser confrontado? Esta possibilidade veio-me várias vezes à cabeça no decurso da entrevista. Ninguém negará a preparação jornalística quer de Ricardo Costa quer de José Gomes Ferreira, muito menos a qualidade da fundamentação que normalmente conseguem aduzir nos seus espaços de análise na SIC. No entanto, coloco a hipótese de terem sido ambos indirectamente traídos por essas “armas” fornecidas “a priori” a um entrevistado que, todos o sabemos, é extremamente cuidadoso em cada passo que dá, logo, terá feito seguramente esse trabalho de casa… Será?

    3. A melhor forma de desmontar o discurso preparado de Sócrates acabou, na minha opinião, por vir… das citações em rodapé do próprio programa. Porquê? Quantas vezes não estava já em rodapé a quase exacta citação do que Sócrates estava a dizer nesse exacto momento? Lembro-me de várias… o que serviu para denunciar, factualmente, as “punch-lines” e o discurso preparado minuciosamente por Sócrates.

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