O jornalismo e o(s) poder(es)

Inaceitáveis são as palavras atribuídas à ministra da Saúde, não só por revelarem manifesta incompreensão daquele que é o dever de um jornalista, mas também pela implícita “funcionalização” de um profissional da RTP: aparentemente, para Ana Jorge, a estação pública deveria estar ao serviço do poder político. Lamentavelmente, este episódio quase não teve repercussão pública, com a honrosa excepção de um deputado do PSD, Luís Campos Ferreira, que abordou o caso no Parlamento. Da parte do Sindicato dos Jornalistas, que se desse por isso, nem uma palavra de protesto…
M. Betencourt Resendes, in Diário de Notícias, 20.12.2008
[As palavras atribuídas à ministra: “O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é da RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E depois, logo à noite, não sai a reportagem.”]

“(…) uma questão central (…) é hoje a de saber se por trás de uma nobre palavra – ‘o jornalismo’ -, que a história associou a algumas das mais belas aspirações da humanidade (a isenção, a verdade, o pluralismo, o rigor, etc.), não se terá entretanto instalado uma actividade que já pouco ou nada tem a ver com elas, que agora visa mais o lucro do que a verdade e se condiciona mais por múltiplos interesses do que por sólidos valores (…)”.
Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 20.12.2008

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Conhecida avaliação dos centros de pesquisa em comunicação

A Fundação para a Ciência e Tecnologia acaba de divulgar os resultados da avaliação externa feita aos centros de investigação da área de Ciências da Comunicação. A ordenação ficou assim estabelecida:

Excellent:
CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho)

Very Good:
– Labcom – Laboratório de Comunicação e Conteúdos On-line (Universidade da Beia Interior)
– CIMJ – Centro de Investigação Media e Jornalismo

Fair:
– CECL – Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens (Universidade Nova de Lisboa)*
– CETAC.MEDIA – Centro de Estudos das Tecnologias e Ciências da Comunicação (Universidade do Porto e Universidade de Aveiro)*
– CICANT . Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (Universidade Lusófona)*.

*Segundo o site da FCT estas três últimas unidades anunciaram a intenção de solicitar uma reavaliação.
O painel de investigadores foi constituído por Peter Golding (Univ. Loughborough, UK), Cees Hamelink (Univ. Amsterdão) e Else de Bens (Univ. Gent, Bélgica).

ACTUALIZAÇÃO (19/12):

Corrigi, neste post, as designações de cada uma das classificações, passando a utilizar aquelas que a FCT utiliza. Questionaram-me a propósito da tradução de “Fair” para português e pareceu-me justo o reparo.
Há quem entenda que não deveria ter sido divulgada a classificação dos três centros de investigação que solicitaram reavaliação. Discordo. Primeiro porque a avaliação existe e foi comunicada aos centros e toda a comunidade científica a conhece (e em alguns casos solidarizou-se com os que foram objecto de tal classificação). Segundo, porque, se se divulga que os afectados recorreram da avaliação, é porque esta existiu. E se, porventura, ela é considerada uma injustiça, não é importante conhecê-la?
Finalmente, porque o conhecimento do que se passou me parece mais transparente do que o silêncio. Afinal, enquanto docentes que avaliam os alunos e os colegas, é assim que procedemos. Não vejo, por isso, onde possa estar a falta de ética, de que me acusa um comentário neste post.

Media Re-public – série de trabalhos

Há cerca de três anos, o Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard, publicou um trabalho que viria a ter um impacto significativo nas leituras que se fizeram/fazem do relacionamento entre o jornalismo e os blogs.
Agora, dando seguimento a um projecto sustentado, disponibiliza – mesmo a tempo das leituras de Natal – uma série de contributos, sob a designação genérica “Media Re:Public – News and Information as Digital Media Come of Age“.
Há uma introdução, discutem-se temáticas específicas – informação internacional, princípios para uma nova literacia mediática, serviço público e assuntos públicos, média digital, democracia e diversidade, média tradicionais e a esfera pública em rede, editores-o melhors está para vir? – e apresentam-se três estudos de caso.
Escreve-se na nota de apresentação: “This inclusive conversation should aim to build on the best from all areas — the energy of participatory media and the expertise of professional journalists, the competitive drive of commercial media and the commitment to excellence of public broadcasters, the dedication and deep knowledge of community organizations and advocacy groups and the interests and energy of the public. The Media Re:public project’s research process benefited from a large and varied group of contributors, authors, and interlocutors.”

[Post parcialmente replicado a partir deste]

Luís Santos e o futuro da Internet

O Pew Internet & American Life Project acaba de publicar a terceira ronda do estudo “The Future of Internet” e um dos motivos de interesse é a contribuição de Luís Santos, investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade e colaborador deste blog, por parte de Portugal.
O estudo sublinha, como nota geral, que os peritos consultados

“expect major tech advances as the phone becomes a primary device for online access, voice-recognition improves, and the structure of the Internet itself improves. They disagree about whether this will lead to more social tolerance, more forgiving human relations, or better home lives”.

Luís Santos, que tem vindo a estudar as mudanças numa redacção de um grande jornal diário, com o avanço dos processos de convergência, vê deste modo o futuro:

“We do not need to go forth a decade to anticipate a much more complex (hyper-complex, as Qvortrup calls it) social environment. People will most certainly adopt more flexible identities and more public facets of those identities, and that will not produce enhanced transparency; quite the opposite. Still, transparency in that particular sense is not a very desirable goal in itself—it rhymes with conformity, and that runs against the pillars of knowledge appropriation and development.”

Para as levas anteriores deste estudo, ver aqui e aqui.

Prorrogado prazo para SOPCOM

A Direcção da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação) anunciou a prorrogação do prazo para apresentação de propostas de comunicação ao 6º Congresso até 15 de Janeiro.
A decisão fica a dever-se à necessidade de dar mais tempo para a divulgação desta iniciativa, nomeadamente nos países lusófonos e em Espanha. Como foi divulgado, o 6º SOPCOM, que se realiza em lisboa, na Universidade Lusófona, acolhe também o 8º Lusocom (lusófono) e o 4º encontro ibérico.

Agregação de Helena Sousa – dia 2

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 Notas da lição de Helena Sousa: Introdução à Economia Política dos Media: 

«Fiz esta opção porque a economia política dos Media é uma área disciplinar nova em Portugal. A própria Sopcom não tem uma secção assim designada. Resolvi deste modo apresentar uma visão mais panorâmica porque é uma oportunidade para mim, para reflectir sobre as tendências e os caminhos».

 

«O ponto de partida é que todos consumimos produtos culturais. Mas reflectir sobre os produtos a que temos acesso não é reflectir sobre os sistemas que os criam.»

Reflectindo sobre o percurso, Helena Sousa estabeleceu “a paternidade do campo”, apontando as contribuições de Dallas Smythe de Robert Brady, nos anos 60. Depois de uma certa desaceleração nos anos 80, «a Economia Política dos Media ganha um novo fôlego, animada pelas falhas e contradições dos sistemas capitalistas». Assim, afirmou a candidata, «os anos 90 foram anos bons, de afirmação do campo e importante fortalecimento da área».

 

Durante a lição, Helena Sousa abordou as características nucleares da área disciplinar, assinalando, em primeiro lugar, a perspectiva holística: «O estudo da produção, num sistema capitalista, não pode ser isolado do sistema social». Referiu-se também a uma perspectiva histórica: «Mantém uma fortíssima relação com a História e com as inúmeras possibilidades de pensar a transformação social. Porque sem dimensão histórica é impossível problematizar a natureza das transformações sociais».

 

Outra característica nuclear da Economia Política é a sua exigência moral, já que «não existe neutralidade moral». Assim, esta disciplina «torna visível os valores subjacentes às suas leituras do mundo e assume um compromisso explícito com valores como a justiça social, a igualdade e o bem público». Os economistas políticos, diz Helena Sousa, consideram errado a “higienização da ciência” que levou a uma “pesquisa pouco reflexiva e socialmente pouco responsável”.

 

A praxis é ainda caracterizadora desta área disciplinar, que «visa ultrapassar a dicotomia entre estudo e política, entre teoria e acção». Temos assim uma «investigação comprometida com o desenvolvimento social» que se quer contribuidora «para a acção reformadora, tanto por parte do Estado como dos cidadãos». Assim, estes académicos são também, por vezes, autores da mudança, sendo sindicalistas (Garnham) ou reformistas (McChesney): «Não têm vergonha de meter as mãos no terreno». (notas de Elsa Costa e Silva)

 

Notas da arguição de Moisés Martins

O arguente da lição, Moisés Martins, sintetizou a sua intervenção naquilo que chamou de “chaves de entrada”, destacando de partida o lugar da Economia Política dos Media nas Ciências da Comunicação, que se constituíram como campo cientifico com o concurso de várias disciplinas – Teorias da Comunicação, Linguística, Semiótica, Filosofia Analítica, Retórica e Argumentação, e naturalmente a Economia Política dos Media. Esta é, portanto, uma disciplina par de um conjunto de outras disciplinas que constituem as Ciências da Comunicação.

 

Relativamente à candidata, o arguente considerou que a toma «como exemplo de cosmopolitismo e exemplo de modernidade. Tomo-a também como fautora da área em termos nacionais». Nesta medida, Moisés Martins considerou ainda que «a ciência só pode ser pensada em termos globais, sendo-se par daqueles que nos vários cantos do mundo trabalham os mesmos assuntos e sendo-se par dos melhores», o que Helena Sousa tem feito.

 

 

Numa segunda chave de leitura, o arguente lembrou o contributo da Economia Política dos Media para a qualidade do ambiente simbólico das democracias. E seguindo o texto da lição da candidata, recordou que a Economia Política dos Media se encontra vinculada aos valores que sustentam a nossa sociedade democrática. Ora, existe, por isso, um compromisso de cidadania para a constituição de uma boa sociedade. Daí que a Economia Política dos Media se interesse pelo funcionamento dos mercados dos media, não do ponto de vista estritamente económico, mas também simbólico. É, com efeito, um discurso comprometido com valores.

 

Procurando definir uma terceira chave de entrada, Moisés Martins referiu-se à forma como a Economia Política dos Media se inscreve no tempo das sociedades. Depois lembrou a candidata que a disciplina de que se ocupa tem um carácter reformista. (notas de Madalena Oliveira)

 

Notas completas em Jornalismo & Comunicação 2

TV digital terrestre no ar

A Anacom emitiu esta semana o documento que dá à PT o direito de utilizar as frequências da televisão digital terrestre (TDT) portuguesa, relativas aos canais livres. No entanto, é preciso ressaltar que a TDT tem estado no ar desde Outubro, a título de testes.

O primeiro programa transmitido pela TDT portuguesa foi um documentário sobre a vida marinha. Depois o documentário foi substituído pelas transmissões dos quatro canais generalistas.

As emissões são em MP4, portanto, quem tem o aparelho adequado a receber esses sinais, pode conseguir assistir à TDT, pelo menos na região de Lisboa, onde são feitos os testes.