Complexidades do jornalismo: um caso com The Guardian

No próximo número de “The New York Review of Books” vem publicado um texto do director do diário Guardian que deveria ser lido e debatido em todas as redacções, bem como nas escolas de formação de jornalistas.

A peça de Alan Rusbridger, intitulado “A Chill on ‘The Guardian’“, refere-se a um embróglio em que o jornal se viu metido desde a Primavera deste ano, depois de uma investigação jornalística sobre alegadas estratégias do grupo multinacional de alimentação Tesco de fuga aos impostos. Os trabalhos jornalísticos publicados viriam a revelar-se incorrectos em vários aspectos significativos, apesar de os jornalistas envolvidos serem especialmente especializados e credenciados.  O jornal pediu desculpas públicas por duas vezes, mas isso não impediu o grupo de ter insistido em accionar um pesado processo judicial por difamação que, depois de muitas peripécias e gastos astronómicos em advogados, consultadorias e diligências super-especializadas, até acabou em bem para o jornal.

O caso é interessante por vários motivos:

– a alta complexidade dos hiper-poderes e das engenharias financeiras a que deitam mão, fora do alcance da maior parte dos jornalistas, mesmo especializados;

– o tempo e dinheiro que um meio de comunicação terá de gastar para investigar e dar conta ao público daquilo que, de outra forma, permanecerá na sombra;

– os riscos que corre quem se atreve a trilhar esses caminhos, incluindo o de afrontar múltiplas equipas de poderosos consultórios de advogados e de consultadoria financeira (e a correlativa falta de accountability com que podem contar os protagonistas desses poderes);

– A natureza e alcance das leis relativas à difamação, variáveis de país para país, dando umas mais chances ao trabalho dos jornalistas e outras mais aos que se acham vítimas daqueles;

O caso de The Guardian foi desencadeado antes da emergência da presente crise, que tem fustigado de modo particular o Reino Unido. Imagine-se a dificuldade de cobrir os meandros, natureza e alcance da crise!

Texto de apoio: Tambini, D. (2008) “What is Financial Journalism for ? Ethics and Responsibility in a time of Crisis and Change: A Polis Report”, London School of Economics

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Teoria matemática da comunicação faz 60 anos

Passam este ano 6o anos sobre a publicação do célebre texto de Claude Elwood Shannon “A mathematical theory of communication”, que tanto iria marcar as concepções e aplicações da informação, na segunda metade do séc. XX.
O artigo foi originalmente publicado nas edições de Julho e Outubro de 1948 do “The Bell System Technical Journal”, aparecendo a teoria associada também aos nomes de Warren Weaver e Norbert Wiener.

Põe o foco em conceitos e dimensões como entropia, ruído, transmissão, (de)codificação, sinal, sistema de informação. A designação da teoria é, ela própria, criadora de ruído, visto que, mais do que teoria da comunicação, é uma teoria da informação (e de um certo conceito de informação). Mostra-se distante de uma concepção dialógica de comunicação e indiferente aos aspectos semânticos. Logo a abrir o texto fundador, escreve Shannon:

“O problema fundamental da comunicação consiste na reprodução exacta ou aproximada, num determinado ponto, de uma mensagem seleccionada num outro ponto. Ocorre com frequência que as mensagens possuem significados (…)  Estes aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema da engenharia”.

(Via: Media Trend)