O riso e o pranto perante o mundo

Confesso que a primeira propriedade do riso é o risível; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o sinal do racional; o pranto é o uso da razão.
Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há-de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece.
Que é este mundo senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes?
E à vista deste teatro imenso, tão trágico, tão lamentável, que homem haverá (se acaso é homem) que não chore?
Se não chora, mostra que não é racional, e se ri, mostra que também as feras são capazes de rir.

Padre António Vieira, 1674
Citado no Público de ontem por João Bénard da Costa

2 thoughts on “O riso e o pranto perante o mundo

  1. “Deve-se rir, mas sem parar de filosofar”- Epicuro. E Espinosa: “Não rir,não chorar,não detestar, mas compreender.” O mesmo com nuances.
    O riso só por si não basta, mas não há que renunciar a rir, a começar por rir de si mesmo. Rir dos outros também, mas é preciso que não seja derrisão, desprezo, escárnio, ódio.
    Mas há coisas de que é impróprio rir. São mesmo de chorar, como diz o Vieira. Apelam à misericórdia, palavra esquecida e estragada, nestes tempos de técnicos, de eficácia e falta de genuino humor. Vide alguns humores fabricados na indústria televisiva e da Internet…
    “Homo Misericors- Aquele que é objecto de misericórdia é como que gerado por aquele que da mesma misericórdia é sujeito” – leio no Padre Manuel Antunes – Obra Completa,Tomo II, Paideia: Educação e Sociedade, Edição Crítica, Fundação Calouste Gulbenkian.
    Estava-me diante dos olhos e não resisti a ri(r)postar.

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