Capas de jornais e eleições norte-americanas

Nos últimos dias, observei as capas dos jornais americanos durante a cobertura das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Chamaram-me a atenção, sobretudo, as capas da terça-feira (04/11), dia de ir às urnas; e também as do dia seguinte (05/11), o esperado momento de divulgar o candidato eleito.
Após uma rápida e superficial observação de tais capas (disponibilizadas no Newseum), constatei uma intensa repetição de títulos e fotos. “It’s time to decide“, e suas variações, era o que predominava: “Time for the decision“; “Time for you to choose“; “Decision day“; “It’s up to you“… Outros periódicos optaram pela notabilidade histórica do evento: “A historic election day“; “This campaign is History“… Enquanto outros aderiram à campanha de incentivo aos cidadãos a votarem: “Vote“; “Vote today“, “The power of one“….
Quanto às imagens, o constante eram as fotos de cada um dos candidatos lado a lado (ou “frente a frente”), sendo que muitas dessas imagens eram idênticas: candidato e bandeira dos Estados Unidos ao fundo.
Já nas capas da quarta-feira, reparei novamente que as variações entre os diferentes periódicos eram mínimas. Alguns (muitos, por sinal) simplesmente diziam o óbvio: “Obama wins” – esta manchete repetiu-se por capas e mais capas, sendo que muitas delas, além da mesma manchete, apresentavam também a mesma foto. Vários outros voltaram à abordagem histórica, que já havia sido mencionada no dia anterior: “A historic day“; “Historic victory“; “Obama makes History“… Muitas primeiras páginas apresentavam simplesmente “Obama“, enquanto várias outras referiam-se às palavras do próprio candidato: “Change has come“; “Yes, we can“…
Pergunto-me, portanto, o porquê de tais repetições, ainda mais tratando-se de repetições do óbvio. Fico com a impressão de que, inconscientemente, os jornais determinaram certas categorias nas quais deveriam concentrar-se – DECISÃO; HISTÓRIA; VOTO; MUDANÇA – como se não fosse “permitido” escolher títulos ou imagens fora das abordagens pré-estabelecidas.20081105_obama-grabs-headlines(imagem retirada daqui)

É facto que a rotina nas redacções muitas vezes impossibilita a elaboração de uma primeira página mais criativa. Mas neste caso não se trata de uma primeira página inesperada ou de uma assunto que tenha surgido repentinamente. Há muito tempo os meios de comunicação acompanham intensamente as eleições norte-americanas e já era mais do que sabido quais seriam os temas desses dois dias: a disputa final entre os dois candidatos, e a vitória de um deles. Portanto, estas manchetes poderiam estar sendo elaboradas já há muito tempo, certo? Logo, não poderiam ser mais criativas e não tão “coincidentes” entre si?
Não questiono se o tema deveria ou não estar nas capas de todos os jornais. Acredito que este era, sem dúvida, o assunto do dia e, tanto como leitora, quanto como jornalista, parece-me evidente dar o destaque merecido às eleições daquele país, sobretudo naquele país. Penso, entretanto, que as possibilidades de abordagem são inúmeras. Não só em relação aos títulos (que dependem sobretudo da criatividade – e boa vontade – de quem os elabora), como também em relação às fotografias. Seguramente não eram poucas as imagens disponibilizadas pelas agências de notícias nos últimos dias. Seguramente seria possível que cada um desses veículos optasse por uma imagem diferente e ainda assim sobrariam muitas e muitas outras a serem escolhidas. Por que, então, os jornais tendem a escolher as mesmas fotos e títulos? Por que, mesmo os que são diferentes, não são assim tão diferentes? Estariam os jornalistas condicionados a agir maquinalmente, sem nem se darem conta disso? Ou trata-se simplesmente da preguiça de se criar algo novo? Como já disse, neste caso das eleições norte-americanas, a velha desculpa da “falta de tempo” não justifica. Não tenciono culpabilizar ninguém e nem mesmo dizer como as capas devem ou não ser feitas, mas penso que esta é uma questão que merece ser questionada e reflectida, já que é recorrente no jornalismo contemporâneo.

Daniela Caniçali
(repórter fotográfica)

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