Quais os limites da actuação dos media?

A Prof. Sylvia Moretzsohn, da Universidade Federal Fluminense (Brasil), teve a gentileza de partilhar com os leitores deste blogue algumas inquietações e reflexões sobre a cobertura mediática do desfecho do sequestro de Santo André, no ABC paulista, que se prolongou por quase toda a semana passada. Em particular ela chama a atenção para os limites que os jornalistas deveriam respeitar, em situações deste tipo, em dois textos, um de ontem e outro de hoje:

Imagino que vá repercutir aí, se é que já não repercutiu, a história de um sequestro que começou na segunda-feira e teve um desfecho trágico no fim da tarde de ontem, em Santo André. Um rapaz de 22 anos que invadiu o apartamento da ex-namorada, de 15, e a manteve refém (inicialmente com outras pessoas, depois só com a amiga dela, que chegou a sair mas depois retornou). A moça levou dois tiros, um na cabeça, e vai morrer; e será melhor que morra porque do contrário terá vida vegetativa.
O caso foi permanentemente noticiado desde que começou.
Quando se trata de um sequestro clássico, normalmente a imprensa respeita o sigilo. No entanto, isso é facilitado porque em geral não se sabe o local do cativeiro. Não foi o caso agora, o local era plenamente conhecido – um conjunto habitacional na periferia da cidade (nas “quebradas”, como diz a gíria paulistana). Além do mais, existem todos esses apelos para que os “cidadãos” colaborem com informações (especialmente imagens) sobre fatos que possam ter relevância. E o conjunto habitacional está cheio de “cidadãos” – você há de imaginar o circo que se montou em todos esses dias, e, por todos, o exemplo daquele filme do Billy Wilder (Ace in the Hole, aqui traduzido por A montanha dos sete abutres) é definitivo.
Sei que é impossível definir com precisão o nível de influência do papel da mídia no desdobramento de situações de extrema tensão como essa. Mas me parece indiscutível que a cobertura ali, com permanentes flashes ao vivo, é um fator de exacerbação dos ânimos e de exploração da excitação em torno do caso. Foram vários repórteres (e apresentadores de programas populares) a entrevistar o sequestrador “ao vivo”, e como se tratava de um caso passional (o rapaz estava inconformado com o fim do namoro) a história tinha ainda um atrativo especial.
Bem, a excitação envolve a expectativa por um desfecho – um caso que se arrasta por dias, sem solução, fica monótono e nos queremos ação…
A ação finalmente ocorreu ontem à tarde, uma das jovens foi ferida, a outra vai morrer, o sujeito saiu ileso e está preso, mas naturalmente todos gostariam de linchá-lo.
Eu penso que essas situações poderiam ser suavizadas se a imprensa não estivesse lá. Francamente, acho que seria importante definir com muita clareza os limites para a atuação da mídia, e punir com muito rigor a ultrapassagem desses limites.
(18 Out. 08)
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Como previsto, a ex-namorada do sequestrador morreu (isto é, teve morte cerebral confirmada ontem à noite).
A amiga dela, também ferida, passa bem, mas continua hospitalizada e não teve contato com a imprensa nem com a polícia. Diz a diretora do hospital (que, como os demais médicos, pareceu sempre desconfortável nas entrevistas e sempre reiterava a necessidade do respeito à ética) que eles não permitirão qualquer abordagem enquanto ela estiver internada. E ela só deve receber alta no prazo de uma semana a dez dias.
Aguardemos então que algum(a) bravo(a) repórter se disfarce de médico(a) ou enfermeiro(a) e penetre no quarto onde está a moça para fotografá-la e filmá-la e obter declarações exclusivas sobre o que aconteceu dentro daquele apartamento durante o sequestro. Se o sujeito agredia a ex-namorada, se eles discutiam, o que diziam e… ah!!! se ele a obrigava a fazer sexo, que é o ingrediente indispensável num caso como esse. Estamos todos salivando atrás dos detalhes sórdidos dessa história, para depois podermos nos declarar ainda mais horrorizados. Sobretudo que se trata de um crime passional, e todo mundo tem sua teoria e suas convicções sobre essas questões que envolvem a intimidade.
Num caso que ficou muito famoso aqui, o tal sequestro do ônibus 174 (que virou documentário e agora, também, filme ficcional concorrente ao Oscar deste ano), o sequestrador e uma refém foram assassinados, depois de quatro horas e meia de transmissão direta pela TV (pelo menos um canal aberto – Record – e a GloboNews). Há uns três anos, eu dava aula num curso de especialização para policiais e citei o caso. Um deles disse que havia participado daquela operação e que o rapaz já estava se entregando quando o governador deu ordem para interromper as negociações, que o caso teria de ficar na mão do secretário de segurança. Por que? Porque estava sendo transmitido ao vivo e isso mobilizou a cúpula do executivo estadual. (De fato, o rapaz, que não ia sequestrar ônibus algum, mas talvez fosse assaltar o ônibus – foi flagrado armado por um passageiro, que chamou a polícia -, o rapaz deu o supremo azar de ser abordado quando o ônibus passava no Jardim Botânico, bem perto da Rede Globo; logo se formou o circo, que se prolongou por quatro horas e meia e teve o desfecho que conhecemos). Enfim, o policial assevera que nada daquilo teria acontecido se não fosse a TV.
(19 Out. 08)
(Sylvia Moretzsohn acompanha há anos estas matérias e desenvolveu uma importante fundamentação na sua obra recente Pensando contra os Factos – Jornalismo e Cotidiano: Do senso comum ao senso crítico. Na BOCC – Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, podem ser consultados vários outros textos de sua autoria. Fica aqui, para todos nós, o desafio que colocava no fim da sua mensagem: “Gostaria de saber o que você acha“).