O Público, o bom-senso e a infalibilidade

Uma das razões pelas quais o Público (ainda?) continua a ser um bom jornal reside no facto de  nos dar, por vezes, chaves para a leitura crítica daquilo que publica. Leia-se “A crise e os portugueses“, a crónica de hoje de Vasco Pulido Valente, como exemplo.

O cronista, compreensivelmente, não explicita aquilo que se pode ler ou concluir nas entrelinhas: não é razoável que, numa semana como aquela que o mundo conheceu, um jornal de referência dedique mais de dez páginas ao tema do … casamento homossexual, como aconteceu na edição da última sexta-feira.

Não está em questão a importância ou a oportunidade de debater o assunto (dando de barato que o Parlamento tenha escolhido este momento para o fazer). Também não se nega a atenção que o jornal tem dado à crise (e certamente continuará a dar). É de proporcionalidade e de bom senso que se trata. E, por vezes, esse sentido – tão básico e tão necessário, especialmente em tempos de crise – parece que anda arredado de quem pensa e projecta o que se publica.
A este propósito, é preocupante o que se lê hoje na coluna de Joaquim Vieira, provedor do leitor deste jornal, a propósito de uma notícia relacionada com a vida interna do PCP. Nela o director declara que a experiência da Direcção com uma jornalista da casa ensina que ela possui “fontes à prova de bala”, “quando toca a notícias sobre o PCP”.

“Ficamos assim informados – comenta o provedor – de que existem no PÚBLICO dois tipos de jornalistas: os infalíveis, que estão dispensados de mencionar a origem das informações que publicam, e os outros, sujeitos à terrena condição de que errar é humano, e que, portanto, se presume deverem invocar as fontes em que sustentam o seu trabalho.”

E num tom mais irónico acrescenta:

“Tendo estudado jornalismo in illo tempore, o provedor não aprendeu esta divisão, nem lhe consta que tenha sido entretanto introduzida nos manuais. Mas acha que, ao longo da História, os homens considerados infalíveis nem sempre produziram bons resultados. Não será o mesmo no jornalismo? “

Certamente que é o mesmo no jornalismo. Mas a questão é mais funda, já que se quem dirige atribui ou sugere desta forma a infalibilidade, o que fará relativamente a si próprio?