Afinal há crise ou não há crise?

Uma semana depois de encerrar o congresso mundial de jornais, em Estocolmo, ainda se fazem ouvir os ecos sobre o significado a atribuir à informação ali apresentada pelos responsáveis da WAN (World Association of Newspapers). A ideia geral e ‘oficial’ foi que o grande desafio de uma imprensa que, apesar de tudo, continua a crescer, reside na inovação. E não faltaram sinais, ideias e testemunhos dessa aposta (bastará, para tal, rever os posts que foram sendo publicados em The Editors Weblog).
No pós-congresso surgiram algumas notas críticas do tom alegadamente demasiado ‘cor-de-rosa’ dos dados sobre o crescimento da circulação de jornais. Como se pode ver nos links citados mais adiante neste post, foi apontado (mas também contestado) um desfasamento entre o discurso dos directores e o dos empresários, sugerindo-se que a mensagem dos corpos directivos da WAN convergiria mais com os últimos. Mas, sobretudo, foi chamada a atenção para o erro grosseiro de leitura do crescimento global da circulação superior a dois por cento. E isto porque ele resultaria essencialmente do crescimento verificado em países em vias de desenvolvimento. Pelo contrário, nos países desenvolvidos, a tendência é exactamente a inversa (caso dos EUA, onde, dos 50 maiores jornais, quase um terço está a perder dinheiro).
Em Portugal, os ecos sobre estas matérias foram diminutos, a avaliar pelo que vi. Apesar de termos tido cerca de uma dezena de responsáveis do sector em Estocolmo, dá a impressão que cada um guarda o que tem a dizer para reportar aos seus pares, nos conselhos de administração ou nas direcções dos jornais. Mas não haverá matérias que seria necessário debater na praça pública?

Notas de leitura:

Juan Varela, em Periodista21, La dudosa buena salud de la prensa – “En las asambleas de editores de periódicos los datos son siempre buenos. Pero lo justo para seguir justificando las ayudas públicas a los medios. La realidad es otra y quienes están de verdad en la brecha lo saben bien”.

Roy Greensalde, no seu blogue em The Guardian: WAN 2008: Publishers and editors clash over illusion and reality – “(…) publishers and editors are living in parallel worlds. The congress, the publishers’ conference, was dominated by the upbeat statistics about the good health of newspaper sales, newspaper launches and newspaper profits (…). This was the great illusion. Yet all the discussions at the editors’ forum were dominated by how to deal with the decline – whether rapid or gradual – of newspaper circulations and the accompanying flight of advertising as people turn their backs on newsprint in favour of the internet. This was the reality”.

WAN’s Timothy Balding: why Roy, the digital ponderer, has got it all wrong – “If anyone is in a state of denial, it is our dear Roy. And that’s why, year after year, WAN has to give a reality check to him and the whole army of digital, pondering print undertakers, who seem clearly hurt by the enduring resilience and, yes, dirty word, ‘growth’ of print in the world. (And I haven’t even mentioned here the free daily phenomenon, which makes the figures look even better)”.

Stephen Glover, in The Independent The doom mongers are wrong – newspapers are booming: “When the pessimists go on about the death of newspapers in developed countries – and these figures suggest that they exaggerate their case – they tend to forget about their amazing success in Asia and parts of Africa, where rising literacy rates and increased spending power are driving higher circulation. To proclaim that the newspaper industry is dying is to take a very insular view. It is not true even in the West, where still only a minority of readers prefer the internet. In the Third World, where internet access is restricted, and is likely to remain so for some time, newspapers are a roaring success”.

Dean Singleton’s Speech In Sweden: 19 Of The Top 50 US Newspapers Are Losing Money: “In the future, there will be two categories of newspapers. Those that survive, and those that die … By my estimate, as many as 19 of the top 50 metro newspapers in America are losing money today, and that number will continue to grow”.

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