A ‘borracha’ do Correio da Manhã

Nas edições de sábado passado, dia 17 de Maio, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias escolheram para ilustrar a notícia da violação de uma aluna durante o Enterro da Gata, em Braga, uma foto do mesmo espaço – a barraca onde tudo se terá passado.
Só agora fui, no entanto, alertado para uma diferença substancial.

À foto do Correio da Manhã (páginas 4 e 5) falta-lhe, como se percebe, uma ‘sigla’ que a imagem do JN não esconde.
Há, na história da fotografia em geral e do fotojornalismo em particular, inúmeros exemplos de ‘manipulação’, mas isso não deveria servir de desculpa a ninguém.
O estatuto do jornalista proíbe a falsificação de situações e o Código Deontológico diz, no seu primeiro número, que os factos devem ser relatados com rigor e exactidão.

Vou fazer como tantas vezes faz o João Paulo Meneses: o Conselho Deontológico do Sindicato não terá nada a dizer? E a Entidade Reguladora?

PS (22.05-12h45):
Na sequência da evolução da conversa no espaço de comentário apresenta-se a versão online da notícia do CM, onde se percebe o uso de uma foto tirada no mesmo momento e se identifica a tal ‘sigla’ ausente da versão papel.

Para que serve um jornalista?

Provocatória, a pergunta? Talvez nem tanto, na medida em que perguntar signifique ir ao cerne da questão e envolva captar os sinais e as tendências da mudança de que somos expressão e agente. Parece ser essa também a preocupação subjacente às segundas Assises Internationales du Journalisme, que hoje se iniciam na cidade francesa de Lille.

À pergunta “à quoi sert un journaliste?” responderão diversos profissionais, bloggers, académicos, franceses e estrangeiros. Mas num forum criado para o efeito já existem numerosas contribuições para reflectir sobre o tema. Há também um blogue que acompanha os três dias dos trabalhos.

Redes sociais: contrastes geracionais e de género

obercom web 1.5 O OberCom acaba de publicar mais um relatório, sobre “Web 1.5: As redes de sociabilidades entre o email e a Web 2.0“. Este estudo “centra a sua análise nas ferramentas de comunicação e interacção em tempo real mais populares – IM (instant messaging, programas de mensagens instantâneas), SOE (social online environment, redes sociais on-line) e VoIP (voice over Internet protocol) – cujos modos de utilização confirmam o ciberespaço na sua dimensão comunicacional e enquanto espaço propício à desterritorialização das sociabilidades”.

“Verificou-se – acentua o estudo – que é no campo das sociabilidades (friend-to-friend, peer-to-peer) que maioritariamente se faz uso das Mensagens Instantâneas (IM) e das Redes Sociais Online (SOE). Existem, todavia, diferenças a destacar no uso destas aplicações uma vez que esse uso é mais elevado e intenso em determinados grupos sociodemográficos. Assim, foram identificados contrastes, sobretudo geracionais, de género e motivacionais para se ‘contactar’ e ‘estar on-line’. Em síntese, se o IM surge tendencialmente mais como meio de gestão quotidiana das relações de amizade, de proximidade e familiares, as quais se prolongam no mundo offline; os SOE tendem a constituir espaços de sociabilidade com os círculos de amigos mas também propícios à interacção com desconhecidos e à experimentação e desenvolvimento de relações mais fluidas e débeis, contudo mais criativas e performativas do próprio sujeito, que aí encontra não só um espaço de apresentação de si como também de representação de si, o que significa que é um espaço mais propício a jogos de identidade e ao desenvolvimento de novas formas discursivas”.

O ‘canário’ Twitter

“(…) Twitter is becoming the canary in the news coalmine. It stands to reason: if you’ve just gone through a major event, you are sure to want to update your friends about it. If enough people are chattering about an earthquake at the same time, that’s an immediate indication of a major news story (…) “.

Jeff Jarvis, in The Guardian, 19.5.2008

Transparent Journalism Project

Tim Berners-Lee (o ‘pai’ da internet Web) e Martin Moore, do britânico Media Standards Trust, conseguiram ontem um financiamento de 350 mil dólares para criar um projecto em torno da transparência no jornalismo.
O plano – que venceu o Knight News Challenge de 2008 – será a de criar um sistema que ajude as pessoas a discernir as ‘fair, accurate, and contextual news’ de tudo o resto que circula como informação na net.
Mais no journalism.co.uk

Revistas da Sage em acesso livre

A editora Sage volta a ter disponíveis, até ao próximo dia 31, em regime de acesso livre, todas as suas revistas e respectivos arquivos. Basta ir AQUI e clicar no banner indicativo da campanha.


A flexibilidade

O Hugo Neves da Silva olhou para as eleições em curso no PSD e terá pensado:

1. São tantos candidatos que existe o risco de se perderem informações importantes;
2. É uma ‘corrida’ que está ser bastante comentada na web;
3. Há formas – simples e baratas – de facilitar a vida a quem procura a informação.

Com estas constatações na mão criou o psd2008, um espaço onde – recorrendo ao Blogsearch do Google – são apresentadas as entradas mais recentes sobre cada um dos candidatos.

É uma ferramenta parcial.
É, de facto.
Mas é um ferramenta criada por um não-jornalista que pensou como um editor de um jornal nacional deveria pensar todos os dias.
A flexibilidade…é a flexibilidade (e não apenas o dinheiro!).

Qual a melhor?

Qual a primeira página que melhor capta o acontecimento do dia, tendo em conta que se trata de um meio publicado no dia a seguir ao anúncio desse acontecimento?

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Resgatando a memória sobre os media em Portugal

Acaba de sair do prelo “Os Media em Portugal nos Primeiros Cinco Anos do Século XXI“, mais uma obra produzida no âmbito do projecto Mediascópio, da Universidade do Minho, com a chancela da Campo das Letras. Da autoria de uma equipa de investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade e contando com o contributo de outros académicos e jornalistas, o livro analisa o período 2000-2004 e dá continuidade a um trabalho anterior relativo ao período 1995-1999. Tal como este, é constituído por um conjunto de análises sectoriais e é acompanhado de uma cronologia do período em análise, elaborada a partir do levantamento das notícias sobre o sector dos media.

Eis o Índice, para se ter uma ideia das temáticas tratadas:

  • Políticas da Comunicação no novo milénio: Crises, Impasses e Fracturas, por Helena Sousa
  • Novos desafios a um velho ofício ou… um novo ofício? A redefinição da profissão de jornalista, por Joaquim Fidalgo
  • O Google [2000-2004]: a emergência de um fenómeno global, por Alberto Sá
  • A Programação Televisiva para as Crianças, por Sara Pereira
  • Da justiça dos tribunais à barra da opinião pública: As relações entre a Justiça e a Comunicação Social, por Joaquim Fidalgo e Madalena Oliveira
  • A Formação em Jornalismo: os sinais e problemas de um debate latente, por Sandra Marinho
  • Da Pós-Neotelevisão: a reconfiguração do prime-time nos canais generalistas portugueses, por Felisbela Lopes
  • Sensibilidade, mas com bom senso – Tratamento informativo da dor, por Madalena Oliveira
  • As opções de primeira página de dois diários de referência em dois momentos cruciais da vida política, por Hália Costa Santos
  • Novas tendências no sector da imprensa, por Sara Moutinho
  • Era uma vez a convergência…, por Elsa Costa e Silva
  • A cidadania e os media em Portugal: Notas sobre um período de sinais contraditórios, por Manuel Pinto
  • Rádios Locais em Portugal, 2000-2004, por Rogério Santos
  • Imprensa local e regional: à beira do sobressalto? Análise do quinquénio mais importante da história do sector, por Paulo Ferreira
  • Televisão Regional e Local em Portugal, por Dora Mota

Lê-se na contra-capa:
“Se os media são agentes fundamentais da produção e circulação da cultura, da informação e do entretenimento, como realizam eles esse papel? Eles, que tanto falam dos outros, que dizem a respeito de si mesmos? A que problemas e sectores dão visibilidade? Que aspectos subestimam ou silenciam?
(…) Os autores desejam que este livro possa contribuir para a compreensão crítica do campo dos media e do jornalismo e, ao mesmo tempo, fornecer subsídios para a memória histórica, neste domínio tão relevante das nossas sociedades”.

Media portugueses e o ‘citizen journalism’

How Portuguese News Websites (don’t) use Citizen Journalism” é o título de um artigo que o blogger e freelance Alexandre Gamela escreveu para Oliver Carter, da Universidade de Birmingham.

[A adaptação em portugês foi por ele publicada em O Lago | The Lake, em duas partes: ler Parte 1 | ler Parte 2]

WAN divulga Barómetro das Redacções 2008

The Editors Weblog anuncia a publicação do relatório Newsroom Barometer 2008 e publica alguns dos principais pontos desse estudo sobre tendências no jornalismo e nas redacções.

1: Presentation – main results, the integrated newsroom will be the norm
2: Multimedia, multi-skilled and integrated
3: The future of the press
4: Who participated in the survey?
5: Comments by John Zogby and WEF President George Brock

O preço do Pluralismo – livro (OFCOM)

A entidade reguladora britânica, OFCOM, acaba de divulgar o lançamento de um livro encomendou ao Reuters Institute for the Study of Journalism (Universidade de Oxford).
The Price of Plurality:Choice, diversity and broadcasting institutions in the digital age“, editado por Tim Gardam e por David A. L. Levy, pode ser descarregado gratuitamente [.pdf – 935Kb].
Excerto da introdução:
Plurality is a principle to which it is easy to sign up; however, in any PSB system, there is a price to be paid for it. This leads to hard-edged questions that cannot be pushed aside. They involve decisions as to what level of public intervention, direct or indirect, should fund broadcast content in the digital age; and, once determined, how that money should best be distributed. Framing any policy will involve tough trade offs between plurality and impact in our PSB system, and between broadcasters’ diversity and scale.”

O ‘directo’ : “incentivo à preguiça”

” (…) Os serviços de notícias dos três canais ditos ‘generalistas’, sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo e cada vez menos informação. Desapareceram os comentários inteligentes e informados. Foram-se os especialistas que podem ajudar a compreender. Acabou o recurso a documentação e arquivo que permita colocar os factos em contexto e percebê-los melhor. A explicação serena e fundamentada foi abolida. (…) O ‘directo’ é o maior incentivo à preguiça que se conhece. Dispensa trabalho e reflexão. Não precisa de inteligência ou estudo. É o que existe de melhor como veículo de emoções, até de histerismo. É finalmente o factor de mutação da notícia em espectáculo. É a autorização para não pensar nem investigar. É a troca deliberada, feita pelos editores e pelos jornalistas, de reflexão, do estudo, da investigação e da edição, todo este trabalho que deveriam ser os pergaminhos do jornalismo, pela aparência do imediato, do espectáculo, da concorrência entre canais e do despacho. É o reino das emoções em directo, o contrário mesmo do que deveria ser o bom jornalismo. O ‘directo’ não é a causa primeira, mas é o instrumento de degradação da televisão. É, sobretudo, a destruição da informação e da inteligência.(…)”

António Barreto, A arte da irrelevância, Público, 4.5.2008