Justiça ou vingança?

O Ponto de Análises já chamou a atenção para um debate que ocorre no Brasil relativamente ao sensacionalismo com que uma boa parte dos media daquele país tem coberto a morte de uma criança, num caso que tem servido para lançar suspeitas sobre (e julgar) os próprios pais. O assunto é também objecto da análise de Carlos Chaparro no seu Xis da Questão. Como o assunto (justiça e vingança, media e tribunais, vida privada e vida pública) é bem relevante, também entre nós, vale a pena deixar aqui o link para o vídeo:

3 thoughts on “Justiça ou vingança?

  1. Manuel, esse caso é um escândalo. Talvez o maior desde o famoso caso Escola Base, que ocorreu em 1994, também em São Paulo. Guardadas as proporções (porque até agora o papa não se manifestou…), em termos de exposição midiática, é a nossa Maddie.
    Eu fico absolutamente perplexa com a subserviência da nossa mídia (especialmente a televisão, que dá o tom das reportagens) à versão policial. Sobretudo que a polícia falhou flagrantemente ao não isolar o apartamento onde ocorreu o crime, tão logo teve notícia do ocorrido. Agora os indiciados e seus parentes são acusados de tentar apagar marcas de sangue e outros vestígios: nada se diz sobre a incompetência da polícia.
    Pior: a polícia interroga os indiciados com base em laudos supostamente conclusivos cujo teor não foi informado à defesa. Isso foi visto pela imprensa como tática “esperta” dos responsáveis pelo inquérito… quando é um flagrante obstrução do direito de defesa. Porém é a partir desses laudos que se divulga a história (isto é, a versão da polícia) que incrimina o casal.
    O detalhe sórdido é que, antes disso, essa mesma mídia alardeou um testemunho também considerado “decisivo” para a culpabilidade do casal: eles teriam tido uma séria discussão e a menina teria gritado pedindo socorro ao pai. Porém, segundo a nova versão, a menina já estaria desfalecida ao chegar ao apartamento. Naturalmente, não poderia gritar. Alguém estranhou esse detalhe? Não, ele simplesmente foi excluído da nova versão para o crime.
    E ontem, o promotor disse que o sangue no carro (o indício que torna coerente a versão que a mídia divulga atualmente) era “provavelmente da Isabella”. Provavelmente. Provavelmente!!!!
    Sem contar que os repórteres são suficientemente cínicos para promover o circo (informando onde estão o casal e os parentes) e depois produzirem matérias denunciando os exageros da multidão enfurecida, que quer linchar os caras e chegou até a tentar invadir o edifício onde eles estavam. (Dá pra imaginar que os vizinhos devem estar felizes da vida com tudo isso…).
    Sem contar, também, que perguntam a eles (e aos parentes), no meio do tumulto dos microfones e câmeras e “populares” a xingá-los e agredi-los, se eles consideram que estão sendo prejulgados pela “sociedade”. Ora, quem deu os motivos para o prejulgamento, se não a própria mídia?
    Sabe, eu cada vez fico mais descrente na possibilidade de dar aula dessa coisa. Porque isso é o sistema. A gente pode fazer belos discursos, mas não consegue interferir nesse processo.
    E o pior é que esse caso, por dramático que seja, não tem a menor importância, considerando o grau de violência que existe neste país. Ainda que fiquemos apenas na violência contra crianças: no mesmo período houve várias pequenas notícias de assassinatos, agressões, estupros e coisas parecidas que não ganharam qualquer notoriedade, porque envolviam gente de baixa renda. Um caso muito semelhente, de uma menina de dez anos que se jogou da janela (e sobreviveu, apenas quebrou uma perna) para fugir do pai bêbado teve uma menção de pé de página e uma pequena suíte, e ninguém mais falou no assunto. Nem ninguém pediu a opinião de “especialistas”, psicanalistas, psicoterapeutas, gente capaz de tratar das questões que envolvem a harmonia de um casal… porque, é claro, para esses jamais pensamos que possam sofrer danos psicológicos.
    E assim caminhamos. Todos para o inferno, talvez.

Os comentários estão fechados.