“É possível ou não ao jornalista ser neutro?”

“(…) não sejamos ingénuos: somos todos os dias expostos à opinião dos jornalistas – na selecção das notícias, nas fontes usadas, nas imagens que nos mostram, nas palavras usadas para descrever os factos. Isto não é novidade nenhuma. Mas tendemos a esquecê-lo: veja-se por exemplo a forma como as notícias e os comentários sobre os assuntos económicos são produzidos e a sua exacta reprodução da ideologia liberal. Mas num momento em que o “economês” se tornou doutrina oficial, perdemos a capacidade de ver que há também aí um discurso ideológico. E é na esfera da reportagem sobre temas sociais que se tornam mais visíveis as convicções dos jornalistas. Não porque só aí existam, mas porque, felizmente, aí a hegemonia de pontos de vista ainda não impera.
Para além do aproveitamento político do momento e da “espuma das ondas” que há-de passar, a questão a formular sobre o incómodo que Fernanda Câncio causa é, por isso, outra, e prende-se com a concepção de jornalismo que temos e que desejamos. É possível ou não ao jornalista ser neutro na leitura do real? É ou não possível separar as convicções pessoais do tipo de jornalismo que se faz? Cabe ou não ao jornalista contribuir para a crítica e a mudança social? Deve ou não o jornalista assumir publicamente o seu ponto de vista sobre os assuntos que investiga?
As minhas respostas são fáceis de adivinhar: não acredito em “olhares de sítio nenhum” e prefiro o jornalismo que explicita um ponto de vista; é mais transparente e constrange menos a formação da minha opinião.”
Carla Machado in Público, 14.4.2008

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