Números que refectem uma sociedade que (não) vemos

Os jornais do fim-de-semana estão cheios de números. Números resultantes de estudos que demonstram que as notícias das últimas semanas não são propriamente uma novidade. São, antes, uma realidade que existe há algum tempo, nuns casos; ou uma construção que exacerba o desenho do real, noutros.

Perigo na estrada. Diz o “Expresso” que os atropelamentos com fuga do condutor fazem mais de uma vítima por dia. O “Jornal de Notícias” publica um destaque onde se pode ler que um número significativo de mortes na estrada acontece devido não só ao excesso de álcool dos condutores, mas também por causa do consumo de drogas que duplicou no ano passado em relação a 2006. Os media falam de atropelamentos com fuga e de condutores com alto consumo de droga como casos isolados. São graves, mas não são singulares.

Perigo em casa. Um relatório divulgado esta semana pela Procuradoria-Geral da República, ampliado em toda a imprensa nacional, informa que os crimes sexuais contra menores triplicaram em Portugal entre 2002 e 2007, contabilizando cerca de 1400 casos/ano. Os crimes com crianças institucionalizadas rondam uma percentagem na ordem dos três por cento. Na opinião pública há, no entanto, uma ideia generalizada de que as instituições sociais serão mais vulneráveis a este tipo de prática devido ao hipermediatizado caso “Casa Pia” cuja Provedora, em entrevista ao “Expresso”, se queixa precisamente disso: da imagem estereotipada que se tem da Casa que dirige.

Perigo na escola. O “Expresso” escreve isto na primeira página do Caderno Principal: “A Direcção-Geral de Reinserção Social tem em mãos 94 casos de menores condenados em tribunal a medidas tutelares educativas pela prática de furtos, agressões, danos patrimoniais ou até posse de armas na sua escola”. Significa isso que a realidade denunciada nos últimos tempos por Pinto Monteiro não é de hoje. Se prestarmos atenção à edição do “Público”, poderemos acrescentar que se trata de uma situação com mais de uma década. Segundo dados recolhidos pela Equipa de Missão para a Segurança Escolar, o número de armas de fogo apreendidas no último ano lectivo é semelhante àquele reunido há dez anos e os das agressões de alunos a professores diminuíram em quase metade em 2007, totalizando 185 casos, comparativamente ao ano anterior, em que se registaram 390.

Estes estudos demonstram que os meios de comunicação social têm andado um pouco desatentos em relação àquilo que se passa no plano social. No entanto, os recentes casos, que os media tanto noticiaram, tiveram, pelo menos, o mérito de fomentarem a discussão desse mundo real no espaço público (mediatizado).

One thought on “Números que refectem uma sociedade que (não) vemos

  1. Boa tarde. Após leitura deste seu post – e dizendo-lhe que a ouço com atenção na Revista de Imprensa da RTPN -, gostava de lhe desabafar o seguinte:
    Sou da opinião que tem havido um erro genérico e relativamente grave na leitura dos vários números pela Imprensa. Algo que tem a ver com a capacidade interpretativa desses mesmos números face à realidade (chamemos-lhe quotidiano). Não aumentaram os acidentes, os crimes, etc… tanto quanto se escreve ou se diz à boca cheia na Rádio ou Televisão. Aumentaram – sim – as denúncias dos vários crimes e melhoraram-se os critérios de avaliação dos acidentes e incidentes. Que é como quem diz: no dia em que se contabilizarem os mortos resultantes dos ferimentos em acidentes rodoviários (os que morrem 48 horas depois do mesmo acidente), vem novo ai-jesus para as bancas com “aumento do número de mortos na estrada”.
    Esta interpretação – que tem mais a ver com as capacidades de conhecimento e do raciocínio jornalístico – tem sido ditatorial e enganadora, atendendo ao poder dos Media sobre as mentes mais incautas. Concordo consigo quando diz que os OCS têm andado desatentos. O porquê de tanta desatenção é que às vezes nos leva a debates pouco interessantes para os jornalistas…
    Os meus cumprimentos.

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