Reflexões

«Porque é que a TV foi essa “caixinha que revolucionou o mundo”? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniaturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, misturado ao quotidiano doméstico. Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdem a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana. (…) Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a “caixa revolucionadora” ser um objecto entre os objectos de uma sala. Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. (…) A TV dispensa tudo. (…) … na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir.»

Vergílio Ferreira, Escrever, pp. 23-24

Así es el nuevo Mundo

Este é o nome do trabalho que nos mostra  – em video, imagens, texto e infografia – como aconteceu a mudança de instalações do El Mundo e a sua integração dupla:  a) com as outras publicações do mesmo grupo num mesmo edifício (Marca e Expansión), b) entre as operações em papel e na internet.
Segundo o Infotendencias (onde recolhi esta informação), as secções de Comunicação, Desporto e Ciência já funcionavam de forma integrada para o papel e para a Web desde Setembro de 2007 e começa agora o gradual processo nas restantes áreas.

(Na foto, a nova secção de Cultura, com uma imagem de Francisco Umbral, escritor e ex-jornalista da casa. Excelente ideia – a memória do passado, reforçando a identidade, o sentido de responsabilidade, o valor social do jornalismo).

Como os telespectadores interagem com o Provedor

Não está ainda disponível no site da RTP, mas já foi divulgado à imprensa o Relatório do Provedor dos Telespectadores relativo ao ano 2007. Algumas notas interessantes que ressaltam das notícias do DN e do Público:

  • mais de 16 mil mensagens dirigidas ao Provedor (250 das quais relativas a queixas e críticas desfavoráveis sobre a objectividade e exactidão da RTP);
  • 70% das mensagens foram enviadas por homens;
  • mais de 2/3 são mensagens relativas à RTP1
  • mais interpelações associadas à informação do que à programação;
  • principais queixas: parcialidade na informação; incorrecções ou exageros nos directos; falta de pluralidade na escolha de convidados; futebol em demasia
  • “Prós e Contras” é o programa mais visado nas considerações dos telespectadores;
  • relativamente à programação, os telespectadores queixam-se de alterações na grelha, horários tardios e interrupção da emissão de séries e novelas;
  • programação da RTPi tem sido alvo de críticas altamente negativas;

Será isto sinal de um balanço positivo da actividade do Provedor?

State of News Media 2008

O mais recente “State of News Media“, produzido pelo Project for Excellence in Journalism, foi hoje divulgado. É o quinto estudo anual do género e a observação comparada do percurso já trilhado é um bom ponto de partida para uma reflexão sobre o momento do actual jornalismo norte-americano (e, em certa medida, do que se faz no resto do mundo).
Indicações retiradas do segmento ‘Major Trends’:

News is shifting from being a product — today’s newspaper, Web site or newscast — to becoming a service — how can you help me, even empower me?

A news organization and a news Web site are no longer final destinations.

The prospects for user-created content, once thought possibly central to the next era of journalism, for now appear more limited, even among “citizen” sites and blogs.

Increasingly, the newsroom is perceived as the more innovative and experimental part of the news industry.

The agenda of the American news media continues to narrow, not broaden.

Madison Avenue, rather than pushing change, appears to be having trouble keeping up with it.

Marcelo Rebelo de Sousa é sempre notícia?

Por força das minhas rotinas, a segunda-feira é um dia da semana em que, por norma, oiço a TSF no período entre as 6h30 e as 8h00. Reparo, por isso, com frequência que à segunda-feira Marcelo Rebelo de Sousa é quase sempre notícia. Não posso constatá-lo senão impressivamente, mas a verdade é que, pelo menos na TSF (hei-de ver o que fazem as outras rádios também!), as escolhas de Marcelo contêm um grande ‘valor-notícia’. Interrogo-me sobre a pertinência desta opção. Por que razão há-de a opinião do ‘Professor’ ser catapultada sempre (muitas vezes, pelo menos) para além dos limites do próprio programa da RTP? Não corre a TSF (e eventualmente outros órgãos) o risco de ser caixa de ressonância de uma linha de opinião que se constrói semanalmente?

Tese de doutoramento sobre webrádio

Acaba de ser discutida e aprovada na Universidade Federal de Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte, no Brasil, a tese de doutoramento intitulada “Webrádio: novos géneros, novas formas de interação”, da autoria da investigadora Nair Prata.
O assunto merece-nos uma referência não apenas pela novidade do assunto – são ainda escassas as investigações em profundidade sobre o webrádio – mas também porque a autora fez parte do seu trabalho em regime de “doutoramento-sanduíche”, no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.
O objetivo desta tese é “conhecer os novos géneros e as novas formas de interacção na webradio. Para se chegar a esse fim, foi realizada pesquisa qualitativa, com corpus delimitado a 30 emissoras de rádio agrupadas em três grandes grupos (hertzianas, hertzianas com presença na internet e webradios). Em cada grupo, foram estudadas as duas categorias de análise desta tese: género e interação. Como parte do estudo da interação nas webradios, foi feito
ainda um levantamento sobre a usabilidade das homepages”.
A pesquisadora concluiu que “os novos géneros da webradio são o chat, o e-mail (mensagem eletrónica), o endereço eletrónico, a enquete e o fórum, nascidos genuinamente em meio digital. Mas também são novos, no suporte internet, os tradicionais géneros radiofónicos hertzianos. Trata-se de formas híbridas, nascidas da complexa tessitura digital da webradio”.
“A webradio – observa Nair Prata – pode ser entendida como uma constelação de géneros que abriga formatos antigos, novos e híbridos”.

[O abstract completo pode ser lido no blog de apoio]
[A autora anuncia que muito em breve o texto da tese vai ficar disponível na web. Cá estaremos para dar notícia].

Controvérsia

“Geraldine Ferraro, uma das mais influentes políticas norte-americanas e a única democrata que foi candidata à vice-presidência dos EUA, em 1984, abandonou hoje o cargo honorífico que ocupava na campanha de Hillary Clinton, depois de ter dito, há poucos dias, que Obama só chegou tão longe na sua candidatura porque é negro e depois de ter acusado os meios de comunicação social de o ajudarem por serem machistas”.

Abertura da notícia “Assessora de Clinton demite-se após comentários controversos contra Obama“. Público – Última Hora, 13.03.2008 –

Fotografia – estudos

Photographies é o título de uma nova revista científica que a editora inglesa Routledge acaba de lançar e que tem periodicidade semestral (vol.1, nº 1, Março 2008). É dirigida por quatro professores de instituições universitárias do Reino Unido: David Bate, Sarah Kember, Martin Lister e Liz Wells
O editorial do primeiro número, disponível online, tal como o restante conteúdo , explicita o projecto editorial:

“Photographies seeks to construct a new agenda for theorizing photography as aPhotobucket heterogeneous medium that is changing in an ever more dynamic relation to all aspects of contemporary culture.
This new journal aims to open up a forum for thinking about photography within a trans/disciplinary context, open to different methods, models, disciplines and tactics. The editors want to construct a critical space that can address the sites of production, consumption and the multifarious industries of distribution and dissemination that make photographic images so central in much of our culture. We believe that the discussion of photography needs to be developed, expanded and interrogated, along with, where necessary, rethinking the critical methods we employ”.

Manchete com origem em blog (e com atribuição)

NOTA(9h40, 12-03-2008): Este post resulta de uma observação inicial da edição online do Diário de Notícias do dia 11 de Março de 2008. Durante esse mesmo dia, foram aqui deixados comentários apontando a existência de alegadas discrepâncias entre o que existia online e a versão papel. Tanto eu como os autores dessas observações presumiamos, em boa fé, que as fotos pertenciam ao autor do blog em que apareceram pela primeira vez (e que foi citado pelo jornal). Tudo o que a seguir se disse (até mesmo sobre a troca de atribuições de autoria) resulta dessa presunção.
Foi um erro presumir que as fotos publicadas sem indicação de autoria diferenciada num blog de um fotógrafo eram suas. Será um erro presumir até que alguma delas possa ser sua.
Mantem-se – acredito – a essência do post, mas impõe-se, nesta fase, uma intervenção. Fica todo o texto, para benefício de quem precisar de um exemplo, mas aparecem sublinhados os excertos incorrectos ou já não relevantes e desaparece uma imagem (que, uma vez mais em benefício de quem necessitar de um exemplo, continuará disponível aqui).

A manchete visual do Diário de Notícias de hoje é uma foto da manifestação dos professores do passado sábado, onde se destaca deliberadamente uma das manifestantes – Fernanda Tadeu, mulher do presidente da Câmara de Lisboa (e ex-ministro), António Costa.
Não discutindo o valor informativo da foto e a decisão de fazer dela manchete creio que importa salientar que a ‘descoberta’ foi feita por um fotógrafo freelancer que a publicou no seu blog (Fotografia Sempre, de Paulo Vaz Henriques) e que o DN faz questão de nos dizer isso mesmo.
Não sendo a primeira vez que isto acontece – um blog ser origem de material informativo – parece-me que será das primeiras vezes que assistimos, num jornal nacional de grande expansão, à combinação do uso com a indicação clara da sua proveniência; não há referências vagas do género “o assunto já apareceu nalguns blogs” ou indicações de fundo de texto, do tipo, “Ah, a propósito…“.
Nada disso.
Ficam os leitores mais bem informados.
Ganha o DN (que, diga-se já agora, tinha, ontem mesmo, mostrado uma faceta muito menos radiosa…).

P.S.
Dois dos comentários aqui publicados chamam a atenção para detalhes que podem fazer toda a diferença. João Severino – que, ao contrário do que eu fiz, não se limitou a olhar a edição online – faz do episódio uma leitura completamente distinta. [Naturalmente, a minha mudará em consonância assim que confirme tudo o que diz e, nesse caso, ver-me-ei perante um ‘dilema editorial’ – retirar o post? mantê-lo, com este P.S.? escrever um novo (com uma qualquer indicação sequencial)?]
P.S. 2
A edição papel apresenta, de facto, aquilo que parece ser uma troca na atribuição das fotos.
Creio que se trata de um erro – que precisaria de ser corrigido – e não de uma alteração deliberada .

Importaria, porém, apurar se ‘Direitos Reservados’ aparece por indicação do autor ou se a foto foi usada sem qualquer contacto prévio.
Importaria, igualmente, não ver repetida a situação da primeira página (essa sim, merecedora de reparo mais veemente) em que a foto aparece sem qualquer indicação de autoria.
O jornalismo nacional ainda lida de forma desconfortável com conteúdos informativos produzidos por não-profissionais.
Há, certamente, um longo caminho a percorrer.

As crianças e os media

São divulgadas na edição de hoje do jornal Público as conclusões de um estudo empreendido por investigadores da Universidade Nova de Lisboa acerca do modo como crianças e jovens são retratados nas notícias. Algumas ideias em síntese:

  • as crianças sofrerão as consequências da exposição mediática em momentos em que deveria ter sido protegida a sua identidade;
  • «são as crianças com menos de 12 anos, em situações de maus tratos, abandono, negligência ou com um padrão de delinquência infantil, as que vêem mais frequentemente a sua identidade exposta»;
  • há “claríssimas” violações dos direitos das crianças pelos media;
  • os jovens delinquentes são primeiramente condenados na praça pública.

O estudo agora divulgado pelo Público observou particularmente o modo como, em 2005, os jornais trataram as crianças. Muitos outros acontecimentos dão sinais de que, pelo menos, alguns destes problemas se mantêm. No âmbito de um projecto par, aprovado pela FCT em 2006, um grupo de investigadores da Universidade do Minho está também a estudar as imagens da infância nos media. Procurando analisar os discursos mediáticos sobre crianças em risco, publicados durante o ano em curso, este projecto visa, entre outros aspectos:

  • caracterizar as notícias sobre crianças na comunicação social portuguesa;
  • identificar o modo como a noção de risco é construída pelo discurso mediático;
  • reconhecer tendências e diferenças na cobertura noticiosa sobre crianças;
  • analisar como as crianças são retratadas do ponto de vista imagético (fotojornalismo e outros meios audiovisuais e multimedia).

As crianças que são notícia sofrem duas vezes, as suas vidas não serão como poderiam ser se não houvesse exposição da sua identidade.

Público, 11 de Março de 2008

O lugar da imprensa diária

Um acto eleitoral crispado e “suado”, como o que a Espanha acaba de viver, é um laboratório interessante para analisar o papel dos jornais. Dois exemplos de duas maneiras de estar: uma, velha, que se esquece que anuncia aquilo que todos já conhecem. Funciona como um ritual de reconhecimento e auto-satisfação. Outra, nova, talvez mais no rasgo estético do que no jornalístico. Funciona como “framing” interpretativo, com poderosa mensagem subliminar.

O velho ……………………………………. e o novo
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E, já que estamos em maré eleitoral, mais um caso: uma primeira página, do “dia de reflexão”, que se assume como provocação e desconstrução, num tempo em que o “recolhimento” mediático já pouco sentido faz.
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(Mais primeiras páginas e páginas de interior em La Buena Prensa)

“Comunicação e Sociedade” disponível online

A revista científica “Comunicação e Sociedade”, da Universidade do Minho (UM), passou a estar disponível online, no portal REVCOM.
Editado pela Campo das Letras, este periódico de periodicidade semestral é da responsabilidade do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da UM, tendo começado a publicar-se no final de 1999, então integrado numa publicação de ciências sociais intitulada “Cadernos do Noroeste”.
A “Comunicação e Sociedade“, que é dirigida pelo Prof. Doutor Moisés de Lemos Martins, foi agora disponibilizada em formato digital a partir do seu quarto número, estando acessíveis oito volumes.

“Um país, para se conhecer a si mesmo…”

Fazer de um telejornal a apresentação minuciosa de acidentes, desastres, polícias, ladrões e jogadores de futebol não é, de certeza, a única informação que interessa. Um país, para se conhecer a si mesmo, precisa, em primeiro lugar, de ser informado acerca do que está a nascer, a crescer e a desenvolver, em todos os sectores da vida e da actividade. A melhor pedagogia não é aquela que só sabe mostrar o que está mal, mas a que ajuda a potenciar o que há de melhor nas pessoas, nos grupos, nas instituições. Com inteligência e boa vontade, com os recursos de que os meios de comunicação podem dispor, é possível fazer mais e melhor.

Bento Domingues, in Público, 9.3.2008

Ou porque não há remédio para essa doença [dizer mal de nós] ou porque o masoquismo a reforça, dia em que jornais e televisões não se deliciarem a mostrar que estamos na cauda da Europa, em último lugar em tudo o que é bom e em primeiro em tudo o que é mau, não é dia. Parece que Portugal existe apenas como cabide de desgraças descritas até ao mais ínfimo pormenor. E uma chaga sem corpo. Como está tudo mal, as reformas são impossíveis, pois não há nada a reformar. Os cadáveres são irreformáveis. Mas, se alguém tiver a ousadia de mostrar que há reformas inadiáveis para tornar viável o futuro da vida nacional, a reacção é imediata: não estraguem o país com reformas. Quando as reformas estão em marcha, era preciso ter tempo para as discutir porque são precisas, mas não assim. Depois, se as reformas não são realizadas, a orquestra dos mesmos começa a tocar: somos um país adiado, isto nunca mais vai para a frente.

Ibidem

Mudanças no jornalismo em 10 pontos

O Online Journalism Blog desenvolveu, sob o título Ten ways journalism has changed in the last ten years, um pequeno texto que o seu autor tinha escrito há umas semanas na revista Press Gazette.
Eis o sumário dos seus pontos:

  • From a lecture to a conversation
  • The rise of the amateur
  • Everyone’s a paperboy/girl now
  • Just a click away
  • Really Simple Syndication
  • Mapping
  • Hyperlocal, international
  • Databases
  • Measurability
  • Multimedia

A TVI, a SIC e as recomendações da ERC

Os canais generalistas privados têm hoje uma programação nocturna essencialmente de entretenimento. O que, de certa forma, não vai ao encontro da Lei de Televisão e, sobretudo, de duas deliberações da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): uma de Junho de 2006 e outra de Dezembro de 2007. Esses documentos falam de um horário nobre com oferta televisiva diversificada onde se deveriam integrar programas de debate e de entrevista autónomos dos noticiários das 20h00. Até agora, essas recomendações estão por cumprir.

Apesar de (ainda) longe do que estipula a entidade reguladora, os canais generalistas privados terão de alterar, a curto prazo, a oferta televisiva em horário nobre. As deliberações da ERC (1-L/2006, de 20 de Junho; e 2/Lic-TV/2007, de 20 de Dezembro) impedem-nos de programar, diariamente, apenas ficção após o noticiário das 20h00 e até bem perto da meia-noite. É claro que SIC e TVI poderão colocar em antena uma informação-espectáculo, impulsionadora do “voyeurismo” e não muito distante das “novelas da vida real” que até então inundaram as grelhas. É claro que a SIC e a TVI poderão encher os “plateaux” informativos com uma confraria de convidados que se tem perpetuado no poder (sobretudo político) na exacta medida em que garante lugar cativo nos estúdios de televisão (e vice-versa). Não será isso, talvez, que mais agradará aos jornalistas dos canais de TV, nem será isso que mais favorecerá o espaço público por onde todos nós andamos. Como o passado recente comprovou, informação de interesse público poderá não ser sinónimo de audiências residuais. Beneficiaríamos todos com projectos de qualidade informativa. Nos diferentes géneros de informação televisiva.

Ler texto completo no Blogue de Apoio.