Jornalismo do Cidadão?

À margem de um post de ontem neste blogue, um leitor do Jornalismo & Comunicação dava conta de um vídeo que, depois de ter sido colocado no You Tube, estava a ser replicado pelo Expresso Online. Está agora também no público.pt. Trata-se de um episódio de agressão numa sala de aula, filmado por um aluno com o telemóvel.

Considerações à parte sobre o que se terá passado realmente, retomam-se as questões aqui deixadas ontem. Seria interessante continuarmos este debate:

«1. Deve ou não o vídeo ser divulgado? Está no youtube e de acesso generalizado, mas devem os órgãos de comunicação social “tradicionais” ampliar o efeito?

2. Que papel terá o telemóvel (com vídeo) na divulgação das situações várias do nosso quotidiano? É um “realizador” em cada um de nós? Ou um big brother?»

Anúncios

4 thoughts on “Jornalismo do Cidadão?

  1. 1.
    Tendo em conta o ambiente de interesse público nas questões da educação aqueles minutos de imagens são sempre notícia (mantendo-se, naturalmente, as devidas proporções, o mesmo aconteceu com Abu Grahib, com os atentados a Londres e até -embora os meios não fossem ainda os mesmos – com o ataque das tropas indonésias no Cemitério de Santa Cruz).
    Acontecimentos extraordinários são notícia, independentemente de terem sido filmados por profissionais ou por amadores.
    Se estão no YouTube não há já como fugir a eles; ou os media tradicionais fazem trabalho acrescido com base nas mesmas imagens ou abandonam o seu lugar. O YouTube dá-nos as imagens originais mas – até agora – só os media tradicionais
    podem ouvir responsáveis, enquadrar a história, discutir – isso sim parece-me relevante – que portugueses andamos a formar, com esta combinação explosiva entre ‘a escola do sucesso’ e a voz a representantes eternos dos pais que estão contra exames nacionais para os meninos.
    Os media tradicionais não poderiam nunca ‘ficar de fora’, mas importa perceber de que forma querem ‘estar dentro’.

    2.
    O telefone móvel é um instrumento – o que faz dele ferramenta de realizador, de repórter ou de vouyeur é o indivíduo que o tem na mão.
    E também por isso é importante discutir esta escola que temos – a que trata os meninos todos como pré-tramatizados.
    Pois aí está; de pré-tramatizado facilmente se passa a insolente.
    E a responsabilidade é de quem quis para eles sucesso na vida sem os querer cidadãos rensponsáveis.
    O telemóvel, coitado…

  2. 2. Que papel terá o telemóvel (com vídeo) na divulgação das situações várias do nosso quotidiano? É um “realizador” em cada um de nós? Ou um big brother?»

    Já em inúmeras situações espalhadas por escolas europeias se verificou que o telemovel enquanto instrumento de captação de imagem (fotográfica ou vídeo) pode funcionar como uma arma tão letal como um qualquer arma branca. Em Inglaterra foi a “graça” de se dar pancada em pessoas indiscriminadamente na rua, filmando com o telemovel e depois colocando online para regozijo de quem filma e pertence ao grupo. Em França foi o filmar de uma violação em grupo a uma miúda de 14 anos que serviu de moeda de chantagem para que a criança não revelasse nada a ninguém e fosse coagida a manter o silêncio e sabe-se lá mais o quê, só descoberto em consulta psiquiátricas. E não me venham dizer que são actos isolados ou pontuais são é já actos banais e assumidos como vulgares pelas crianças em idade escolar onde Tudo vai sendo Permitido. Até porque este caso filmado não é tão grave como os relatos que vamos ouvindo. Bem hajam as palavras da colega Beatriz Pereira que foi das primeiras a referir com veemência que o aluno que filmou deve ser tão punido como a aluna que agrediu.

    Luís, percebo o que dizes, mas a questão leva-nos para a mesma discussão sobre as raças de cães perigosas. Os donos é que precisam de ser domesticados, contudo se puder evitar o acesso aos objectos vou com certeza diminuir em muito os efeitos colaterais que no fundo é o que nos preocupa. É evidente que o tlm. pode ser visto como um trunfo informativo e preventivo (tal como as câmaras de vigilância), assim como o cão será à partida um elemento defensivo. Contudo na fronteira serão ambos objectos letais para quem estiver envolvido, não se diferenciando muito de uma arma. Neste caso serve de alerta à sociedade, mas também coloca a nu os intervenientes da cena fragilizando por completo a identidade de cada um dos envolvidos.

    Um cão pode proteger uma casa, mas pode matar uma criança de 7 anos que tente saltar a vedação para ir buscar a bola que caiu naquele quintal. Uma câmara pode apelar ao bom senso da comunidade mostrando injustiças assim como pode servir para gravar situações injuriosas, pessoais ou íntimas de quem é filmado. Numa sociedade em que as pessoas cada vez partilham menos a sua vida, e menos ainda toda a sua esfera pessoal, por razões de variadíssima ordem (profissional, segurança, etc.) é natural que a colocação em espaço público de momentos desta natureza sejam demasiadamente perigosos para quem é focado.

  3. Pingback: Comunicação Alternativa - O Outro Lado da Questão | [ fractura.net ]

Os comentários estão fechados.