Manchete com origem em blog (e com atribuição)

NOTA(9h40, 12-03-2008): Este post resulta de uma observação inicial da edição online do Diário de Notícias do dia 11 de Março de 2008. Durante esse mesmo dia, foram aqui deixados comentários apontando a existência de alegadas discrepâncias entre o que existia online e a versão papel. Tanto eu como os autores dessas observações presumiamos, em boa fé, que as fotos pertenciam ao autor do blog em que apareceram pela primeira vez (e que foi citado pelo jornal). Tudo o que a seguir se disse (até mesmo sobre a troca de atribuições de autoria) resulta dessa presunção.
Foi um erro presumir que as fotos publicadas sem indicação de autoria diferenciada num blog de um fotógrafo eram suas. Será um erro presumir até que alguma delas possa ser sua.
Mantem-se – acredito – a essência do post, mas impõe-se, nesta fase, uma intervenção. Fica todo o texto, para benefício de quem precisar de um exemplo, mas aparecem sublinhados os excertos incorrectos ou já não relevantes e desaparece uma imagem (que, uma vez mais em benefício de quem necessitar de um exemplo, continuará disponível aqui).

A manchete visual do Diário de Notícias de hoje é uma foto da manifestação dos professores do passado sábado, onde se destaca deliberadamente uma das manifestantes – Fernanda Tadeu, mulher do presidente da Câmara de Lisboa (e ex-ministro), António Costa.
Não discutindo o valor informativo da foto e a decisão de fazer dela manchete creio que importa salientar que a ‘descoberta’ foi feita por um fotógrafo freelancer que a publicou no seu blog (Fotografia Sempre, de Paulo Vaz Henriques) e que o DN faz questão de nos dizer isso mesmo.
Não sendo a primeira vez que isto acontece – um blog ser origem de material informativo – parece-me que será das primeiras vezes que assistimos, num jornal nacional de grande expansão, à combinação do uso com a indicação clara da sua proveniência; não há referências vagas do género “o assunto já apareceu nalguns blogs” ou indicações de fundo de texto, do tipo, “Ah, a propósito…“.
Nada disso.
Ficam os leitores mais bem informados.
Ganha o DN (que, diga-se já agora, tinha, ontem mesmo, mostrado uma faceta muito menos radiosa…).

P.S.
Dois dos comentários aqui publicados chamam a atenção para detalhes que podem fazer toda a diferença. João Severino – que, ao contrário do que eu fiz, não se limitou a olhar a edição online – faz do episódio uma leitura completamente distinta. [Naturalmente, a minha mudará em consonância assim que confirme tudo o que diz e, nesse caso, ver-me-ei perante um ‘dilema editorial’ – retirar o post? mantê-lo, com este P.S.? escrever um novo (com uma qualquer indicação sequencial)?]
P.S. 2
A edição papel apresenta, de facto, aquilo que parece ser uma troca na atribuição das fotos.
Creio que se trata de um erro – que precisaria de ser corrigido – e não de uma alteração deliberada .

Importaria, porém, apurar se ‘Direitos Reservados’ aparece por indicação do autor ou se a foto foi usada sem qualquer contacto prévio.
Importaria, igualmente, não ver repetida a situação da primeira página (essa sim, merecedora de reparo mais veemente) em que a foto aparece sem qualquer indicação de autoria.
O jornalismo nacional ainda lida de forma desconfortável com conteúdos informativos produzidos por não-profissionais.
Há, certamente, um longo caminho a percorrer.

As crianças e os media

São divulgadas na edição de hoje do jornal Público as conclusões de um estudo empreendido por investigadores da Universidade Nova de Lisboa acerca do modo como crianças e jovens são retratados nas notícias. Algumas ideias em síntese:

  • as crianças sofrerão as consequências da exposição mediática em momentos em que deveria ter sido protegida a sua identidade;
  • «são as crianças com menos de 12 anos, em situações de maus tratos, abandono, negligência ou com um padrão de delinquência infantil, as que vêem mais frequentemente a sua identidade exposta»;
  • há “claríssimas” violações dos direitos das crianças pelos media;
  • os jovens delinquentes são primeiramente condenados na praça pública.

O estudo agora divulgado pelo Público observou particularmente o modo como, em 2005, os jornais trataram as crianças. Muitos outros acontecimentos dão sinais de que, pelo menos, alguns destes problemas se mantêm. No âmbito de um projecto par, aprovado pela FCT em 2006, um grupo de investigadores da Universidade do Minho está também a estudar as imagens da infância nos media. Procurando analisar os discursos mediáticos sobre crianças em risco, publicados durante o ano em curso, este projecto visa, entre outros aspectos:

  • caracterizar as notícias sobre crianças na comunicação social portuguesa;
  • identificar o modo como a noção de risco é construída pelo discurso mediático;
  • reconhecer tendências e diferenças na cobertura noticiosa sobre crianças;
  • analisar como as crianças são retratadas do ponto de vista imagético (fotojornalismo e outros meios audiovisuais e multimedia).

As crianças que são notícia sofrem duas vezes, as suas vidas não serão como poderiam ser se não houvesse exposição da sua identidade.

Público, 11 de Março de 2008