“Um país, para se conhecer a si mesmo…”

Fazer de um telejornal a apresentação minuciosa de acidentes, desastres, polícias, ladrões e jogadores de futebol não é, de certeza, a única informação que interessa. Um país, para se conhecer a si mesmo, precisa, em primeiro lugar, de ser informado acerca do que está a nascer, a crescer e a desenvolver, em todos os sectores da vida e da actividade. A melhor pedagogia não é aquela que só sabe mostrar o que está mal, mas a que ajuda a potenciar o que há de melhor nas pessoas, nos grupos, nas instituições. Com inteligência e boa vontade, com os recursos de que os meios de comunicação podem dispor, é possível fazer mais e melhor.

Bento Domingues, in Público, 9.3.2008

Ou porque não há remédio para essa doença [dizer mal de nós] ou porque o masoquismo a reforça, dia em que jornais e televisões não se deliciarem a mostrar que estamos na cauda da Europa, em último lugar em tudo o que é bom e em primeiro em tudo o que é mau, não é dia. Parece que Portugal existe apenas como cabide de desgraças descritas até ao mais ínfimo pormenor. E uma chaga sem corpo. Como está tudo mal, as reformas são impossíveis, pois não há nada a reformar. Os cadáveres são irreformáveis. Mas, se alguém tiver a ousadia de mostrar que há reformas inadiáveis para tornar viável o futuro da vida nacional, a reacção é imediata: não estraguem o país com reformas. Quando as reformas estão em marcha, era preciso ter tempo para as discutir porque são precisas, mas não assim. Depois, se as reformas não são realizadas, a orquestra dos mesmos começa a tocar: somos um país adiado, isto nunca mais vai para a frente.

Ibidem

4 thoughts on ““Um país, para se conhecer a si mesmo…”

  1. O mal não está em mostrar o “que está mal”. O mal está em mostrar o que está mal sem mostrar porque é que está mal. Quando há Jornalismo há pedagogia social.
    Cuidado com os novos paladinos do “Jornalismo pela positiva”! Atrelado, vem sempre um discurso politicamente correcto mas potencialmente nocivo para o Jornalismo de investigação e de reflexão. O “Jornalismo pela positiva” tem como contra-face a notícia anódina, acrítica, promotora de discursos fáceis como os do determinismo tecnológico em que nos deixamos facilmente enredar.

  2. O acto de escolher as palavras – mesmo quando se trata das palavras dos outros – não é acto anódino e exprime uma valoração. como é evidente.
    Também neste caso.
    E no entanto…
    … parece-me que o que o Luís Miguel Loureiro sustenta não contradiz o que sustenta Bento Domingues. Se há quem, ao longo das últimas décadas, e já antes de 1974, defendia precisamente que é preciso ir às raízes daquilo que está mal, aquele frade dominicano é precisamente um deles.
    Eu também defendo que, “para se conhecer a si mesmo”, um país precisa, não sei se “em primeiro lugar”, como propugna o autor do texto, “de ser informado acerca do que está a nascer, a crescer e a desenvolver, em todos os sectores da vida e da actividade”.
    Que há riscos nessa abordagem? Claro que há, como há no “jornalismo pela negativa”.
    Provavelmente, o que é problemático é um jornalismo que “abusa” da realidade, digamos assim; que a distorce, pintando-a seja em tons de rosa mais ou menos choque, seja em tons de negro sombrio. O jornalismo estaria provavelmente para lá desses enviesamentos ou estaria, pelo menos, no incessante esforço por se não vergar a eles, dando conta daquilo que desfigura, mas também daquilo que abre novos horizontes ao quotidiano. De outro modo, o jornalismo corre o risco de se converter ou num veneno ou num narcótico. E não faria muito sentido se fosse isso.

  3. Salvo melhor opinião, não há “jornalismo pela negativa” nem “jornalismo pela positiva”. Ou há jornalismo, ou não há, ponto final!
    E quando há verdadeiro jornalismo, como diz o Luís Miguel Loureiro, há necessariamente pedagogia social.

  4. Interessante discussão, esta. De facto, o Prof. Manuel Pinto entendeu onde eu quis chegar. Não pretendi extrapolar o raciocínio proposto por Bento Domingues usando a meu bel-prazer apenas uma das suas expressões (e se o pareceu, as minhas sinceras desculpas ao autor), quis antes chamar a atenção para os perigos que uma leitura enviesada das intenções do texto original poderia provocar. Estamos num tempo em que ao “jornalismo” da sensação e do instante, em que tudo é exacerbado em nome do impacto imediato perdendo-se a reflexão, se está a contrapôr um discurso politicamente correcto de “jornalismo pela positiva”. À acrítica contrapõe-se a acrítica, ao sabor em excesso contrapõe-se o sensabor. É disto que falo. E é contra os paladinos deste discurso, alguns deles com responsabilidades no “jornalismo” que se vai produzindo, que me insurjo. O Jornalismo (como diz Vítor Soares, o “verdadeiro jornalismo”) pode ter tons mais positivos ou negativos, mas nunca pode ser construído na lógica do “pela positiva” ou “pela negativa”. Tem de ser construído na lógica da responsabilidade. Só isso, nada mais.

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