Desistir da surpresa

Numa recente entrevista ao Jornal de Notícias o ‘Sr. Acontece’, Carlos Pinto Coelho, diz o seguinte:

Não me interessa perder o meu tempo, que é cada vez mais curto. Tenho tantos livros para ler, tantos países para viajar, tantas fotografias para tirar, tantas páginas para escrever e tantas para ler, e as da blogosfera, na sua esmagadora maioria, são desinteressantes e nada enriquecedoras. Da blogosfera – tirando o “Abrupto”, que me interessa – vou sobretudo aos blogues dos meus colegas jornalistas, porque procuro encontrar ali aquilo que eles, por uma razão ou por outra, não puderam ou não quiseram publicar nos seus próprios media.

O surpreendente nesta declaração não é Carlos Pinto Coelho, um profissional que cresci a admirar, dizer-nos que lê sobretudo quem já conhece (imagino que, até certo ponto, isso acontecerá com todos nós – é, para o bem e para o mal, o humano ‘conforto das grandes certezas’ que tão habilmente usava o Sebastião de Santa Comba).
O surpreendente é Carlos Pinto Coelho dizer que já lhe chega o que conhece.
O surpreendente é Carlos Pinto Coelho ter – aparentemente – desistido da busca da surpresa.
Não sei se é inevitável que assim aconteça.

PS: O formato ‘Farpas’ – entrevista curta, com ritmo quase radiofónico – só funciona bem quando é bem preparado. É o que acontece com o trabalho da Helena Teixeira da Silva.