Obama, Clinton e os media

Nos últimos dias levantou-se alguma celeuma nos Estados Unidos, depois de Hilary Clinton se ter queixado de um alegado enviesamento dos media em favor do seu adversário de momento, Barack Obama.

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O assunto é muito interessante porque nele se cruzam (e por vezes confundem) questões tão diversas como a construção mediática do carisma de Obama, o ‘não valor-notícia’ do argumento fundamental da experiência, invocado por H. Clinton; o medo dos jornalistas em parecerem racistas relativamente a Obama; o facto de a senadora ser mulher de um ex-presidente, etc.

A verdade é que , pelo menos do ponto de vista quantitativo, os números não deixam dúvidas: Obama destaca-se nitidamente da sua adversária. Na semana que passou, das notícias relativas à corrida para a Casa Branca, o senador protagonizou 69% delas, segundo um estudo do Project for Excellence in Journalism. Nunca, até hoje, nesta campanha, qualquer outro candidato atingira esta quota. Clinton ficou-se pelos 58%, o que é, entretanto, a sua melhor posição este ano.

Aguardemos pelos resultados desta (decisiva?) terça-feira.

Para acompanhar os debates em torno desta questão, dois textos de um site que “estuda, combate e denuncia” o “liberal bias” dos media:

ACTUALIZAÇÃO 1:

Cf.: Why do secularists hiss when Huckabee preaches but purr when Obama preaches?

O autor cita este excerto de um discurso de Obama, em campanha, na passada sexta-feira:

“I’d like to begin with a prayer. It comes to us from Jeremiah 29, when the prophet sent out a letter to those exiled from Jerusalem to Babylon. It was a time of uncertainty, and a time of despair. But the prophet Jeremiah told them to banish their fear – that though they were scattered, and though they felt lost, God had not left them. “For I know the plans I have for you,” the Lord revealed to Jeremiah, “plans to prosper you and not to harm you, plans to give you hope and a future.” God had a plan for His people. That was the truth that Jeremiah grasped – the creed that brought comfort to the exiles – that faith is not just a pathway to personal redemption, but a force that can bind us together and lift us up as a community.”

ACTUALIZAÇÃO 2:

No New York Times: “Barack Obama addressed the issue of press bias today, saying he believed that reporters had been influenced by the Clinton campaign’s flood of complaints about media bias over the last week.”

ACTUALIZAÇÃO 3:

Miguel Gaspar, no Público (6/3):

(…) Obama trouxe uma novidade fortíssima à campanha e surpreendeu ao conseguir enfrentar a candidata do aparelho que no fim de 2007 parecia imbatível nas sondagens. A soma destes factores permitiu-lhe conquistar uma boa imprensa, em contraste com a adversária, tradicionalmente pouco apreciada pelo establishment mediático.
Isto é o que já sabemos. O que continua a não fazer sentido é o modo como o discurso mediático trocou a prudência em relação ao desenvolvimento da campanha por narrativas épicas ou trágicas, que fazem do vencedor do dia o herói que já nada afastará do triunfo anunciado e transformam cada derrota num drama terminal. Algo de novo? Nem por isso; a doença profética é comum no jornalismo contemporâneo. “Estar à frente” da história consiste em adivinhá-la antes dos outros. E isso complica-se quando o ângulo dominante da cobertura das campanhas eleitorais é o da “corrida de cavalos”.

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Desistir da surpresa

Numa recente entrevista ao Jornal de Notícias o ‘Sr. Acontece’, Carlos Pinto Coelho, diz o seguinte:

Não me interessa perder o meu tempo, que é cada vez mais curto. Tenho tantos livros para ler, tantos países para viajar, tantas fotografias para tirar, tantas páginas para escrever e tantas para ler, e as da blogosfera, na sua esmagadora maioria, são desinteressantes e nada enriquecedoras. Da blogosfera – tirando o “Abrupto”, que me interessa – vou sobretudo aos blogues dos meus colegas jornalistas, porque procuro encontrar ali aquilo que eles, por uma razão ou por outra, não puderam ou não quiseram publicar nos seus próprios media.

O surpreendente nesta declaração não é Carlos Pinto Coelho, um profissional que cresci a admirar, dizer-nos que lê sobretudo quem já conhece (imagino que, até certo ponto, isso acontecerá com todos nós – é, para o bem e para o mal, o humano ‘conforto das grandes certezas’ que tão habilmente usava o Sebastião de Santa Comba).
O surpreendente é Carlos Pinto Coelho dizer que já lhe chega o que conhece.
O surpreendente é Carlos Pinto Coelho ter – aparentemente – desistido da busca da surpresa.
Não sei se é inevitável que assim aconteça.

PS: O formato ‘Farpas’ – entrevista curta, com ritmo quase radiofónico – só funciona bem quando é bem preparado. É o que acontece com o trabalho da Helena Teixeira da Silva.