Enigma que o Público deve desfazer

A coluna de Joaquim Vieira, provedor do leitor do Público, sobre a notícia relacionada com o Grupo Espírito Santo (GES), retirada do site do Jornal em 18 de Janeiro, deixa uma sensação de incomodidade que os responsáveis do jornal deveriam dissipar com urgência.

Os factos, antes de mais:

– no Público on-line de 18 de Janeiro surge uma notícia em que se referia que a família Espírito Santo era uma das afectadas por expropriações de terrenos na zona do futuro aeroporto de Alcochete. A notícia é desmentida em comunicado do GES assinado por um ex-jornalista do Público (o que, para o caso, pode não ser relevante).

– A notícia desaparece do site no mesmo dia em que foi colocada.

– Em resposta ao pedido de esclarecimentos do provedor, chegada na semana passada, o editor do Público.pt esclarece que a notícia foi “despublicada” por um jornalista, contrariando as normas da Redacção. Informa que, mal a situação foi conhecida, a referida notícia foi recolocada online na página de economia, em http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1320588

– O provedor não conseguiu aceder à notícia, encontrando, em seu lugar, uma página em branco; alertado, o editor não conseguiu explicar este segundo desparecimento e só ontem, sábado, ao princípio da tarde, ela foi finalmente colocada;

– Como se isto não bastasse, hoje, durante todo o dia, uma vez o assunto tornado público pelo provedor, a notícia voltou a desaparecer – é de novo a tal página em branco que, desde a manhã se pode encontrar no site do jornal(*).

Não está aqui em causa a explicação e o papel do editor do Publico.pt, por quem tenho admiração e estima e que dá as explicações que são as que pode e deve dar. Está em causa uma suspeita que fica a pairar sobre o jornal e que não pode permanecer.

Ficam demasiadas perguntas por responder e por clarificar. Quem retirou a notícia? Porque o fez? Por iniciativa própria ou a mando de alguém? Como explicar que, uma vez recolocada online, a notícia tenha desaparecido? Como explicar que se tenham passado vários dias e a situação não tenha sido clarificada? Como explicar que, vindo o assunto a público, o jornal tenha mantido inacessível a notícia, depois de a ter libertado?

Dada a matéria em questão, não é saudável que as dúvidas permaneçam. E desse ponto de vista, a recomendação que o provedor emite é demasiado fraca. Entende que “seria aconselhável que o jornal fornecesse uma explicação aos leitores do PUBLICO.PT, site que deve estar sujeito a rigorosos padrões de intervenção em matéria já publicada, sob supervisão da respectiva hierarquia” . Seria aconselhável?. Parece ser imperioso e urgente que o faça. E com as coisas no pé a que chegaram – “um enigma por desfazer”, como diz Joaquim Vieira – não o pode fazer apenas aos leitores do site, mas a todos os seus leitores.


(*) Actualização (22.35) : às 22.30, a notícia passou a estar acessível; pelo menos, até às 22 horas tal não era possível. Mas, já agora, cabe perguntar: se houve um desmentido vindo do GES e se esse desmentido é relevante do ponto de vista noticioso, não deverá ser igualmente disponibilizado?

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Espiral do silêncio

spiralNum colóquio que na semana finda aconteceu em Lisboa, o jornalista da Lusa José António Santos revelou dados que fazem pensar. Analisando a informação veiculada entre Maio e Dezembro do ano passado por aquela agência, concluiu que apenas 0,9% incidiu sobre assuntos e eventos do campo religioso, sendo este um dos assuntos menos abordado no conjunto de notícias difundido. A comparação não é muito relevante, mas a política representou, naquele período, 27% e a economia 17%.

Sabendo-se do significado e da expressão que o facto religioso continua a ter na sociedade portuguesa e no mundo, é revelador que a nossa principal agência represente a realidade de tal forma que o domínio em questão não tenha sequer um por cento de notícias.

O facto de a Lusa não noticiar mais os assuntos de religião influencia, certamente (ainda que não determine), o índice de tratamento dado pelo conjunto dos media. Uma das provas de que o assunto tem alguma relevância pode ver-se no facto de os nossos dois diários de referência terem colunistas especializados que, semanalmente, reflectem esta matéria.

No entanto, seria erróneo deslocar apenas para os media (e, no caso, para a agência Lusa) a responsabilidade por esta situação relativa a um sector relevante da realidade sócio-cultural. As instituições religiosas têm nesta matéria uma responsabilidade evidente. Quem quer ser notícia tem de se fazer (motivo de) notícia. E isso exige, nos tempos que correm, profisisonalismo e iniciativa.

Uma coisa é certa: recorrendo à teoria da “espiral do silêncio“, proposta por Elisabeth Noelle-Neumann, poder-se-ia concluir que quanto menos se trata a religião, menos relevante ela se torna (ou é percepcionada como tal). E quanto menos relevante, menos merece ser tratada.