A “peste negra”

“O pessimismo nacional é de facto arrasador, contamina tudo e todos, esmaga a esperança e tritura qualquer coisa que tenha contornos de ser reanimador. Este pessimismo assume mesmo contornos de epidemia. Nos dias que correm, com excepção de Sócrates, não aparece ninguém para ‘animar a malta’. É tudo uma desgraça. Na boca dos políticos, dos jornalistas, dos especialistas, dos ‘opinion makers’, dos observadores. Na sociedade portuguesa não parece haver alguém disposto a falar a sério, isto é, a separar as coisas boas que se faz no País das coisas más, a reconhecer, por exemplo, que o Governo tomou uma, só uma, medida acertada sobre o quer que seja. Não há pessoas sérias, não há governantes bons, não há gestores capazes. É tudo mau. A Educação é má, a Saúde é péssima, as Finanças são um desastre, a Justiça não tem solução. O primeiro-ministro é mau, o PR é escorregadio, a Câmara de Lisboa é incompetente, os jornalistas são amaldiçoados, os gestores são corruptos, os ricos são egoístas, os pobres, até os pobres, actuam com muitas artimanhas. E o País é o que se vê. Se melhorou o défice nos últimos três anos vai de certeza piorar nos próximos meses. Se o crescimento económico subiu uma décima em 2007 foi de certeza por engano, porque agora as décimas e as centésimas vão ser todas comidas pela crise avassaladora que chegará ao País”.

Emídio Rangel in Correio da Manhã, 23.2.2008

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