Canal generalista em tempos de micro-difusão?

Ainda que se perceba a lógica da acção política – e muito se disse (e mais ainda se poderá dizer) sobre o momento do anúncio ou sobre o enquadramento desta aposta num percurso nacional pleno de decisões à margem do interesse público – parece indiscutível que ela avança fora de tempo (ou fora dos tempos, se preferirmos).
Disse-se ontem no debate que a audiência de televisão está em perda; percebe-se num dos posts mais recentes deste blog que, para os segmentos da população mais jovens a ‘debandada’ é muito forte; ainda que relativa a uma realidade que não a nossa, um estudo hoje publicado pelo Pew Internet & American Life Project mostra-nos que metade dos utilizadores de internet acedem com regularidade diária a espaços com video (como o YouTube) mas mostra-nos ainda que o aumento na adopção deste comportamento está a ser forte (45 por cento relativamente a 2006) e está a acontecer com todos os grupos etários,  de rendimento, ou de escolaridade (por exemplo, aumento de quase 60 por cento no acesso de pessoas com idades entre os 50 e os 64 relativamente a 2006).
A existência de espaço disponível no espectro poderia ter despoletado um processo de discussão mais abrangente sobre a televisão que vamos querer ter, não sendo claro que a conversa tivesse que começar necessariamente pela questão ‘mais um canal generalista ou não?’, tanto mais que os ‘generalistas’ que temos parecem já ter percebido eles mesmo que precisam de fragmentar a sua oferta – em termos de canais de distribuição e de modos de acesso – para sobreviver.

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2 thoughts on “Canal generalista em tempos de micro-difusão?

  1. Concordando com a substância das reflexões neste e em anteriores “posts” sobre o assunto no J&C, e manifestando também as minhas reservas sobre o que de facto nos poderá trazer um novo canal generalista, só vejo uma forma de “estancar” esta sangria dos públicos televisivos: a introdução de uma verdadeira interactividade no televisor, isto é, penso que começa a criar-se o “caldo” real da tão anunciada convergência entre o computador e o televisor.
    Assim, o novo canal generalista e aqueles que já existem serão, penso, inevitavelmente forçados a pensar na sua reconfiguração digital, porque é no cenário de uma múltipla oferta simultânea, que conjugue a velha Televisão com os novos usos da Internet que o terreno de jogo se situará.

  2. É preciso lembrar ainda que teremos em Portugal, no espectro da TV digital terrestre, não apenas os canais generalistas gratuitos, mas também plataformas pagas que vão englobar canais de alcance nacional e canais regionais. Até então o processo não está claro e alguns aspectos são bastante nebulosos:

    1 – O governo seguer divulgou o resultado da consulta pública realizada no arranque do processo de implementação da TDT e, mesmo sem disponibilizar esses dados publicamente, divulgou que será criado mais um novo canal generalista na TV aberta.

    2 – Há que se discutir como serão as demais concessões, sobretudo em relação aos canais regionais. O que não pode ocorrer é que os critérios sirvam como forma de camuflar interesses político-partidários, motivados por um período eleitoral que se aproxima.

    3 – Quem vai distribuir os sinais digitais terrestres? Hoje apenas a PT e a TVI possuem rede de distribuição de sinais televisivos. Serão abertas novas concessões?

    4 – Como será regulado o mercado da TV móvel? Que papel as operadoras de telecomunicações terão a partir dessa tecnologia? Cabe lembrar que a TV móvel é uma das grandes apostas do mercado televisivo e, no ano passado, foi alvo de um importante simpósio realizado pela União Europeia, em Portugal.

    São muitos pontos a serem considerados e até o momento só uma face de tudo que envolve a TV digital tem sido colocada em debate. Um novo canal é algo importante e, obviamente, deve ser alvo de discussões. No entanto, ele é apenas um dos lados de uma grande mudança de mercado que vai alterar significativamente a forma de fazer e de consumir televisão em Portugal.

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