“Trio de Rachar”

É mesmo Trio … de Rachar. É esse o nome de um novo blogue que acaba de surgir no ciberespaço, a partir de Braga, animado por Pedro Costa (Rádio Clube), Luísa Teresa Ribeiro (Diário do Minho) e Pedro Antunes (Jornal de Notícias). No Rádio Clube são o “Trio de Jornalistas” e escolheram esta forma para dar continuidade na blogosfera às tertúlias da rádio.
Problematizar o mundo do jornalismo num contexto regional é um dos desafios assumidos pelo ‘Trio de Jornalistas’. Uma vertente definida desde a primeira hora deste projecto, feito a várias vozes e teclados, é falar da profissão. Para os que sonham com ela, para os que a vivem no seu dia-a-dia, para os que a estudam e para os que com ela são confrontados, seja através da rádio, da televisão, imprensa ou da Internet”.
Vale a pena ir aos primeiros posts e recuperar as reflexões que têm vindo a ser feitas sobre as condições de trabalho nas redacções e os pontos de vista que sobre elas dão conta estes jornalistas.

As duas culturas

“Nestes tempos em que as grandes palavras da moda estão associadas aos aparatos tecnológicos, em particular às tecnologias de informação e à Internet, as ciências humanas, a filosofia, as artes, a literatura, o corpo clássico da escrita e do saber estão, por assim dizer, fora de moda. Isso vê-se quando se discute o muito falado Plano Tecnológico, um dos símbolos da governação Sócrates (e dos seus alter-egos no PSD), muito hábil com telemóveis, computadores, gadgets e devices, mas pouco sensível àquilo que, com alguma comiseração, hoje se nomeia de “conteúdo”. É a forma, o instrumental, o brilho das luzinhas e a rectidão perfeita dos lasers que os entusiasma, perpetuando assim mais uma vez o divórcio das “duas culturas” que no passado pendia para a ignorância científica e para o sebentismo nas humanidades e hoje pende para o deslumbramento tecnológico e para a extinção das humanidades. Nem uma, nem outra “cultura” da clássica divisão de C. P. Snow existem como cultura sem se olharem entre si.(…)”.José Pacheco Pereira in “Publico”, 08.12.2007.

Relatório – Moldando o futuro

A comissão nomeada pelo sindicato britânico de jornalistas para analisar os efeitos do trabalho multimédia nas práticas, no desempenho e nas condições do exercício profissional acaba de divulgar o seu relatório que intitulou “Shaping the Future“.
É um documento longo e ficam aqui apenas alguns excertos das recomendações:

  • Our evidence shows members are clearly greatly concerned about the effects of often ill-conceived multimedia plans on their working lives, on their health and safety and on the quality of the work they produce.
  • Three quarters of respondents report that integration has brought increased workloads, and in some cases rising stress and longer hours.

Encontrei a informação no Infotendencias.

A blogosfera em 2007

Aí está, pelo quarto ano consecutivo, o “trabalho de formiga” de Leonel Vicente, no Memória Virtual, de registo do que de mais significativo se passou em torno dos blogues lusos em 2007. Os posts vão já no mês de Março e, até ao fim do ano, surgirão os restantes meses.

Este esforço de recolha e sistematização representa um trabalho de inestimável valor, precisamente para preservar e dar corpo à memória em torno de um fenómeno de evidente significado sócio-cultural e cívico.

Quem vier, um dia, a fazer a história deste fenómeno nunca poderá esquecer-se do contributo de Leonel Vicente. Nem poderá esquecer a falha maior do seu trabalho: o facto de, compreensivelmente, não referenciar as iniciativas do Memória Virtual. Na medida em que se torna veículo de memória, torna-se, ele próprio, um acontecimento e factor dessa memória.

Prémio para “Escrito na Palma da Mão”, da SIC

reportagem_sic.jpg“Escrito na Palma da Mão”, um trabalho de grande reportagem emitido pela SIC, em Junho último, da autoria de Carlos Rico, acaba de ser contemplada com um prémio de jornalismo instituído pela Assembleia da República.
A medalha comemorativa dos 50 anos da Declaração dos Direitos do Homem foi atribuída a um trabalho sobre o Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF), lançado em 1998 como medida de combate ao abandono escolar de crianças da comunidade cigana. A experiência objecto da reportagem está a decorrer no Bairro de Santa Tecla e na Escola C+S de Lamaçães, em Braga e, segundo o site da SIC, “procura dar um novo rumo a cerca de 30 crianças e jovens de etnia cigana”, “tarefa hercúlea que esbarra, vezes sem conta, na desmotivação e na falta de hábitos de estudo destes miúdos, por um lado, e na pouca importância que a maior parte dos pais ciganos atribui à escola, por outro”.
“Escrito na Palma da Mão” tem imagem de José Caldelas, edição de imagem de António Soares, grafismo de José Pedro Rosado e produção de Isabel Mendonça/Helena Alves (estagiária).

Como operar a mudança

Excerto de uma entrevista de António Granado (responsável pela edição online do Público) ao Online Journalism Blog:

Os jornalistas portugueses não estão preparados para os novos média, porque os novos média estão a entrar muito devagar nas redacções e, às vezes, da pior maneira. É preciso treinar os jornalistas para as tarefas que o novo jornalismo exige, é preciso fazê-lo com o apoio dos jornalistas e não contra eles. Em muitos sítios isto não está a ser feito.

Museu da Rádio – últimas imagens

Disponível, desde ontem, no site da RR-Informação, um trabalho de Dina Soares e Conceição Sampaio sobre os últimos dias do Museu da Rádio.
Discos de baquelite, gongos para sinais sonoros, aparelhos lindíssimos e as memórias de muitos profissionais estão a ser arrumados em caixotes para guardar num parque de estacionamento do novo edifício da RTP.

A propósito de Rádio, uma outra sugestão, a reportagem ‘O meu filho chocolate‘, de João Paulo Baltazar e João Félix Pereira (difundida no fim de semana passado na TSF mas disponível online).
O trabalho é daqueles que serve bem para defender as vantagens do’ som-só’ porque nos ‘mostra’ a intimidade profunda de uma conversa cheia de afecto entre mãe e filhos sem precisar da sua imagem.

Breves

Rui Araújo no Clube – “Qualquer que seja a opinião de cada um sobre o seu mandato, é inegável que Rui Araújo recolocou o papel do provedor no centro da discussão das questões dos media”, observa o site do Clube de Jornalistas, ao contextualizar o debate de que o ex-provedor do leitor do Público será o centro, no programa de hoje à noite, na RTP2. Participam, também, Nuno Pacheco, director-adjunto do “Público”, e Orlando César, presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. O moderador é João Alferes Gonçalves.

Auto-regulação – A Associação Portuguesa de Imprensa promove segunda-feira, dia 11, em Lisboa, o 5º Dia Nacional da Imprensa, centrado em dois temas: publicidade e auto-regulação. Na altura apresentará um ciclo de conferências para 2008 sobre “auto-regulação e media literacy“.

A falha do Público

O jornal Público disse-nos ontem, em primeira página, que o presidente Chavez tinha ganho o referendo.
Fez uma aposta arriscada e perdeu; apostou nas indicações das sondagens e ‘atravessou-se…ao comprido’.
Outros diários portugueses e estrangeiros agiram de forma diferente, ancorando-se no registo mais elementar do jornalismo – a fidelidade aos factos. Como não havia factos, à hora de fecho de muitos deles, escolheu-se um de dois caminhos possíveis – a indicação de imprevisibilidade ou a não referência ao assunto em primeira página.
O Público, como se disse, escolheu outra via.
Será, certamente, importante discutir esta acção, tendo em conta as implicações para a imagem do jornalismo como actividade socialmente relevante, desempenhada por profissionais experimentados que cumprem códigos e regras de comportamento suficientemente testados para merecer a confiança dos leitores.
Mas é também importante discutir o que o Público fez depois do erro.
Porque erros destes não são falhas individuais, porque erros destes acontecem e porque erros destes vão voltar a acontecer, no Público ou noutra publicação.
O Público ‘resolveu’ o assunto com uma nota de algumas linhas no site (disponibilizada às 13h51) e com a publicação de um texto em tudo idêntico na edição em papel de hoje.

E o que se diz aos leitores nesse texto – que o Público se apoiou em sondagens e numa convicção e que o Público errou.
Mais nada.
Isso já os leitores do Público tinham percebido.
Isso é, nos tempos que correm e tendo mesmo em linha de conta o que se diz, a dado passo, no seu estatuto editorial…

PÚBLICO entende que as novas possibilidades técnicas de informação implicam um jornalismo eficaz, atractivo e imaginativo na sua permanente comunicação com os leitores.

…pouco demais.

Talvez tivesse sido interessante aproveitar a situação para, em nome da ‘permanente comunicação com os leitores‘, explicar o processo jornalístico, as variáveis em jogo, a imponderabilidade.
Talvez tivesse sido interessante aproveitar a situação para explicar a falha como um risco inerente à profissão e também como um risco inerente à relação com os leitores.
Talvez se pudesse até aproveitar a situação para lembrar outras – e são tantas – famosas falhas do jornalismo nacional e estrangeiro.
Talvez se pudesse…
Mas, pelos vistos, não foi possível.
Só a notinha da Direcção, igualzinha à que sempre saiu.
Igualzinha.
O mundo mudou.
O Público ainda precisa de mudar (mais).

Ex-director de Le Monde aposta no digital

Um jornal digital acessível apenas na web, de natureza generalista e praticando um jornalismo “totalmente independente” e “de qualidade”, é o que se propõe lançar no próximo mês Edwy Plenel, antigo director de Le Monde, acompanhado de um grupo de jornalistas e de profissionais ligados à Internet.
Recusando a publicidade, o jornal, intitulado para já MediaPart, arrancará com base no investimento de um conjunto de parceiros especiais e viverá, sobretudo, do contributo económico dos seus leitores que pagarão cinco euros mensais se tiverem menos de 25 anos e nove se tiverem mais de 25. O projecto é alcançar 75 mil interessados em três anos.
O jornal propõe-se acompanhar a actualidade com rigor e apostar no debate do jornalismo que se pratica e na acção dos media na sociedade. Mas o projecto editorial assume igualmente objectivos políticos claros:

“(…) il cherche à inventer une réponse aux trois crises – démocratique, économique, morale – qui minent l’information en France, sa qualité et son utilité, son honnêteté et sa liberté. Notre présidentialisme exacerbé, qui réduit la politique de tous au pouvoir d’un seul, ruine l’esprit démocratique, corrompt l’indépendance des hommes et dévitalise l’expression de la liberté. Il impose son agenda à l’information, son omniprésence aux médias et son oligarchie financière aux entreprises de presse. Dans cette culture politique-là, un(e) journaliste est forcément un adversaire qu’il faut séduire ou réduire, vaincre dans tous les cas”.

Complementos:

Acessibilidade electrónica a marcar passo

Os promotores da “Petição pela acessibilidade electrónica portuguesa” queixaram-se hoje, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, junto do presidente da Assembleia da República, pelo facto de este órgão de soberania não ter tomado qualquer iniciativa, na sequência da iniciativa da petição, assinada por cerca de 7500 portugueses e entregue na AR faz agora um ano.
Em comunicado, chamam a atenção para “os prejuízos que tal implica para mais de dois milhões de cidadãos portugueses que se vêem, assim, privados de usufruir efectivamente das potencialidades das novas tecnologias”.

‘Back to basics’ = ‘back to ethics’

Já está disponível online o texto da comunicação que Joaquim Fidalgo apresentou, em Julho passado, na conferência da IAMCR, em Paris, intitulada What is journalism and what only looks like it? Re-defining concepts, roles and rules in the wide field of communication. Nele o autor reflecte sobre o caso, tratado pelo provedor do leitor do Público, das crónicas que aquele jornal publicou como sendo trabalhos jornalísticos, em Janeiro de 2006, a propósito da cobertura do rali Lisboa – Dakar, quando, de facto, haviam sido encomendadas e pagas por uma empresa externa que fazia publicidade nas mesmas páginas em que a matéria jornalística tinha sido publicada.

O argumento do artigo pode resumir-se neste excerto do resumo:

“In this paper (…) [w]e argue for the need of a kind of back to basics effort, meaning specificaly back to ethics, under the assumption that, particularly in our digital environment, the line defining the boundaries of journalism (and, therefore, distinguishing journalism from other forms of public communication) is not a matter of ‘who’, ‘what’ and ”where’ things are done, but rather a matter of ‘how’, ‘whay’ and ‘what for’ you do them”.