Pelo reconhecimento da excelência

Acontece-me, nos últimos tempos, ouvir o “Lugar ao Sul“, na Antena 1, em viagem que demora sensivelmente o tempo do programa. Para o ouvir, organizo-me para sair de casa quando ele começa. Hoje, como há oito dias, os temas natalícios eram o prato forte – com as canções dos janeireiros, a gastronomia típica, os costumes da quadra. Mais uma vez pôde, quem como eu ouviu o programa, constatar as excelentes qualidades de conversador e de entrevistador de Rafael Correia. Chega a circular na conversa por um registo que, para uma escuta menos atenta, poderá parecer sobranceria ou provocação. Lembro-me de ter sentido isso, nos primeiros anos em que comecei a seguir este inestimável programa, nos anos 80. É, porém, necessário um excepcional poder de criar empatia, de lançar pistas, de retomar deixas, de adoptar a ironia, de jogar aos papéis para compreender este caso de artista da reportagem e da entrevista. Folgo por isso em ver um jornalista da craveira de Pedro Coelho tomar, nas aulas de rádio que lecciona, o caso de “Lugar ao Sul” como exexemplo.

Mas Rafael Correia e o seu programa são muito mais do que isso. Porque a sua arte está também – sobretudo? – em ser capaz de fazer brilhar as artes, as vozes, as memórias e as paisagens do Sul e de quem nele tem histórias para contar. Reside em, semana a semana, programa a programa, há mais de um quarto de século, ir recolhendo, editando e acumulando um portentoso património cultural que espanta como ninguém, até hoje – a começar pela própria RDP – ainda não se preocupou em difundir (ou, pelo menos, tornar acessível).

Tanto quanto sei, este profissional dos media é avesso à mediatização. Mas, ainda assim, o nosso jornalismo está longe de o tratar com o destaque análogo ao que confere a pessoas e obras que não valem um caracol ao pé de “Lugar ao Sul”.

O Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins, considerou já o programa um “sinal de excelência” do Serviço Público de Radiodifusão e a movimentação dos ouvintes e admiradores impediu que tivessem persistido, naquela antena, em colocá-lo em horas impróprias para consumo. Com o pretexto do próximo 28º aniversário do programa e a próxima aposentação do seu autor, Álvaro José Ferreira, um ‘militante’ da causa da rádio de serviço público e grande admirador de “Lugar ao Sul”, propôs há dias ao presidente da República a atribuição a Rafael Correia da Ordem de Mérito por relevantes serviços culturais prestados a Portugal. Eu apoio tal proposta.

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One thought on “Pelo reconhecimento da excelência

  1. Concordo em absoluto.
    Temos serviço público? Sim, claramente!

    Mesmo tendo em conta os recursos e a periodicidade, que influenciam a qualidade do trabalho, um mero exercício de comparação diferencia aqueles que conhecem, como as próprias mãos, a arte de bem comunicar, apenas com recurso à voz.

    Talento, tempo e trabalho (muito) são indispensáveis. Mas sem o primeiro, ninguém chegará à excelência.

    feliz 2008… com boas escutas!

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