As duas culturas

“Nestes tempos em que as grandes palavras da moda estão associadas aos aparatos tecnológicos, em particular às tecnologias de informação e à Internet, as ciências humanas, a filosofia, as artes, a literatura, o corpo clássico da escrita e do saber estão, por assim dizer, fora de moda. Isso vê-se quando se discute o muito falado Plano Tecnológico, um dos símbolos da governação Sócrates (e dos seus alter-egos no PSD), muito hábil com telemóveis, computadores, gadgets e devices, mas pouco sensível àquilo que, com alguma comiseração, hoje se nomeia de “conteúdo”. É a forma, o instrumental, o brilho das luzinhas e a rectidão perfeita dos lasers que os entusiasma, perpetuando assim mais uma vez o divórcio das “duas culturas” que no passado pendia para a ignorância científica e para o sebentismo nas humanidades e hoje pende para o deslumbramento tecnológico e para a extinção das humanidades. Nem uma, nem outra “cultura” da clássica divisão de C. P. Snow existem como cultura sem se olharem entre si.(…)”.José Pacheco Pereira in “Publico”, 08.12.2007.

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4 thoughts on “As duas culturas

  1. “Alguma” razão, mas não posso deixar de salientar que é um discurso gasto e de fácil penetração. O que me levou a escrever aqui foi mais o facto de JPP ter tocado num dos pontos mais sensíveis das novas tecnologias, os “conteúdos”. Porque foram eles ou melhor a falta deles que esteve na origem do rebentar da bolha tecnológica de 2001 e a demonstrar que a tecnologia por si só e sem o conteúdo não chega, e não vende. Se voltámos a falar de tecnologias nos últimos 2 ou 3 anos não foi porque esta se alterou muito, mas porque acima de tudo se alteraram drasticamente os actores na produção desses conteúdos, nomeadamente com a chamada web2.0 ou social e nesse sentido não posso deixar de referir as mudanças no plano cognitivo operadas por estes novos meios bem definidas por Steven Johnson em “Everything Bad is Good for You”. Ou seja é verdade que é impossível realizar algo sem ambas as valências, e ambos os lados o reconhecem, contudo sempre que podem ambos atiram umas farpas tal como acontece neste pequeno comentário de JPP.

  2. No caso do Plano Tecnológico para a Educação, aposta-se muito na distribuição de computadores com acesso à Internet, com preços atractivos (e não gratuitamente, como por vezes se pretende passar). Aposta-se também na utilização da plataforma Moodle, como ambiente de aprendizagem. Depois, pressupõe-se que os utilizadores vão criar os conteúdos. Na verdade, está previsto nesse Plano um portal, maisconteudos.pt, para distribuição de “sebentas digitais” (sic), mas ainda não existe.
    Como dizia o Nelson, a web 2.0 (Johnson sublinha muito o papel dos videojogos) tem fomentado um espírito de partilha e permite ao utilizador ter um papel determinante na construção do conhecimento – o caso mais paradigmático é a Wikipédia.
    No entanto, parece-me que conteúdos multimédia de qualidade (gráfica, científica, pedagógica) terão de ser o resultado de um trabalho de uma equipa de profissionais e multidisciplinar.
    Por isso, acho esta passagem de JPP muito pertinente.

  3. Luís, eu diria que o Jonhson faz um trabalho que atravessa o modo de interpretação cognitiva da realidade mediática seja ela net, videojogos ou televisão. Aliás julgo que o pensamento dele acaba por ter maior impacto no modo como nos relacionamos no sec. XXI com a televisão uma vez que corta com todo o discurso anterior sobre a caixinha preta.

    Relativamente aos conteúdos posso estar em acordo mas apenas em parte. Se é verdade que para nós o conhecimento ainda é fomentado pelo sistema um-todos, julgo que o exemplo que dás da wikipedia derruba por completo esse paradigma como o único possível. Estamos num periodo de transição, e se até agora os blogs, as wikis entre outros conseguiram alterar o panorama do acesso à informação julgo que dentro de alguns anos o acesso facilitado a ferramentas de produção multimédia, tendo em conta uma escala global, farão surgir muitos actores não esperados em toda a linha de produção do saber. A minha crítica ao texto está mais relacionado com o facto de ele partir de uma assunção de verdade sobre a hegemonia da tecnologia face às humanidades, quando para mim isso é apenas uma aparência. É claro que analisado o texto tal como está poderá dizer-se que não é isso que lá está denotado, mas não podemos deixar de analisar a conotação para compreender o que ali é dito. Existe uma tentativa de atirar as “culpas” para o outro lado, mas a verdade é que o problema é mais estrutural do que isso.

    Porque de outro modo como se justifica que os miudos que chegam às universidades e que supostamente tanto adoram a tecnologia depois escolham as áreas do saber mencionadas por JPP em detrimento das engenharias? Ou seja como se justifica que tenhamos dos rácios mais baixos de formação em engenharia justificando mesmo que empresas criadas em Portugal tenham de sair para o exterior porque não existem recursos humanos suficientes com formação simples (licenciatura) em tecnologias de informação.

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