A falha do Público

O jornal Público disse-nos ontem, em primeira página, que o presidente Chavez tinha ganho o referendo.
Fez uma aposta arriscada e perdeu; apostou nas indicações das sondagens e ‘atravessou-se…ao comprido’.
Outros diários portugueses e estrangeiros agiram de forma diferente, ancorando-se no registo mais elementar do jornalismo – a fidelidade aos factos. Como não havia factos, à hora de fecho de muitos deles, escolheu-se um de dois caminhos possíveis – a indicação de imprevisibilidade ou a não referência ao assunto em primeira página.
O Público, como se disse, escolheu outra via.
Será, certamente, importante discutir esta acção, tendo em conta as implicações para a imagem do jornalismo como actividade socialmente relevante, desempenhada por profissionais experimentados que cumprem códigos e regras de comportamento suficientemente testados para merecer a confiança dos leitores.
Mas é também importante discutir o que o Público fez depois do erro.
Porque erros destes não são falhas individuais, porque erros destes acontecem e porque erros destes vão voltar a acontecer, no Público ou noutra publicação.
O Público ‘resolveu’ o assunto com uma nota de algumas linhas no site (disponibilizada às 13h51) e com a publicação de um texto em tudo idêntico na edição em papel de hoje.

E o que se diz aos leitores nesse texto – que o Público se apoiou em sondagens e numa convicção e que o Público errou.
Mais nada.
Isso já os leitores do Público tinham percebido.
Isso é, nos tempos que correm e tendo mesmo em linha de conta o que se diz, a dado passo, no seu estatuto editorial…

PÚBLICO entende que as novas possibilidades técnicas de informação implicam um jornalismo eficaz, atractivo e imaginativo na sua permanente comunicação com os leitores.

…pouco demais.

Talvez tivesse sido interessante aproveitar a situação para, em nome da ‘permanente comunicação com os leitores‘, explicar o processo jornalístico, as variáveis em jogo, a imponderabilidade.
Talvez tivesse sido interessante aproveitar a situação para explicar a falha como um risco inerente à profissão e também como um risco inerente à relação com os leitores.
Talvez se pudesse até aproveitar a situação para lembrar outras – e são tantas – famosas falhas do jornalismo nacional e estrangeiro.
Talvez se pudesse…
Mas, pelos vistos, não foi possível.
Só a notinha da Direcção, igualzinha à que sempre saiu.
Igualzinha.
O mundo mudou.
O Público ainda precisa de mudar (mais).

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8 thoughts on “A falha do Público

  1. Pois precisa e muito. Lança uma manchete para a rua completamente errada induzindo os seus fiéis leitores em erro e depois o reparo é feito em nota de roda pé online. Para mim só quer dizer que o Público acredita que os seus leitores não se regulam apenas pelo que o Público diz mas que se socorrem de outras fontes tais como a internet.

    Esta passou-me ao lado e ainda bem, porque cada vez menos se vai sentido a necessidade do papel. Quando é o próprio Público a dizê-lo aos seus leitores, ‘não confiem no papel dirijam-se ao digital’, acho que está tudo dito. Isto não quer dizer que se sinta menos a necessidade de um jornalismo sério e factual, julgo que o problema advém mesmo da necessidade de ser “atractivo e imaginativo” e nesse sentido vale tudo, mesmo que para isso seja necessário de vez em quando induzir os receptores em erro.

    Por tudo o que se tem dito do Público só sinto pena que ainda assim seja o último reduto do jornalismo diário em Portugal deixando-nos sem opção.

  2. Dir-se-ia que um erro qualquer um comete e que a arte está em pedir desculpa, o que a Direcção do ‘Púbico’ fez. Mas este é um falhanço grave (e não inédito, longe disso).
    No entanto, o que o torna, a meu ver mais lamentável é que ele trata pessimamente editoria Mundo do jornal, bem como a jornalista que assina a peça. De facto, o título da peça a que se refere a primeira página é cuidadoso: “Sondagens dão vitória à reforma constitucional de Chávez“. E Ana Cristina Pereira esclarece, logo a seguir, que se trata de “três sondagens feitas à boca da urna”, acrescentando, mais adiante, que as sondagens foram “elaboradas por entidades conotadas com a ‘revolução bolivariana’“. Ou seja, quem teve a responsabilidade do fecho atirou às malvas os cuidados da jornalista, e transformou a possibilidade em certeza. Um comportamento cada vez mais frequente no nosso jornalismo impresso.
    Pode-se argumentar que, ainda assim, todos os sinais apontavam no sentido da manchete. Mas, como observa Luís Santos, o jornalismo deixa-se surpreender pelos factos, não pelos cenários e previsões dos factos.

  3. Este assunto também suscita polémicas no Brasil. O jornalista Alberto Dines, director do Observatório da Imprensa, intitula um seu texto de hoje “O dia em que os mancheteiros quebraram a cara“. E comenta:
    “A boca-de-urna falhou na Venezuela, o eleitor driblou os pesquisadores, deu uma rasteira em Hugo Chávez e, de quebra, mostrou aos jornalistas que a sua obrigação não é adivinhar. (…) “O futebol é uma caixinha de surpresas”, mote vigente em nossas editorias de Esporte, deveria ser estendido e imposto às demais editorias. Tudo pode surpreender – eleições, loterias, concursos de beleza, votações no Congresso, prêmio Nobel e desfiles de escolas de samba. Se os jornalistas desacostumarem os leitores deste jornalismo divinatório, poderão livrar-se da diabólica exigência de antecipar resultados de algo que ainda não aconteceu para concentrar-se na sua missão estrita – reportar o acontecido.”

  4. Foi um erro grave? Claro que sim. Importa, no entanto, não esquecer que há uma diferença (substancial, digo eu) entre o que se perde por fracassar (foi o caso) e o que se perde por não tentar (não foi o caso). Aliás, conheço alguns jornalistas que nunca erram. E não erram por que nada fazem. E, de facto, a melhor forma de não errar é não fazer…

  5. Não sendo investigador de jornalismo nem jornalista fiquei com este post e seus comentários a perceber um pouco mais do funcionamento de uma redacção. Contudo sou obrigado a relembrar-vos que a grande maioria dos leitores não faz ideia do que está em causa quando um erro destes ocorre. Assim, apesar de podermos explicar, não se pode desculpar, e aqui estou de acordo com o Luís e em desacordo com o Manuel, o público ‘fez’ mas era necessário explicar mais a quem paga o jornal.
    Mas também não se pode desculpar quando se verifica que o que aconteceu foi na realidade o recurso ao método dos “tablóides” ou seja colocar na capa apenas parte da realidade, para que essa parte uma vez descontextualizada pudesse criar impacto no leitor no momento da compra. O grave é que aqui a descontextualização não era suficiente, isto porque que o que estava em causa era um evento de efeito binário, “não” ou “sim”, era difícil criar o impacto desejado sem escolher uma das vias.
    Porque posto tudo isto, escrever «Venezuela diz “sim”» é em meu entender grave e ridículo quando bastaria trocar o ‘diz’ por ‘próxima do’ para que os textos do jornal fossem coerentes com a manchete e esta discussão não existisse.

  6. 100% de acordo com o Prof. Manuel Pinto no que toca à situação em que a Ana Cristina Pereira foi deixada. No dia da falha estive a ouvir o José Manuel Fernandes falar (no “Clube dos Pensadores” – recomendo uma ida à próxima edição, pelo que de bom e hilariante consegue conjugar brilhantemente) e ele próprio ressalvou que o texto era diferente da manchete e que a opção do “colega” fora errada.

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