Internet ‘Far West’

Depois de ler com atenção a prosa de João César das Neves no DN de hoje lembrei-me, de imediato, de uma publicidade a uma bebida que nos falava dos copos meio-cheios ou meio-vazios.
Excertos:

(…) não há dúvida que numa grande parte dos blogs, mensagens, comentários e sites de debate dominam o pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez.
(…) a Net tende a trazer ao de cima os instintos mais baixos dos que a frequentam. Uma prova desse facto é que muita gente põe em blogs e e-mails coisas que teria vergonha de dizer ao telefone, escrever numa carta ou publicar em jornais ou livros. Aliás vê-se que, interpelado ou confrontado com o que escreveu, frequentemente o autor cai em si e admite ter-se deixado levar pelo meio. O que prova que existe algo nessa forma de comunicação que motiva o dislate.
(…)
Perante um choque, como ao nascer de um novo continente ou forma de comunicação, a tradição é pulverizada. Então, no Far West e Internet, como nas revoluções, uma sociedade vive algum tempo com uma estrutura cultural mínima, que não chega para orientação. Nessas fases da História, e enquanto não se criam novos quadros de referência, vêm ao de cima os instintos mais básicos e boçais. É isso que por enquanto se vê na Net, apesar dos esforços intensos que um dia conseguirão civilizá-la.

Independentemente da posição relativa, parece-me que o conhecido economista tenta, com a sua prosa (e até mesmo com as cuidadas aparições do que parecem ser notas de equilíbrio) dizer-nos que no fundo, no fundo, nisto da participação individual ou colectiva na Net existe apenas uma forma de avaliar a situação – é mau.
É mau porque não há regulação e é mau porque o Homem, sem regulação, tende a comportar-se de forma boçal.

Não é verdade.
Olhar para a Net valorizando o que ela produz de erro, exagero e até mesmo boçalidade pode – como prova JCN – desviar-nos do mais importante – a riqueza da Net está precisamente na sua natureza original, na sua existência e florescimento sem núcleo, na facilidade com que nos apropriamos de algumas ferramentas e delas fazemos o que queremos.

Isso é, potencialmente, uma oportunidade magnífica…com riscos.
Não é o contrário.

Leituras: Benjamin e comunicação participativa

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