Questionar a profissão

“[…] se assim era no meu tempo de jovem repórter, pior é ainda hoje, porque maiores são os constrangimentos e as ameaças: a competição desenfreada, o desemprego, a contenção de custos e o impacto das novas tecnologias. O sistema pressiona o jornalista, esmaga o jornalismo. A informação era um serviço. Passou a ser mais uma mercadoria, é promovida como tal. Os cidadãos ficaram reduzidos a meros consumidores. A opção lógica é, portanto, dar-lhes o que querem, já que o freguês tem sempre razão. O ‘infotainment’ alastrou, invadiu as páginas dos jornais. É provável que a confusão de géneros acabe por fomentar a apatia. É uma perspectiva preocupante porquanto a democracia não depende só da eficácia das instituições e do desenvolvimento tecnológico, mas também e sobretudo dos cidadãos. E a informação é vital. É por isso que os jornalistas não podem ser acríticos, inofensivos, irresponsáveis e objectivos. (…) Aprendi com Bill [Kovach] a questionar-me, enquanto jornalista. E a questionar a profissão. ‘É crucial que os jornalistas definam claramente os valores e as responsabilidades comuns do jornalismo, na perspectiva da promoção da cidadania’. É, portanto, urgente repensar as regras sob pena de o jornalismo se tornar dispensável”.

Rui Araújo, in Público, 25.11.2007, na última crónica como Provedor do Leitor

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One thought on “Questionar a profissão

  1. É isso mesmo. Somos poucos mas ainda vamos andando por aí. Somos, concordo, uma espécie em vias de extinção. Um dia destes alguém se lembrará que, afinal, é preciso manter a espécie. É que sem Jornalistas a liberdade será uma miragem. Com o fim dos Jornalistas chegará também ao fim a liberdade. Podem crer.

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