“Não vamos discutir isso”?

Na entrevista feita pelo DN a Mário Soares deixa-se em aberto um tema (recorrente) que não deveria ficar na gaveta. É enunciado assim:

DN – E hoje, o PS?
MS – Bem, hoje o PS está perante uma invasão e uma pressão enorme, não da direita política – que neste momento, representa, infelizmente, pouco… Eu gostaria que a oposição, sobretudo a do PSD, fosse uma oposição forte e coerente, porque isso é útil para um partido de Governo como o PS, sobretudo tendo maioria. Mas a pressão vem do lado direito… Dos interesses, de toda a imprensa, de toda a opinião. A opinião que a imprensa procura fazer vem sempre do lado direito. Se vir hoje, não há nenhum jornal que veicule as ideias da esquerda em Portugal, o que é triste.

DN – A sua opinião sobre a imprensa é curiosa porque é normal ouvirmos políticos de partidos de direita dizer que a generalidade da imprensa é de esquerda. Por isso, a sua opinião aqui é curiosa…
MS – Se calhar alguns dizem isso porque acham que não é suficientemente de direita [risos].

DN – Bom, mas não vamos discutir isso…
MS – [Risos] Não, não vamos, vocês ficariam mal se discutíssemos isso…

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Questionar a profissão

“[…] se assim era no meu tempo de jovem repórter, pior é ainda hoje, porque maiores são os constrangimentos e as ameaças: a competição desenfreada, o desemprego, a contenção de custos e o impacto das novas tecnologias. O sistema pressiona o jornalista, esmaga o jornalismo. A informação era um serviço. Passou a ser mais uma mercadoria, é promovida como tal. Os cidadãos ficaram reduzidos a meros consumidores. A opção lógica é, portanto, dar-lhes o que querem, já que o freguês tem sempre razão. O ‘infotainment’ alastrou, invadiu as páginas dos jornais. É provável que a confusão de géneros acabe por fomentar a apatia. É uma perspectiva preocupante porquanto a democracia não depende só da eficácia das instituições e do desenvolvimento tecnológico, mas também e sobretudo dos cidadãos. E a informação é vital. É por isso que os jornalistas não podem ser acríticos, inofensivos, irresponsáveis e objectivos. (…) Aprendi com Bill [Kovach] a questionar-me, enquanto jornalista. E a questionar a profissão. ‘É crucial que os jornalistas definam claramente os valores e as responsabilidades comuns do jornalismo, na perspectiva da promoção da cidadania’. É, portanto, urgente repensar as regras sob pena de o jornalismo se tornar dispensável”.

Rui Araújo, in Público, 25.11.2007, na última crónica como Provedor do Leitor

Luís Castro problematiza o “caso Maddie” em livro

Por que Adoptámos Maddie é, a par do relato dos factos que envolveram o desaparecimento da criança inglesa da praia da Luz na noite de 3 de Maio, uma (excelente) oportunidade para reflectir acerca da gigantesca cobertura mediática de que foi alvo este caso, que rapidamente se dimensionou à escala global. O autor do livro, o jornalista da RTP , conversou com 24 personalidades (responsáveis policiais, magistrados, académicos, políticos, jornalistas…), procurando com os seus entrevistados respostas à questão que estrutura o título do seu livro.

Na contracapa, lê-se o seguinte:
E por que razão lhe passámos a chamar ‘Maddie’, quando os pais e os familiares nunca o fizeram? Sempre os ouvimos tratar a menina por Madeleine. Na verdade, procurámos uma designação que exprimisse a diminuição do tamanho do ser, que adoçou, que encurtou a distância e criou laços emotivos e de familiaridade. ‘Maddie’ deixou de ser filha dos McCann e passou a ser filha do mundo. Esta é a grande história jornalística dos últimos anos e todos nós acabá
mos por adoptar Maddie.”

Luís Castro é jornalista da RTP desde 1992. Foi editor de Política, de Economia e Internacional na RTP-Porto e coordenador do programa de informação “Bom Dia Portugal”. É, desde 2004, coordenador do ” Telejornal” da RTP. É autor de Repórter de Guerra (Ed. Oficina do Livro), brevemente a ser traduzido na China. O lançamento deste livro está marcado para amanhã, às 21horas, na livraria Bertrand do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. A apresentação caberá ao Presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Azeredo Lopes.

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