A propósito do Nobel da Física 2007

A propósito do prémio Nobel da Física, Alberto Sá, que desenvolve, no quadro do seu doutoramento na Universidade do Minho, um projecto de investigação sobre memória na Internet, enviou-nos o texto seguinte:

A Academia Sueca decidiu atribuir o Prémio Nobel da Física de 2007 ao trabalho desenvolvido sobre a magneto-resistência gigante, premiando o esforço dos cientistas Albert Fert e Peter Grünberg. De uma maneira geral, trata-se do reconhecimento pelos avanços tecnológicos ocorridos desde finais da década de 80 e que possibilitaram a contínua miniaturização do disco-duro. Na prática, o âmbito do prémio extravasa o domínio da categoria contemplada, a Física: ao recorrer a impulsos electro-magnéticos para representar o “zero” e o “um” binários, o galardão estará verdadeiramente a reconhecer o contributo para a edificação de um novo paradigma informacional, com incontestáveis e irreversíveis repercussões sócio-culturais e económicas, as quais, actualmente, são ainda objecto de discussão para apreensão da sua real magnitude e alcance, como demonstra a sucessiva desmultiplicação do fenómeno Web.

A rápida e maciça computorização da sociedade, ritmada pelos impulsos inovadores da nanotecnologia, veio alastrando a essência da digitalização a todas as esferas da criação humana: na produção de bens e serviços, na expressão artística, na excelência científica e intelectual, no domínio da administração pública, nas dimensões do social. Paulatina mas determinadamente, o computador tornou-se o instrumento de trabalho privilegiado para a produção de conhecimento e de informação, e ganhou impacto como interface de comunicação entre seres humanos. Na penumbra, o disco-duro é o garante desse novo paradigma tecnológico. O progresso tecnológico veio permitir o aumento da capacidade de armazenamento e a progressiva diminuição do preço dos disco-duros, tornando exequível a megalomania de Vannever Bush de tudo querer armazenar através do sistema “Memex”, de 1945, da qual, a empresa Google procura assumir o testemunho.

Seja para memória individual ou simples forma de revivalismo nostálgico, seja para a posteridade ou para eliminar o arquivo físico, deve-se aos agora galardoados o facto de, actualmente, ser mais custoso (em tempo) apagar do que guardar.

Alberto Sá 

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