o que (não) dizem os rankings

A propósito da informação e dos comentários neste e noutros blogues acerca das notas mínimas de acesso aos cursos de comunicação dos estabelecimentos de ensino superior público, Sandra Marinho, investigadora da Universidade do Minho, com uma tese de doutoramento em preparação sobre as mudanças no ensino do jornalismo, enviou-nos o seguinte texto:

Não tenho nada contra rankings e acho até que são um instrumento muito útil. Encerram, contudo, um perigo, se não esclarecermos bem o que medem exactamente. Neste caso, de facto, até se esclarece que se trata da nota do último aluno colocado em cada curso. O problema é que, subjacente a este tipo de classificação, está normalmente um julgamento sobre a “qualidade” de cada licenciatura e esse, sim, pode estar sujeito a preconceitos.

Consultei o Ponto Media, onde esta informação foi originalmente publicada (um bom trabalho) e revejo-me particularmente nos comentários de A. Fidalgo e S. sobre as “condições de acesso” e sobre o “número de vagas”. Julgo que pode ter interesse fazer-se um ranking resultante de um modelo ponderado (sempre discutível) que entre em linha de conta com diversas variáveis:

  • – A média do último aluno que entrou em cada curso.

Para isso, ter-se-ia de identificar, de entre todos os cursos, o que tem o número mínimo de vagas e procurar esse posto em todos os outros cursos. Por exemplo, o curso “x” tem 30 vagas e o último aluno aqui colocado tem média de 14. Para poder comparar todos os cursos teríamos de identificar a que nota corresponde o trigésimo aluno que entrou em cada um dos cursos analisados. Só assim temos matéria comparável em termos de médias.

  • – As condições de acesso

Cursos com condições mais exigentes ao nível do acesso, nomeadamente os que exigem pares de provas, teriam de ser classificados com um índice mais alto, ao nível desta variável.

  • – Capacidade de captação

Aqui entra em linha de conta a origem (geográfica) dos candidatos admitidos. Um curso com capacidade de captar estudantes fora da sua “área geográfica” obteria igualmente uma classificação superior a um curso cujos candidatos provêm da região onde está implantado.

  • – A ordem de escolha do curso

O facto de um curso ser escolhido como primeira opção pela maioria dos admitidos revela uma preferência que também não deve ser ignorada e ponderada.

É claro que estas são apenas algumas das variáveis que poderiam ser operacionalizadas num modelo com muitas percentagens, critérios, ponderações, com toda a subjectividade (admitida) que estas questões sempre acarretam, mas que, parece-me, seria talvez mais justo… Ainda assim, só estamos a avaliar a procura, que não esgota, de todo, os critérios para a avaliação da qualidade da oferta de formação! Falta ver muitas outras coisas, umas mais facilmente mensuráveis do que outras: os curricula, o corpo docente, a investigação associada ao ensino, a empregabilidade, os recursos financeiros, humanos e técnicos disponíveis… e até questões aparentemente muito menos importantes como as Universidades/Politécnicos e regiões onde os cursos estão implantados, com tudo o que isto acarreta: os índices de desenvolvimento das cidades tornam um curso mais ou menos atractivo; o prestígio da Universidade/Politécnico pode introduzir um factor de contágio na apreciação do curso, etc, etc…

Enfim, seria matéria vasta e complexa, mas não completamente impossível. Isto dava era para um doutoramento!

Sandra Marinho

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One thought on “o que (não) dizem os rankings

  1. Faço este trabalho desde que existe o Ponto Media e é sempre um dos posts mais lidos do ano. A ideia é dar informação sobre as médias de entrada dos diversos cursos e não fazer qualquer espécie de ranking que, como muito bem diz a Sandra, só poderia ser feito com muito mais dados e com muito mais informação. E com ponderações sempre discutíveis e demasiado dependentes de quem as faz…
    De qualquer forma, acho que aceito o desafio de tentar publicar mais algumas informações destas que a Sandra refere. Sempre com o objectivo de dar mais informação, porque para rankings não contem comigo. É que as eventuais ponderações que um ranking precisa têm de ser feitas por alguém muito mais independente do que eu.

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