Comunicação, abundância informacional e aparência – conferência de José Luís Garcia

Realiza-se amanhã, às 15.30, na Universidade do Minho, em Braga, uma conferência do sociólogo José Luís Garcia, sobre o tema Comunicação, abundância informacional e aparência. A iniciativa, que tem lugar na Sala de Seminários do Instituto de Ciências Sociais, no Campus de Gualtar, é uma iniciativa de dois centros de investigação – o de Sociologia e o de Ciências da Comunicação e inscreve-se num Ciclo de Conferências e Seminários sobre “Tecnologia e configurações do humano“.

José Luís Garcia, sociólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, tem vindo a concentrar a sua atenção no estudo da ciência e tecnologia contemporâneas, bem como problemáticas conexas. Este mesmo tópico constitui a focalização do seu doutoramento em Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, cuja tese apresenta o título “Engenharia Genética dos Seres Humanos, Mercadorização e Ética. Uma Análise Sociopolítica da Biotecnologia.” Simultaneamente, desenvolve investigação em teoria social, após se ter dedicado aos mass media e jornalismo, às questões do ambiente, pobreza juvenil e migrações. É este o resumo da sua conferência:

“Ao longo do século XX, com o apoio da filosofia e da teoria social, formou-se uma corrente de pensamento sobre a civilização tecnológica criada nos últimos dois séculos e meio pelo Ocidente. Em larga medida, o trabalho de compreensão desta era – enquanto idade tecnológica – está realizado nos seus alicerces, embora seja um esforço que deva ser sempre reconsiderado devido à transformação tecnológica constante que não só constrange o ambiente externo da acção social, como influi no tempo, no espaço e em tudo o que denominamos mundo natural. Todavia, as meditações sobre a actual civilização tecnológica, embora disponíveis, não têm conseguido lograr uma ressonância significativa, estando confinadas por ora a uma certa condição exilada.

Contrariando esta tendência, explorarei a hipótese segundo a qual a comunicação ganha muito em ser estudada a partir da reflexão elaborada por teóricos que não descuidaram o escopo da tecnologia para pensar as sociedades contemporâneas. Nesta opção, apoio-me no facto absolutamente manifesto de que a comunicação, um conceito só aparentemente fácil de definir, é hoje atravessada em quase todas as suas expressões e facetas pela tecnociência. Seguindo este pressuposto, tentarei compreender a comunicação como «relação de fundo» da nossa experiência com o mundo (na acepção de background relation de Don Ihde [1990]) ou «disponibilidade ambiental», e como evento ontológico e metafísico. Mais especificamente, tentarei actualizar o raciocínio, que defendi detalhadamente num texto dedicado ao pioneirismo de Simmel na discussão filosófica e sociológica sobre a civilização científico-tecnológica (Garcia, 2003), de acordo com o qual a cultura moderna sofre o que chamei de um «desvio factício». Este argumento defende principalmente que a condição humana no mundo tecnológico moderno se encontra crescentemente sob o sentimento da perda da autonomia individual, da acção voluntária e da experiência com o próximo enquanto criadoras de possibilidades normativas, de processos sociais e de instituições. Todavia, apresso-me a acrescentar que vejo dificuldades insuperáveis nas concepções que entendem a ordem social como uma ordem meramente externa e coerciva ou, ao invés, como uma realização voluntarista. E, precisamente porque a simbolização é inerente à acção social, o meu principal propósito é revelar algumas das lógicas centrais que presidem à perda da autonomia da comunicação em relação à informação processada pela tecnologia e valorizada pelo mercado. Interpreto este processo como uma fase exacerbada da tragédia da cultura moderna na qual a actual tecnoeconomia da informação se apresenta fulgurantemente como fim em si mesma, colocando em desordem os quadros cognitivos, culturais e espirituais da acção social”.

Anúncios