Jornalista ou accionista? – Actualização

O director do Expresso, Henrique Monteiro, comentou o texto que aqui inseri há dias, a propósito da cobertura da Assembleia Geral do BCP. Li, no sábado, o que o jornal entendeu esclarecer sobre a matéria. Li também o relato do jornalista Pedro Lima, que teve acesso à dita assembleia na qualidade de accionista. Peço desculpa, mas continuo a ter muitas dúvidas sobre o procedimento do Expresso (não em termos legais ou formais, mas em termos deontológicos) nesta matéria. São cinco, parece-me, os argumentos em debate:

1) O jornalista não poderia ser acusado de deslealdade para com os outros accionistas, pois o BCP foi previamente informado – e, portanto, toda a gente na sala sabia. A isto respondo que um comportamento criticável não fica necessariamente ‘desculpado’ pelo simples facto de ser anunciado previamente. Respondo também que os próprios accionistas do BCP (ou uma parte deles) parecem não ter concordado com tal interpretação, como revela o relato de Pedro Lima, explicando que foi insistentemente instado a deixar de funcionar como jornalista numa reunião para a qual tinha entrado como accionista. Até fala de receio pela sua integridade física… Pelos vistos, foram os próprios accionistas que se sentiram lesados.

Há, entretanto, aqui um pormenor curioso – e que mostra como o Expresso também não revelou TUDO o que ia fazer. Leia-se o que diz Pedro Lima a propósito de uma altura em que deixou de mandar informações para o exterior:

“Defini com o jornal que continuaria na AG mas sem enviar mais nada. O que poucos sabiam era que tínhamos outro jornalista na AG. E, como tal, poderia continuar a assistir tranquilamente, enquanto a informação ia saindo. O que até me dava um certo gozo”.

Afinal as coisas não foram assim tão transparentes por parte do jornal, pois não?…

2) Não terá havido disfarce ou ocultação de identidade por parte do jornalista. Aqui, não vale a pena entrarmos em jogos de palavras ou em desculpas formais. Se o repórter do Expresso tivesse apresentado a sua Carteira Profissional de Jornalista para entrar na sala, seria impedido (como todos os outros foram). Mas como apresentou um comprovativo da sua situação de accionista do BCP, entrou na sala. Todos sabiam que ele era jornalista, mas todos sabiam que ele entrava ali como accionista. E se nós somos sempre tão zelosos a criticar os políticos que confundem ostensivamente os seus papéis – falam em sede de Governo como líderes partidários, falam em sede de partido como homens do Governo… – também não devemos aceitar que um jornalista ‘vista’ ou ‘dispa’ esse seu fato conforme a ocasião e a circunstância.

3) Não há situação de desigualdade para com outros jornalistas, pois todos podiam ter feito o mesmo. Discordo. Só ‘podia’ ter feito o mesmo quem comprasse acções do BCP – algo que custa dinheiro – ou quem conseguisse uma procuração – algo que não se arranja do pé para a mão. Mais: só ‘podia’ ter feito o mesmo quem concordasse com esse tipo de procedimentos e não visse aí um atropelo às regras deontológicas da profissão. Se eu me sinto vinculado a certos princípios, não ‘posso’ desrespeitá-los – porque não quero, porque acho que não devo. 

4) A opção do Expresso justificar-se-ia porque se estava perante um acontecimento de relevante interesse público. Permito-me duvidar também aqui. Não sei se uma assembleia de accionistas de um banco privado, destinada a discutir sobretudo umas polémicas alterações de estatutos e de organização do poder interno, é de um interesse público tão relevante, tão relevante, que justifique a abertura de uma excepção ao que está consignado no Código Deontológico dos jornalistas quanto à sua identificação. Que é de interesse público, aceito; que seja assim tão relevante, duvido.

5) Aquela assembleia geral não era uma reunião reservada e, tal como sucede noutros países, devia ser aberta à Comunicação Social. Que uma reunião deste tipo ‘devia’ ser aberta à Comunicação Social, não tenho dúvida nenhuma; mais, até entendo que os jornalistas devem lutar por todos os meios (legais e legítimos) ao seu alcance para  tentar alterar este estado de coisas. Que aquela reunião concreta não era uma reunião reservada, discordo. Os accionistas de uma empresa privada entenderam reunir-se  e entenderam vedar o acesso aos trabalhos à Comunicação Social: é, ou não, um direito que lhes assiste, mesmo que tenhamos uma opinião diversa e procuremos convencê-los disso? Parece-me que sim. Se, por discordarmos da sua opção, acabamos por adoptar meios ilegítimos de a contestar, arriscamo-nos a perder a razão, e ‘vai fora a criança com a água do banho’. Também aqui – e, repito, atendendo ao relativo interesse público do que está em causa -, parece-me que os fins não justificam os meios.

(Em tempo: esta questão também está a ser debatida no blogue do jornalista João Paulo Meneses, e com um elemento adicional que merece ser considerado.)

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