Nos 120 anos do Jornal de Notícias

Cento e vinte anos são 120 anos, perdoe-se a ‘lapalissada’. É a redonda idade que o Jornal de Notícias se prepara para celebrar, daqui a um ano. É um diário curioso, este. Que passa despercebido, como passsa despercebida muita coisa que não existe ou não acontece nas esferas e círculos da Photo Sharing and Video Hosting at Photobucketcapital e arredores. Está longe de ser um jornal exemplar. Sei bem – são grandes os laços que a ele me ligam – que muitos, lá dentro, continuam a suspirar por mais e melhor. Mas, visto do lado do leitor atento que há muito procuro ser, é um jornal simples, decente, combativo, cioso da sua memória, atento à região em que está implantado. O que não é pouco.

Eu gostaria de o ver mais arrojado, porventura mais combativo, com um site mais arejado e funcional, mais preocupado com as gerações mais novas, mais virado para as novas formas de participação dos leitores, mas sem perder esse lado popular (que não descambe para o popularucho), esse esforço de envolver no acompanhamento da actualidade uma população que pouco mais tem para se informar do que a televisão e … os jornais gratuitos.

CORRECÇÃO (3/6) – Por má interpretação minha, dei ao JN mais um ano do que aqueles que tem. Corrigi, por conseguinte, o início do post. Tudo o resto se mantém – agora como desejo para … 120º aniversário.

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A tragédia e o jornalismo

Eduardo Cintra Torres (ECT) escreve hoje no Público, sob o título “A tragédia é sempre excessiva”, uma dos mais interessantes e fecundas análises da cobertura televisiva do caso do desaparecimento de Madeleine, na Praia da Luz. Sugiro a sua leitura.

O catalão Llorenç Gomis costumava dizer que o jornalismo é relevante na medida não só em que reflecte a vida social, mas também na medida em que suscita a conversação, a aprendizagem e a própria acção. O texto de ECT suscitou-me estas notas (certamente ligeiras).

O caso encerrava um conjunto de características susceptíveis de fazer dele uma tragédia. Mas – reconheçamos – sendo uma tragédia para os que mais directamente o sentem, não o é, em si mesmo, do ponto de vista do seu significado público. Muitos outros casos, porventura mais trágicos e dramáticos do que este, não foram tratados do mesmo modo. Pelo contrário, terão sido, na maioria das situações, esquecidos. Este tornou-se uma tragédia porque, puxando por alguns ingredientes do caso (e nomeadamente o capital simbólico dos pais), as televisões fizeram dele uma tragédia. Em Entre-os-Rios, houve objectivamente, uma tragédia. Aqui parece ter havido, sobretudo, e objectivamente também, uma tragédia … mediática.

Enquanto tragédia mediática, e uma vez assim enunciada e representada, concordo que, como escreve ECT, não pode haver “meias tragédias” – ou se joga o jogo ou não se joga. E as televisões, umas mais do que outras, jogaram os seus trunfos.

Cintra Torres justifica, depois, o facto de as televisões terem passado horas a chover no molhado e a dizerem que não havia nada de novo para dizer, considerando, na esteira de Ésquilo, que isso é, precisamente, uma das características da tragédia, as quais teriam entretantando contaminado o jornalismo. E adianta que esta orientação do jornalismo televisivo, longe de ser uma deriva ou uma derrapagem, é, antes uma alternativa que só virá valorizar o jornalismo da imprensa. “O paradigna da informação televisiva generalista vai-se afastando irremediavelmente do jornalismo escrito. Querer que ela seja ainda como o jornalismo da imprensa é uma batalha perdida” – escreve o autor.

Resta saber se esse caminho que, segundo Eduardo Cintra Torres, estaria a ser trilhado pelas redacções das televisões generalistas ainda será jornalismo (e que jornalismo será).