A entrevista está a morrer?

Desde quase há um mês tem vindo a acontecer (sobretudo, mas não só) na blogosfera um interessante debate sobre se a entrevista, um dos géneros mais característicos do jornalismo, já deu ou não o que tinha a dar. Nele têm participado nomes cimeiros do jornalismo e dos bloggers.

A polémica foi desencadeada por Jeff Jarvis, do BuzzMachine, nos finais de Abril, com um post provocatoriamente intitulado The obsolete interview e este subtítulo: “The interview is outmoded and needs to be rethought”.

O jornalista e crítico de media Howard Kurtz prosseguiu com a discussão no Washington Post, resumindo a sua reflexão numa pergunta menos peremptória e mais dubitativa do que Jarvis: Interviews, Going the Way of the Linotype?

Uma das personalidades consultadas por Kurtz foi Jay Rosen, professor de Jornalismo na Universidade de Nova Iorque e blogger do PressThink. No post Howard Kurtz Sez: “The humble interview, the linchpin of journalism for centuries, is under assault.” conta a entrevista por mail que teve com Kurtz acerca … das entrevistas por email.

Já nos últimos dias, Mark Glaser desenvolveu, no MediaShift, a ideia de que No Matter the Format, Interviews Are Not Dying. Um dossier de que ficam aqui algumas das principais referências.

O ‘jornalismo’ da Praia da Luz

O jornalismo não pode “ignorar um fenómeno social destes”, considera o director de Informação da SIC, Alcides Vieira, em comentário ao facto de aquele canal ter sido o que mais tempo dedicou ao desaparecimento da criança inglesa no Algarve (mais de um terço do tempo emitido com informação entre os dias 3 e 20 deste mês, segundo a Marktest).

Mereceria todo um tratado a ideia que Alcides Vieira defende, em declarações ao Diário de Notícias, segundo a qual “o dever do jornalista às oito da noite é o de informar sobre o que aconteceu nesse dia, mesmo que não se passe nada”. Em tradução do DN: “a falta de notícia também é notícia”.

Dificilmente se percebe o que fazem nove profissionais do canal na zona do desaparecimento. Como não os estamos a ver a informar em 30 segundos que não há novidades, o mais provável é que ocupem antena, mas não façam jornalismo.

‘Portugal’ a mais?

Simon Jenkins escreveu há dias, no espaço ‘Comment is Free’ do Guardian, um texto polémico sobre a forma como o jornalismo britânico está a lidar com o desaparecimento da criança na Praia da Luz, aproveitando o exemplo para alargar a sua análise ao tópico mais genérico da responsabilidade social dos media.
Dizia Jenkins:

The coverage has been absurdly over the top and cannot have served the interests of the family, or the eventual cause of justice

…acrescentando que até mesmo a BBC se havia envolvido num frenesim:

Madeleine has become Maddy, an angel face in the clutches of a monster. (…)  No aspect of the case was left intact by invading armies of counsellors, paediatricians, psychologists, criminologists and trauma consultants. “Every parent’s nightmare” became the nation’s nightmare. Families closed their doors to the world, hugged their children close and cursed Portugal.

O caso, dizia Jenkins, era apenas mais um exemplo de uma Imprensa que se comporta de forma abusadora:

In this spirit I must constantly remind myself that the British media does not do responsibility. It does stories. And stories tell better when they are about individuals, not collectives. The media is unconcerned with what people like me find decorous or important. It kicks down doors and exposes the hidden corners of the human condition. It fights competition, plays dirty and disobeys the rules. There is nothing it finds too vulgar or too prurient for its wandering, penetrating lens.

No mesmo dia, Kevin Bakhurst, da BBC, defendia a postura da sua empresa com base em dois argumentos muito eficazes – a necessidade de manter informado o público sobre um assunto que claramente adquiriu proporções consideráveis e a aposta numa postura distante do rumor e da especulação.

Talvez fosse interessante trocar uma ou duas palavras sobre o que por cá se fez: como (e lembro-me de uma repórter da RTP absolutamente histérica no dia da detenção do Sr.Murat, usando e abusando de expressões condenatórias), porquê (e porquê tão mais neste caso do que em casos de crianças portuguesas?), e para quê?

O que procuram os portugueses na Net

A mais recente newsletter da Marktest publica alguns dados do Netpanel relativos aos termos mais procurados na Internet (base: portugueses de quatro e mais anos que navegam na Internet em suas casas). É interessante compará-los com os anos anteriores:
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Estrela Serrano debate pluralismo político-partidário

Estrela Serrano, do Conselho Regulador da ERC, participa quinta-feira, em Lisboa, num debate sobre a avaliação do pluralismo político-partidário na televisão pública. A iniciativa, que pertence ao Sindicato dos Jornalistas, realiza-se às 18 horas, na sede do SJ.
Estrela Serrano interveio activamente, na última semana, em defesa das orientações da ERC sobre a  avaliação do pluralismo político-partidário no serviço público de televisão, o qual foi objecto de contestação em diferentes sectores.

Os blogues e o jornalismo económico

Agora é assim: uma conferência em Atenas; duas investigadoras suecas apresentam uma comunicação e, provavelmente ainda antes dos que fisicamente se encontram no evento, já é possível conhecer e discutir as ideias das autoras. Trata-se, neste caso, de Blogging and Business Journalism: News Production in Transformation, de Maria Grafström e Karolina Windell, da Universidade de Uppsala e a comunicação foi apresentada  na 5th International Conference on Communication and Mass Media, que decorreu na capital da Grécia, ontem e hoje.

A ideia-conclusão:embora os jornalistas especializados em economia e negócios tomem os blogues como referência, mostram-se renitentes a citá-los como fontes noticiosas. E isto apesar de considerarem importante acompanhar o que neles se vai escrevendo e comentando.

(via: media culpa)

Nokia faz testes com TV digital móvel em Portugal

A ANACOM autorizou a Nokia a usar o espectro português para fazer testes utilizando a tecnologia DVB-H, que é a TV digital para recepção em terminais móveis. A autorização é válida para o período entre 18 e 25 de Maio.

Apesar da permissão para testes, a ANACOM deixa claro que:

 ”Desta autorização não resulta qualquer vínculo, obrigação ou condicionante à autorização posterior da ANACOM em relação à futura atribuição dos direitos de utilização de frequências reservadas, quer para a televisão digital terrestre, quer para a radiodifusão sonora digital terrestre, em Portugal.”

Jornalismo?

O “Correio da Manhã traz hoje, na página de TV e Media, a peça intitulada: “RTP: Correspondente nos Estados Unidos escolhido /Editor de política vai para Washington“. Passamos à abertura que refere:

“A RTP já escolheu o próximo correspondente na capital dos Estados Unidos, apurou o CM. O editor de política Vítor Gonçalves vai substituir em Washington o jornalista Pedro Bicudo, devendo passar a pasta a Maria Flor Pedroso, que desempenha as mesmas funções na Redacção da Antena 1, segundo admitem ao nosso jornal várias fontes da empresa pública”.

Começamos a leitura do corpo da ‘notícia’ e deparamos com a seguinte prosa (negrito da nossa responsabilidade):

“A esmagadora maioria dos jornalistas da RTP ainda não sabe que Vítor Gonçalves vai trabalhar para os Estados Unidos. Mas em alguns círculos da empresa existia, há alguns dias, a convicção de que o editor de política da estação seria o eleito e, por isso, projectava-se a sua sucessão. Muitas das fontes contactadas pelo nosso jornal lembram-se do mesmo nome – Maria Flor Pedroso. A jornalista desempenha as mesmas funções de Gonçalves, mas na rádio Antena 1. Com a fusão das redacções das rádios e da televisão do Estado, dizem as nossas fontes, ‘é óbvio que a administração recorrerá a Flor Pedroso para assumir a chefia da secção de política’. No entanto, outras fontes contactadas pelo nosso jornal asseguram que “a sucessão de Vítor Gonçalves ainda não foi equacionada”, mas referem que a possibilidade de ser a apresentadora do programa ‘As Escolhas de Marcelo”, na RTP 1, a eleita para tutelar a editoria faz todo o sentido (…)“.

Jornalismo. Jornalismo?

Quatro novos livros na Minerva

Entre hoje e o fim deste mês, a editora MinervaCoimbra lança no mercado quatro novos títulos da colecção de Comunicação, dirigida por Mário Mesquita (clicar em cada uma das imagens para ver os convites).

Duas notas sobre uma manchete

A propósito da peça-manchete do Público de hoje – “Quatro em cinco portugueses não querem mais tempo para estar com as famílias” – baseada em dados recentemente divulgados pelo INE sobre as características dos agregados familiares em Portugal, duas notas à margem:

– como se pode constatar pelos dados do INE relativamente à posse de TIC no lar (cf. quadro abaixo), não vai muito além de um terço a percentagem de famílias com ligação à Internet, no nosso país, ao contrário da ‘sensação’ que frequentemente fica dos discursos de quem tem voz no espaço público. Este é o lado meio vazio do copo. O meio cheio é que essa percentagem era, há cinco anos, de 15 porcento – menos de metade, portanto.

– será que o tópico que o Público escolheu para manchete tem alguma coisa a ver com o que se esconde por detrás de casos como aquele que o mesmo jornal ontem publicava e para o qual Felisbela Lopes aqui chamou oportunamente a atenção?

Posse computador e internet

Madie e Miguel

Miguel terá já ouvido falar muito de Madeleine, a menina que desapareceu na praia da Luz, mas Madie não conhece este menino de Rio Tinto. Nem ela, nem os milhões de pessoas que se compadecem pelo desaparecimento da menina inglesa. A história desta criança portuguesa é simples e, ao mesmo tempo, brutal: tem 12 anos, sofre de um cancro, fez sucessivos tratamentos de quimioterapia e radioterapia e agora não pode ir à escola. Porquê? Porque é alvo de violência física e psicológica por parte dos colegas. A sua debilidade motiva a troça permanente da turma. A história faz a manchete hoje do “Público”, num trabalho da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira.

Todos os esforços, todos os meios, todos os recursos poderão ser justificados na busca da pequena Maddie. Como na busca de outros desaparecidos. Basta clicar em http://www.policiajudiciaria.pt/htm/pessoas_desaparecidas/madeleine.htm para saber que outras pessoas carecem de auxílio. Pela minha parte, gostava que a onda de solidariedade para com a pequena menina inglesa se estendesse ao menino de Rio Tinto. Miguel precisa de ajuda para poder continuar a ir à escola sem correr o perigo de ser agredido pelos colegas. E nem é necessário fazer assim tanto esforço para resolver parte do seu sofrimento. Terá esta história poder para levar as entidades competentes a agir com rapidez e eficácia? Grave, pelo menos, é. E muito.

Morreu James Halloran

Faleceu James D. Halloran, a grande figura do Centre for Mass Communication Research da Universidade de Leicester, no Reino Unido e um nome-chave da investigação sobre os media na Europa e no plano internacional. A IAMCR – International Association of Media and Communication Research anunciou já que vai homenagear este que foi – durante 18 anos – um dos seus mais marcantes presidentes na conferência que decorrerá em Julho próximo, na sede da UNESCO, em Paris. UNESCO que foi a organização no quadro da qual Halloran realizou vãrios dos seus trabalhos mais marcantes.

E se me é permitida uma nota pessoal, foi com um livro de Halloran ( e Marsha Jones) que eu descobri, em 1987, a Educação para os Media. Encontrando-me então em Paris, de passagem pela UNESCO, alguém me sugeriu esse trabalho que a organização acabava de publicar e que traçava um panorama internacional do que se vinha fazendo no sentido de promover a formação de utilizadores críticos dos meios de comunicação. Desde o início me interessou a perspectiva de James Halloran: a defesa de uma abordagem multidisciplinar dos media e sempre ancorada nas relações sociais.

“Observatório”, nova revista do OberCom

Acaba de sair o Vol 1, No 1 (2007) da revista académica Observatorio, do OberCom, dirigida por Gustavo Cardoso.
O No 1 apresenta textos em português, inglês, italiano, espanhol e galego, destacando-se os seguintes artigos:

Um quarto do tempo já vai para a Internet

A notícia é dada hoje na newsletter da Meios & Publicidade, baseada no Estudo sobre Hábitos e Comportamentos dos Portugueses face ao Consumo de Meios, realizado pela Media Contacts: “O tempo dedicado pelos portugueses à internet tem vindo a crescer de uma forma significativa, sendo que, actualmente, (…)  já representa 25% do total de horas dedicadas ao consumo de meios”.

Outras conclusões do mesmo estudo:

– o crescimento do consumo da internet “deve-se, sobretudo, à transferência do consumo do offline para o online”, dado comprovado pelo facto de “cerca de 30% da amostra ter referido que passou a consumir rádio e jornais online”.

– A internet foi o único meio que “nos últimos três anos cresceu em utilizadores”, sendo já o segundo “meio mais utilizado em número de horas”, isto apesar de “ainda só recolher 1,5% do investimento publicitário”.

Breves

De MarK Glaser, no MediaShift:

E ainda, no Google Blog: