Do regime dos factos ao regime das emoções

A pretexto do post anterior, vale a pena recordar o terceiro seminário de Doutoramento em Estudos Jornalísticos que ontem se realizou na Universidade do Minho. Sob o signo da “sentimentalização das sociedades” ou da “mundialização dos afectos” (expressões caras a José Augusto Mourão), discutiu-se particularmente neste seminário a propensão dos media para reportar emoções, sobretudo quando parece não haver factos propriamente ditos. Recordaram-se a propósito vários acontecimentos em que os media insistentemente fizeram notícia com a dor (a queda da ponte de Entre-os-Rios, os atentados terroristas do novo milénio, o desaparecimento de Madeleine, inevitavelmente…). Sendo talvez certa a proposição de Mario Perniola segundo a qual vivemos hoje numa sociedade mais de índole sensológica do que ideológica, algumas interrogações são, no entanto, persisitentes:

– Até onde pode o jornalismo ir quando reporta a dor dos outros?
– Se calhar é de espectáculo que o público gosta, mas não será também por isso mesmo que o público rapidamente se cansa?
– Que matéria informativa contêm as emoções?
– Que relação tem este interesse jornalístico pelas emoções com o eventual reconhecimento de que o sensorial também é fonte de conhecimento?
– …
Abrimos o espaço a outras interrogações dos leitores deste blogue.

3 thoughts on “Do regime dos factos ao regime das emoções

  1. Só mais uma pergunta para estimular o debate fazendo aqui o papel de advogado contra a diabolização das emoções: será possível apurar e contextualizar os factos desprovido de qualquer tipo de emoção?

  2. Este tema da razão e da emoção nas práticas jornalísticas é, de facto, complexo. E o seu debate antigo…
    Ao ler o que aqui se disse, lembrei-me de uma pequena entrevista de Mário Mesquita ao “Diário de Notícias”, publicada já em 1998, e que costumo discutir com os alunos de jornalismo, quando este assunto vem à baila (a entrevista foi dada na sequência dos Cursos da Arrábida, que nesse ano escolheram precisamente, como tema central, a emoção nos ‘media’ portugueses). Dizia Mesquita:
    “Um postulado verificado ao longo de todo o colóquio foi que não é possível separar razão e emoção. Mas é possível combiná-las em diferentes proporções”.
    E noutro passo:
    “Não se nega a legitimidade de os jornalistas utilizarem os recursos retóricos de que dispõem, mas pode-se perguntar se não lhes deve ser pedido um certo recuo crítico”.
    E noutro:
    “Uma coisa é a ideia de uma narrativa que transporta consigo um lado emocional, que até pode ser de grande qualidade. Outra coisa é a manipulação dos receptores da informação, de forma intencional, visando objectivos comerciais. Penso que o sensacionalismo é isso”.
    Ou seja, tratar-se-ia menos de separar (ou opor) razão e emoção, e mais de as integrar e articular em justos termos, susceptíveis de ‘humanizar’ – logo, enriquecer – a capacidade comunicativa do jornalismo. Não há só duas maneiras de fazer, por exemplo, uma reportagem (REPORTAGEM, sublinho) sobre o caso Madeleine: ou de um jeito totalmente frio, descritivo, analítico, ou de modo exacerbadamente emotivo e “a puxar à lágrima”. Há, tem que haver, outras maneiras intermédias, com “recuo crítico”, sim, mas também com sensibilidade e atenção aos sentimentos implicados.
    E o exclusivo desta componente ‘sensível’ não pode ficar entregue apenas aos ‘media’ popularuchos e sensacionalistas, que fazem com ela o que sabemos que fazem. Os ‘media’ mais sérios, mais exigentes, também precisam de saber lidar com ela. Como, eis a questão!
    Mais umas achas para o debate…

  3. Não sendo da área da informação, deixo aqui a minha perspectiva vista do lado de quem trabalha o entretenimento.

    A emoção está na base da razão e vice-versa. Qualquer discurso contém em si mesmo uma dose de emoção, a neutralidade emocional não existe. Não podemos comunicar algo, sem emoção, ela faz parte do discurso humano e estará sempre presente, pelo menos, enquanto formos humanos. Um discurso jornalístico, é, na minha opinião, sempre uma narrativa, e desse modo, não se pode arrogar de imparcialidade total, como relatora de factos tout court. Se assim fosse, poderíamos substituir o jornalista por um pivot virtual de voz sintética, sem emocionalidade facial e sem prosódia na voz. Mas como sabemos, o resultado seria uma total incapacidade comunicativa. Aliás, os estudos, na fértil área das ciências afectivas, têm vindo a demonstrar que aprendemos e compreendemos melhor um evento ou um objecto quando este é emocional para nós. Quando este, nos marca emocionalmente, a nossa memória reage muito mais rapidamente e retêm a informação para utilização futura.

    Julgo que o que mais incomoda a área da informação é o facto de o jornalismo estar cada vez mais imbuído de técnicas do entretenimento. Alias o próprio Bill Kovacs referiu isso quando esteve na UM. E a meu ver, isso faz todo o sentido, o jornalismo apenas se socorre da linguagem que maior capacidade tem para chegar às pessoas. Mas porque o faz?

    Julgo que um dos problemas que contribuiu para este panorama, foi o exagero de informação a que assistimos nos últimos anos. Existe uma saturação total de informação, e as pessoas vão tornando-se, como seres humanos que são, cada vez menos sensíveis aos factos que se repetem, e repetem. As pessoas vão criando filtros que lhes permitem desligar e continuar a sua própria vida, a sua própria luta diária. Se assim não fosse, o que seria das pessoas que vivem em ambientes de hostilidade permanente como Bagdade ou a Faixa de Gaza. Desse modo, a indústria da informação, vê-se obrigada a emocionalizar cada vez mais essa informação para que as pessoas, parem, escutem e compreendam que o que se notícia, é importante.

    Aliás esta necessidade de emocionalizar o discurso não está patente apenas na informação, mas está também no entretenimento. Compare-se a emocionalidade narrativa de Psycho (1960) e Silence of the Lambs (1991) ou de The Towering Inferno (1974) e The Day After Tomorrow (2004). À medida que os espectadores vão compreendendo e interiorizando os discursos, estes são obrigados a inovar e a tornar-se cada vez mais “fortes” para continuarem a ser interessantes e manterem a atenção dos espectadores ao longo dos 90/120 minutos.

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