Do regime dos factos ao regime das emoções

A pretexto do post anterior, vale a pena recordar o terceiro seminário de Doutoramento em Estudos Jornalísticos que ontem se realizou na Universidade do Minho. Sob o signo da “sentimentalização das sociedades” ou da “mundialização dos afectos” (expressões caras a José Augusto Mourão), discutiu-se particularmente neste seminário a propensão dos media para reportar emoções, sobretudo quando parece não haver factos propriamente ditos. Recordaram-se a propósito vários acontecimentos em que os media insistentemente fizeram notícia com a dor (a queda da ponte de Entre-os-Rios, os atentados terroristas do novo milénio, o desaparecimento de Madeleine, inevitavelmente…). Sendo talvez certa a proposição de Mario Perniola segundo a qual vivemos hoje numa sociedade mais de índole sensológica do que ideológica, algumas interrogações são, no entanto, persisitentes:

– Até onde pode o jornalismo ir quando reporta a dor dos outros?
– Se calhar é de espectáculo que o público gosta, mas não será também por isso mesmo que o público rapidamente se cansa?
– Que matéria informativa contêm as emoções?
– Que relação tem este interesse jornalístico pelas emoções com o eventual reconhecimento de que o sensorial também é fonte de conhecimento?
– …
Abrimos o espaço a outras interrogações dos leitores deste blogue.

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‘Mea culpa’ agora… sobre o caso Madeleine

Depois do argumento “mesmo sem haver novidade, tem de haver notícia”, Fernanda Câncio introduz, no Diário de Notícias de hoje, vários outros argumentos para discussão sobre a cobertura mediática do desaparecimento de Madeleine, no Algarve: “nós fazemos, mas os outros também fazem; se nós não fizermos, haverá quem faça; e havendo quem faça, nós temos de fazer. Porque os media são um negócio”. E alude àquilo que perspicazmente chama “mecanismo”: primeiro faz-se, de forma escancarada e ad nauseam, o contrário do jornalismo, como aconteceu com a queda da ponte de Entre-os-Rios ou com o caso Casa Pia, e depois faz-se mea culpa.

A jornalista toca, depois, num ponto que é evidentemente fulcral: a necessidade  vital de termos um “público exigente”. Só que ele não nasce de geração espontânea nem “pega de estaca”. E nesse processo é aos próprios media que também cabe um papel, queiram ou não assumi-lo.

De qualquer modo, creio que esta vertigem louca e desenfreada que se apodera dos media em ocasiões assim pode salvar o “negócio”, mas desacredita o jornalismo e é, a prazo, contrária aos interesses dos media. Pelo menos daqueles  – e creio que os há – para quem o jornalismo é mais do que um produto para encher os olhos e a barriga dos velhos e novos proletários.

“É quando o jornalismo está a morrer que precisamos dos jornalistas”, observa Fernanda Câncio. E eu subscrevo.