As ‘minhas’ fontes

Na sua mais recente crónica, o Provedor do Diário de Notícias, José Carlos Abrantes, a propósito de uma dúvida de um leitor sobre o uso de fontes anónimas (e depois de ouvida a jornalista em causa), diz o seguinte:

O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal.

Não imagino que se pudesse dizer isto de forma mais clara.
E lembrei-me de convocar o parágrafo depois de ter lido um post de Antonio Delgado, um auto-proclamado (e famoso) ‘heavy blogger’ espanhol em que apresenta um intrigante gráfico com aquelas que são as suas fontes.

A distância que vai da forma como um jornalista pode (ainda hoje) pensar nos seus leitores à forma como alguns desses leitores valorizam o trabalho jornalístico não deixa de ser preocupante.

Carga policial em Lisboa: factos e enquadramentos

Sobre os incidentes entre polícia e manifestantes, anteontem ao fim do dia, no Chiado, o Público titula a toda a largura da página 12 que “Bastonadas sobre manifestantes em Lisboa reabrem polémica sobre violência policial”. E acrescenta no ‘lead’: “Manifestantes acusam autoridades de ‘abuso de força’. A PSP rejeita acusação e fala de ‘vandalismo e agressões’. Houve sete feridos, cinco dos quais agentes policiais”.

O enquadramento da notícia está feito de molde a perceber-se que é à polícia que cabe dar explicações sobre o sucedido. Do ponto de vista da apreciação equilibrada e justa daquilo que se passou, julgo que não basta reduzir o problema a uma disputa entre polícia e manifestantes. Se há acusações de ‘vandalismo e agressões’, não caberia ao jornal investigar um pouco e procurar ouvir eventuais testemunhas ou vítimas?

Lendo a peça sobre o mesmo assunto publicada pelo Jornal de Notícias fica a ideia de que o trabalho não ficou, de facto, completo.