Blog, coisa vil!

A propósito do aparecimento da palavra blogosfera na boca de tanta gente, nos últimos dias, Pacheco Pereira escreveu o seguinte:

À luz dos recentes acontecimentos, a blogosfera emergiu como parte do processo político pela primeira vez de forma plena. De modo duplo: como local mal frequentado e como centro de vitalidade. Quem vê um sem o outro, engana-se. É como Deadwood, malfeitorias inomináveis, invejas, mesquinhices, ressentimentos, facadas nas esquinas dos comentários, gente vil na sombra do anonimato, mas, ao mesmo tempo, esta lei da selva, altamente competitiva introduz vitalidade, força, vis, numa sociedade amorfa, complacente e muito pouco dinâmica. O balanço do futuro dirá qual dos modos prevalece.

Concordo.
Mas o facto é que ‘quem vê um sem o outro’ tem tido, nos últimos tempos, espaço suficiente para fazer passar essa visão de forma quase incontestada.
‘Quem vê um sem o outro’ tem feito por direccionar a nossa atenção para os ‘exemplos’, todos eles, alegadamente, muito mentirosos.
Que a blogosfera não é jornalismo é um facto; que muito do que nela se escreve pode ser fruto de intencionalidades não expressas é igualmente verdade (e quem por aqui deambula há mais de 20 dias sabe isso muito bem).
Mas não pode ser a blogosfera – sobretudo quando apresentada assim, como uma massa uniforme – a responsável por eventuais utilizações profissionalmente descuidadas do que nela se diz.

A ideia de que a blogosfera é um espaço onde predomina a maledicência, onde se juntam uns anónimos com interesses desconhecidos para levantar falsos testemunhos é uma falácia que parte, também ela, da mistura de um conjunto de intencionalidades não expressas.
Quando um jornalista, ou um político, ou um académico usa no seu trabalho informações reveladas por fontes (seja por telefone, presencialmente, em papel…ou num blog) sem qualquer mecanismo de validação corre um risco e deve assumir as consequências desse procedimento.
A culpa, quando as coisas correm mal, não pode ser da fonte onde (de forma incorrecta) foi buscar essa informação. A fonte terá, naturalmente, a sua responsabilidade própria – que pode ter implicações éticas ou até criminais já suficientemente cobertas pela lei que existe – mas não pode ter também a culpa de transpor para um registo social e historicamente mais credível informação não verificada.
Ora acho que muito do que se tem dito nos últimos tempos sobre os blogs anda neste sentido da apreciação boçal, depreciativa e culpabilizadora por (quase) todos os males da sociedade portuguesa.
Fê-lo o Procurador Geral da República há algumas semanas, fê-lo, anteontem, o primeiro-ministro e fizeram-no, também, alguns comentadores na avaliação do ‘caso’.
A blogosfera é tanto ou tão pouco como o que há para além dela.
Tem as virtudes e as fraquezas que identificamos todos os dias na rua.
Não tem mais nem tem menos.
Jornalistas, políticos e académicos precisam de saber lidar com isso assim como é.

3 thoughts on “Blog, coisa vil!

  1. Pingback: Retorta.net · Blogues - Blog, coisa vil!

  2. Completamente de acordo! Estigmatizar a blogosfera lato sensu só pode ser feito por quem desconhece o fenómeno na sua globalidade ou então se serve da expressão como bode expiatório de interesses não explicitados.

  3. Vá lá saber-se porquê, continua a insistência na blogosfera como uma alternativa à informação jornalística. Não o é. A blogosfera é metajornalística, tem o seu espaço ocupado por tudo o que pode aparecer nos jornais e, sobretudo, pelo que não pode. Vai “ao infinito e mais além”.
    A estigma do “bando de más-línguas” e da fraca qualidade generalizada é ditada pelos que, não sabendo ou querendo desvalorizar o que sabem, querem fabricar o descrédito deste meio de comunicação. É que, embora possam aparecer muitas “patacoadas” pelo meio, a blogosfera é um bom termómetro de opinião. Vox populi, vox dei.
    E depois, porque é que políticos, instituições… e jornalistas, todos vêm cá parar?

Os comentários estão fechados.