O ‘caso Sócrates’ e o jornalismo

José Sócrates deverá aproveitar a oportunidade que lhe dá amanhã a RTP para se pronunciar sobre o ‘caso’ da errada apresentação pública das suas habilitações académicas.
Independentemente das questões de essência em termos políticos – porque tinha o CV do primeiro-ministro na página oficial do Governo tantas imprecisões? porque não foram elas corrigidas de uma só vez? porque foi necessário envolver na resposta dois ministros sendo que um deles (Mariano Gago) o fez – na forma e no lugar – de jeito tal que abre a porta a ainda mais elaboradas interpretações sobre a ligação entre este assunto e o encerramento da Universidade Independente? – há também questões de essência em termos jornalísticos que importaria assinalar:
– o que diz do nosso jornalismo político o facto de que foram precisos mais de dois anos para dar início a uma investigação com base em pistas com óbvio interesse público?
– o que diz do nosso jornalismo o facto de que, uma vez desenvolvida essa investigação, em nenhum dos trabalhos inicialmente publicados – quer no Público quer no Expresso – surge uma referência clara ao blog que lhe deu origem?
– o que diz do debate sobre o relacionamento entre fontes institucionais e jornalistas a surpresa com que foram recebidas afirmações em torno de ‘telefonemas frequentes’ e ‘conversas personalizadas’?

O ‘caso’ das habilitações académicas de José Sócrates – mesmo descontando o que o próprio sobre isso dirá amanhã e o que, naturalmente, depois se seguirá – ajuda a confirmar, desde logo, uma imagem de um jornalismo nacional que vive em esforço e que, consumindo parte substancial desse esforço no acompanhamento da agenda institucional, se vê envolvido numa potencialmente desequilibrada relação com as fontes.

Fotos: site da UnI e Edição 1701 do Jornal Expresso

6 thoughts on “O ‘caso Sócrates’ e o jornalismo

  1. Não conseguia deixar de pensar que o caso da licenciatura de Sócrates merecia uma análise em termos de estudos mediáticos. Por isso, foi com grande satisfação que li esta análise de Luís Santos, com a qual concordo totalmente. Na minha opinião, para bem do jornalismo, a cobertura mediática dp caso “Sócrates” deverá ser estudada, debatida e analisada nas salas de aulas onde se formam os futuros jornalistas.

  2. … E aqui está como num simples “post” o Luís Santos consegue colocar as questões que considero essenciais, as que interpelam o verdadeiro papel do Jornalismo que fazemos. Repare-se num detalhe: como a “altamente profissionalizada” máquina de informação do Gabinete do Primeiro Ministro, tão elogiada pela eficácia na forma como tem conduzido o “agenda-setting” nacional, tremeu visivelmente perante uma simples investigação jornalística… que teve a qualidade de, em geral, ter sido, “apenas”, bem feita. Numa altura em que nos interrogamos acerca dos “caminhos de fuga” de um Jornalismo cercado pela Comunicação institucional altamente profissionalizada, por um lado, e pela pressão participativa dos cidadãos nas agendas mediáticas, por outro, aqui está uma interessante prova de diferenciação… e de que o Jornalismo terá sempre oxigénio para respirar. Só é preciso que continuemos, insistentemente, a saír do “casulo”… das Redacções constrangidas pelo tempo e espaço de investigação, e do bem mais constrangedor “colete-de-forças” económico que, a ser magnânimo, pode tolher qualquer hipótese de sobrevivência da investigação jornalística.

  3. Não percebi o “tantas imprecisões no CV de José Socrates”. Tanto quanto sei a única “imprecisão” é a menção de “engenheiro” em vez de “licenciado em engenharia”, um detalhe só relevante para o lobby das ordens.

  4. Uma nota apenas para justificar o ‘tantas imprecisões’:

    1. Referência imprecisa ao primeiro grau académico;

    2. Referência imprecisa a uma acção de formação;

    3. Referência imprecisa à frequência de um mestrado.

    Três já justificam o plural.
    O ‘tantas’ é, naturalmente, subjectivo.
    Poderiam ser ‘algumas’ ou ‘várias’…ou até mesmo ‘poucas’!

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