Vivam as imagens

O novo Público vai já no seu segundo dia. Mantenho a apreciação inicial que fiz (aqui e aqui) – é um produto mais dinâmico, mais vibrante e muito mais contemporâneo.
Parte da promessa está cumprida.
Falta ainda a outra parte.
A do jornal mais próximo, mais atento, mais ‘em cima’ dos acontecimentos, mais em contacto com as pessoas (de que se fala tanto nas promoções).
E se tomarmos por exemplo a notícia de maior impacto no fim de dia de ontem – o acidente ferroviário na Linha do Tua – percebemos que há ainda uma estrada a fazer.
A apreciação vale, naturalmente, para a maioria dos diários nacionais pagos.
Como se pode ver pela ilustração, só o Jornal de Notícias nos dá a imagem que nenhuma televisão tinha conseguido dar (pelo menos até à hora de descanso para a maioria de nós).
E, nesse sentido, só o Jornal de Notícias nos dá, na primeira página, a notícia nova.
O Público, o DN, o 24 Horas e o Correiro da Manhã optaram por pequenas chamadas (no caso do CM, uma linha só). O Público remete-nos para um texto onde se salienta o facto de o acidente ter acontecido num local inóspito. Mas nada disso é novo para quem viu TV ontem à noite.
Fazer dos abalos sentidos no sul do país – que aconteceram de manhã e que ocuparam à exaustão o dia informativo de rádios e televisões – a principal manchete gráfica do dia seguinte (como fazem DN e CM) é cimentar a crescente fragilidade dos jornais.
Se excluirmos os trabalhos resultantes de investigação autónoma, serão tendencialmente cada vez menos as situações em que os jornais podem ser os primeiros a dar notícias.
Mas, nessas situações, é vital que sejam – a bem da percepção que todos vamos tendo da sua utilidade.

Fim à vista do velho conceito de ‘quotidiano’

(…) O que não falta, de resto, é gente a apontar o dedo aos alegados vícios de que enferma a imprensa e que estariam a impedir a sua recuperação. É o mau jornalismo, diz-se; é a total dependência das fontes, sugere-se; é a falta de independência ou de qualidade dos articulistas, acusa-se. Como se, extirpados esses e outros males que toda a gente parece agora ver na imprensa, ela pudesse voltar de novo aos míticos anos de expansão e influência… Não haja, contudo, ilusões: o número de leitores tem vindo a descer, consistentemente, desde há quase uma década! Segundo os entendidos, os principais jornais, em todo o mundo, perdem dinheiro de segunda a quinta-feira. Não é, portanto, difícil de prever que, dentro em pouco, eles estarão a fazer edições em papel só ao fim-de-semana. E, no dia em que a rigidez dos ecrãs de computador for ultrapassada, o que parece estar para breve, e começarmos a dispor de informação em suporte manipulável como é o papel e actualizada ao segundo, o velho conceito de “quotidiano” ficará sem sentido.

Diogo Pires Aurélio, in História do futuro, no Diário de Notícias.