Reportagem “Rosa Brava” lidera audiências

Não foi uma reportagem qualquer. Poder-se-ia dizer que teve ampla promoção em antena e que aproveitou a confortável boleia de “Ainda há pastores” de Jorge Pelicano. No entanto, “Rosa Brava”, que a SIC exibiu domingo à noite em “Reportagem SIC”, foi um trabalho jornalístico de grande qualidade: bom texto, excelente montagem e, por entre as falas dos intervenientes, sentiu-se sempre um repórter que, no terreno, se movimentava de forma distinta: sem se impor (sem se mostrar na imagem), Pedro Coelho pôs as pessoas a falar como se ele e o repórter de imagem não estivessem lá. Não é fácil e, por isso, o seu trabalho é distinto. As audiências ficaram presas à reportagem. Segundo escreve hoje o “Jornal de Notícias”, o programa alcançou 18.5% de audiência média, sendo “o mais visto do ano em toda a televisão portuguesa e o mais visto da SIC desde o Mundial de Futebol do Verão passado. Destronou o primeiro lugar do jogo da Taça de Portugal entre o Benfica/União de Leiria”. Estes dados impõem estas interrogações: se a informação semanal rende audiências, porquê continuar a apostar em novelas de má qualidade? Se a informação semanal atrai interesse público e interesse do público, não é tempo de terminar com grelhas monotemáticas ao serão? É claro que grande parte do mérito destes números se deve aos autores de “Rosa Brava”, particularmente a Pedro Coelho, um dos melhores repórteres da TV portuguesa. No entanto, este poderia ser o tempo de a SIC voltar a rentabilizar os seus trunfos ao nível da informação.

9 thoughts on “Reportagem “Rosa Brava” lidera audiências

  1. Concordo, Felisbela! Há que apostar na diversidade, o que inclui, mais programas de informação no horário nobre… Em vez das maratonas de telenovelas, há vários tipos de programas ligados à informação que poderiam ser colocados no ar: reportagens, documentários, debates, talk-shows, etc. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, julgo que estes programas não têm que ser aborrecidos e monótonos: podem e devem ser entretenimento (sem perder o seu cariz informativo).

  2. Não deixa de ser curioso que formatos de grande reportagem ou aparentados estejam a ser “filões” de audiência a explorar pelas televisões (o “Reportagem SIC” tem na RTP o correspondente “Em Reportagem”). Há, no entanto, um perigo: o abastardamento e o nivelamento por baixo. Porque o trabalho de grande reportagem exige um nível de maturação dos temas e um comprometimento das equipas de reportagem que vão bem além do tempo normalmente permitido para a execução e das condições que lhes são dadas actualmente pelas “máquinas” das redacções, claramente formatadas para a produção do dia-a-dia (e que geram por isso pressões sobre os diversos factores da produção jornalística).
    Porque é que notamos existirem trabalhos de excepção? Pelos exactos motivos enunciados neste “post” e por um motivo essencial: a grande reportagem só se faz com verdadeiros grandes repórteres. Nem todos o são. Neste trabalho houve tempo, tempo conquistado pelos repórteres, tempo usado a favor do aprofundamento. Quando assim é, há reportagem, quando assim não é temos os meros sucedâneos com que, infelizmente, em geral temos sido presenteados e que nivelam por baixo o género mais nobre do jornalismo (em especial a sua actual tradução televisiva).

  3. Adorei a reportagem. É raro ver em televisão (ainda por cima em hórario nobre) a vida do país fora das grandes cidades. A Serra da Estrela só aparece por causa da neve ou po problemas ambientais. Gosto de ver rostos, pessoas…Pedro Coelho é um repórter extraordinário com uma sensibilidade e a que felizmente já nos habituou.

  4. Pedro Coelho é um quase-poeta, um malabarista das palavras. E as reportagens da SIC, inspiradas no documentário de Jorge Pelicano, têm encantado multidões, não só pela “estória” mas também pela paisagem da Serra da Estrela.
    No meio de tanto verde deslumbramento, de tantos silêncios e encantos, a imagem ofusca a linguagem floreada mas altamente preconceituosa.
    A descrição da vida dos pastores – daqueles pastores – cria os mais inenarráveis juízos sobre os protagonistas.
    Para quem não sabe, ainda há pastores na Serra, mas são poucos, muito poucos, os que vivem naquelas condições.
    O que a linguagem faz crer é que os que moram na Serra da Estrela são gente imberbe, que mora para trás do sol posto, que usam uma linguagem estranha que mal se entende, impressionantemente inculta, vivem entrevados entre a pobreza e a miséria. Sem educação, enclausurados na concha das montanhas, de onde recusam sair. Enfim, uma espécie de gente em vias de extinção, como os bichos.
    A outra perversão é a «viagem» que se faz ao lado menos violentado da Serra da Estrela (o que não tem pistas de ski, florestas ardidas e lixo).
    Os repórteres adoçam o texto com adjectivos e expressões de uma perversão medonha, como se o lado menos visitado da Serra fosse um lugar estranho, inóspito, inexplorado, só acessível por jipe ou helicóptero.
    Pois é, parece que os caminhos para os lados de Gouveia são caminhos de cabras lamacentos. E chegar lá é uma aventura acessível só para quem dispóe de viaturas todo-terreno. Mas não. Há auto-estradas que ligam à Serra em poucos minutos.
    Para finalizar: colocar no ar um “vá para a **** que a há-de parir” clarinho, fazendo referência a uma funcionária do Estado, às nove da noite de um sábado… Ainda há comentários?
    Tudo isto me faz pensar que somos um país que se obriga a esquecer o que foi, que se arma em novo-rico, que gosta de pensar que é urbano e moderno, mas que infelizmente nunca perdeu aquela tez rural, cinzenta e parola.

  5. Fui das que ficou presa por minutos à SIC a ver a reportagem e, passado 24 horas, ainda pensava na jovem adolescente. Sem dúvida que a reportagem está bem conseguida, mas para ter a cereja em cima do bolo falta conseguir que a Rosa continue a estudar. Sim, o jornalismo deve ser cada vez mais encarado como uma causa social.

  6. Acho que a reportagem faz parte do imaginário colectivo português. É épico, é saudosista, é sobre os costumes, é em definitiva parte do imaginário, do dia-a-dia. A distancia espacio-temporal que a televisão em geral contrapõe com a realidade nesta reportagem esta esquecida..o retorno ao campo, a esse passado que esta tão perto mas tão longe, a esse Portugal “Moderno”, sem ser “Contemporâneo” que continuamente se contrapõe com o Portugal “Pos-modermo”, mas que existe e cohabita em todos os espaços, sejam lugares ou não lugares.

    Sei lá, vou pensar melhor, mas acho que “A Rosa Brava” é um índice importante de quais são os interesses dos telespectadores e como o jornalismo muitas vezes não percebe quais são os imaginários, os conceitos e as necessidades das pessoas.

    Para finalizar, a Rosa é o exemplo da luta, da vida triste e do desejo de mudar qualquer coisa, nisso o jornalismo esta tão perto do “melodrama”, uma espécie de catarses, uma espécie de tragedia grega “pos-moderna” que é estabelecida quando ela diz “quero casar para sair de cá”.

    Pensem nisso, a Rosa dava uma novela, e neste mundo, o melodrama não esta muito longe do jornalismo, de facto, nós jornalistas, construímos a realidade, e essa não é sem imparcialidade…Já agora, nós mostramos a realidade???? Ou a construímos??? Se a construímos, então a Rosa de-constrói o nosso imaginário.

    Bom, só comentários de alguém que há anos tenta estudar estes fenómenos….parabéns e bom trabalho.

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