Mário Mesquita deixa o ‘Público’ e José Manuel Fernandes comenta

Mário Mesquita (MM) anuncia o fim da sua coluna no Público dos domingos, onde se mantinha desde 1998 (já fizera parte da equipa de colunistas, mas nos primeiros anos de vida do jornal).

Acho bem que as equipas de colunistas se refresquem, que se dê lugar a novas caras, novas perspectivas, novas linguagens. Mas neste caso,as versões de um lado e de outro têm ‘nuances’ que vale a pena considerar.

Escreve Mário Mesquita:

“O director deste jornal, José Manuel Fernandes, manifestou-me esta semana as suas dúvidas acerca da compatibilidade entre as funções de membro do Conselho Executivo da Fundação Luso-Americana, que vou assumir em breve, e a condição de colunista do PÚBLICO. Do meu ponto de vista, não me parece haver qualquer incompatibilidade no plano ético ou jurídico. Existem, felizmente, nos jornais portugueses, colunistas que desempenham funções políticas, partidárias, religiosas, associativas, empresariais e outras, o que só contribui – presumo – para assegurar o pluralismo e a diversidade no espaço público. O próprio Presidente do Conselho Executivo da FLAD é colunista regular do Diário de Notícias. Permiti-me mesmo ironizar, dizendo qualquer coisa como isto: “Por acaso, até me parece que V. é mais pró-americano do que eu…”. José Manuel Fernandes comunicou-me que tencionava consultar o Conselho de Redacção sobre o assunto. Não sei se já teve ocasião de o fazer. Em todo o caso, após alguma meditação, decidi solicitar, desde já, a rescisão do contrato que me liga ao PÚBLICO até Dezembro do corrente ano. Não por considerar que exista incompatibilidade ou conflito de interesses, mas por deduzir que o director do PÚBLICO considera inconveniente a minha colaboração no jornal. E isso é quanto me basta: não gostaria de continuar a escrever num jornal onde a minha presença não é desejada”.

Solicitei a José Manuel Fernandes um comentário a esta declaração. Eis a resposta:

“O parecer do CR foi positivo.
O ponto central é a margem de liberdade do colunista, ponto onde MM reconheceu que haveria áreas sobre as quais não escreveria. Também se colocava a questão da periocidade e do pagamento por coluna, pois MM era um dos dois colunistas com contrato escrito e o terceiro mais caro. Nesse quadro coloquei-lhe o problema, ouvi a sua intenção de querer continuar a escrever, informei-o que teria reunião com o CR e disse-lhe que os colunistas com ligações partidárias tb sairiam (PRangel, Queiró, Teixeira Lopes, Vitor Dias). Não era o caso dele, mas de uma ligação institucional que, como ele reconheceu, o limitaria. Esperava ter podido falar com ele antes da despedida, dia 11, mas ontem estive incontactável e hoje fui surpreendido pelo teor do seu texto.”

Actualização:

Gabriel Silva pergunta, no Blasfémias:

“(…) Que [José Manuel Fernandes] seja livre de escolher os colunistas que entender e de os dispensar quando achar por bem, estar-se-á obviamente de acordo. Mas socorrer-se daquele tipo de «pretexto»? Como é «incompatibilidade»? Pode explicar melhor?”

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8 thoughts on “Mário Mesquita deixa o ‘Público’ e José Manuel Fernandes comenta

  1. Excelente post, antes de mais.
    Não seria possível renogociar o contrato com o MM, devido, nada mais, à sua importância intelectual e posicionamento dentro do jornal (do próprio jornal perante os seus leitores)? E falo de renegociar o contrato porque isso seria suficiente para mudar periodicidade e pagamento…
    A comparação com os outros escribas parece-me maldosa, sobretudo porque JMF se apressa a escrever que “não era o caso dele”… Se não era o caso dele por que é que citou?

  2. Isto está tudo muito civilizado, não haja dúvida. Começou logo com o argumento usado junto de Mário Mesquita. E completa-se agora ficando quatro colunistas do Público a saber através de declarações de JMF a este blog que os seus contratos vão cessar.

    É sobretudo um imenso cinismo e preconceito que continua ! Queiró, Rangel, Teixeira Lopes e Vítor Dias não podem continuar colunistas porque tem ligações partidárias, um verdadeito crime 33 anos depois do 25 de Abril e uma autêntica «capitis diminutio» ! Mas certamente a medida não abrangerá Vital Moreira que, não sendo filiado no PS, de há dois a esta parte está transformado no colunista mais prosélito do Governo e do PS.

    Pode acontecer é que no «Público» ainda não tenham percebido que há segmentos de mercado que gostam de ler colunistas que escrevem as coisas que esses segmentos pensam e sentem.

  3. Eu não quero acreditar que essa lengalenga tenha sido escrita pelo JMF. Não gosto muito dele, mas costuma argumentar bem. Esse naco de texto não tem pés nem cabeça. A denúncia sobre o facto do MM ser dos mais bem pagos cheira a estalinismo. O facto de não aparecer na lista o Pacheco Pereira é perfeitamente incompreensível. O facto de alguém pertencer a um partido ser factor de incompatibilidade para escrever não tem sequer comentário. Enfim…..se o texto é do JMF, os Azevedos terão de começar a pensar num Director a sério para o jornal. O problema é que pelo que vejo na concorrência……a começar pelos Semanários mais badalados…..não deve ser tarefa fácil.

  4. O argumento de JMF não pega. A “estória” está mesmo mal contada.
    Mário Mesquita era, talvez, dos colunistas mais interessantes, dentro desse grupo de gente com «cartão de militante» ou um cargo público. Por isso mesmo, mais confuso se torna todo este caso.
    Convencia-me mais – e até concordaria – com a entrega de convites de saída a certos «intelectuais» que trabalham não só para o Público, mas que também dão uma «mãozinha» regularmente a outros “media”, caso de Pacheco Pereira e Vital Moreira no Rádio Clube Português.
    Um jornal de referência deve ter boa opinião, colunistas de referência, e isso, em primeiro lugar, deve ser pago. Porque é, por si um investimento do jornal em inteligência e intelecto; depois porque a influência dos «opinion makers» também vende, e como tal deve procurar ser exclusiva de um só meio de comunicação. A meu ver.
    Aliás, já é altura de mudar de «influentes». A estes, já os conheço há mais de 20 anos.

  5. Vasco Morais disse: “Mas certamente a medida não abrangerá Vital Moreira que, não sendo filiado no PS, de há dois a esta parte está transformado no colunista mais prosélito do Governo e do PS.”
    Bem visto.

  6. não tenho nada a dizer sobre os negócios do Público. e muito menos sobre os seus custos, proveitos e benefícios. a única coisa que teria a dizer seria enquanto leitor do público mas já nem isso sei se sou. o senhor Fernandes tem vindo a fazer tudo para degradar a minha relação com o jornal. e a saída de M.M. – e os motivos apontados- é mais uma achega para a hesitação diante da banca de jornais.

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