Blogger entra para o “renovado ‘Público'”

João Pedro Pereira, do Engrenagem, dá a novidade no seu próprio blogue:

Depois de muito difìcil escolha, sobre a qual não me alongo, optei pelo desafio de integrar a equipa do renovado Público.

Não o dizendo, sugere que irá trabalhar ligado à área em que se destacou no blogue: Media e Tecnologia, visto que salienta:

Sem poder adiantar muito, a natureza do projecto implicará alterações ao conteúdo deste blogue. Assim, estou a pensar em algumas pequenas mudanças na linha editorial do Engrenagem.

‘Discussão’ no You Tube

Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Louçã envolveram-se numa troca de argumentos a propósito do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
Nada de muito original, não fosse dar-se o caso de – pela primeira vez – a ‘conversa’ (monólogos intercalados) estar a acontecer em formato video não mediado por um canal de televisão.

Marcelo responde a uma pergunta de Francisco Louçã

Francisco Louçã responde à mensagem video de Marcelo

Depois da Webcameron, de Segolene Royale, de Cavaco Silva e do pré-anúncio de candidatura de Hillary Clinton (para citar apenas alguns exemplos) nos terem mostrado o apetite dos políticos pela auto-edição (pretensamente) amadora é agora a vez de assistirmos a uma troca de argumentos…quem sabe o que isto pode vir a antecipar (se pensarmos nas hipóteses que parecem querer abrir-se com projectos como o Joost).

Riszard Kapuscinski no éter e no papel

Sobre Riszard Kapuscinski (1932-2007), ouvir uma excelente síntese, a partir de uma revista de imprensa feita por Sena Santos, no seu blog-podcast.

Sobre a mesma figura, escreve o Público: Morreu o repórter completo .

ACT.: O Portal de la Comunicación da Universidade Autónoma de Barcelona acaba de disponibilizar um In Memoriam que inclui uma série de documentos de e sobre Kapuscinski.

“Fact checking”

Lead de notícia do JN, intitulada Cardeal contra “acto egoísta”:

“O cardeal-patriarca de Lisboa considerou, ontem, que abortar é uma atitude egoísta de quem não quer enfrentar as dificuldades de criar um filho e que uma lei que facilite o aborto é “uma tentação acrescida” para a mulher”.

Texto da mensagem do patriarca de Lisboa:

“A dificuldade de uma maternidade não desejada pode ser a primeira dificuldade a ser ultrapassada pela mulher-mãe. As motivações do aborto não estão cientificamente estudadas. Elas vão desde a atitude egoísta de quem não está disposto a abraçar as dificuldades de criar um filho, ao medo dessas dificuldades, à pressão exercida, tantas vezes pelo pai da criança e pelo ambiente que rodeia a mulher”.

Sobre o escrutínio do jornalismo…

Muito haverá a dizer a propósito do texto “Sobre o escrutínio do jornalismo na blogosfera e não só” de Paulo Querido, publicado há dois dias no Observatório de Imprensa. Não farei a análise detalhada que alguns comentários acrescentados ao texto já foram ensaiando, mas gostava de anotar alguns aspectos que poderão ser acrescentados a um debate sobre a possibilidade de escrutinar o jornalismo:

  • é estranhíssimo que Paulo Querido se refira à censura como um modo de escrutínio. A ideia de escrutínio está ligada à necessidade de legitimação social do jornalismo. Não tenho nenhuma ideia que a censura, que significa opressão, seja um modo de legitimação. Por outro lado, as “instâncias próprias” de escrutínio a que se refere são instâncias de regulação que fazem sobretudo uma “vigilância” da ética jornalística. Mas a ética não é o único ponto de vista pelo qual o jornalismo deve ser escrutinado.
  • apesar de não ser a questão essencial, é verdade que os jornalistas não “simpatizam” (o que se compreende) com a crítica das suas performances. Repare-se, por exemplo, nas respostas que jornalistas do Público deram recentemente ao Provedor (no caso Miguel Sousa Tavares e no mais recente episódio de plágio);
  • é verdade que, desde sempre, o jornalismo e os jornalistas estiveram de alguma maneira sujeitos a um escrutínio. A literatura teve nisso um papel muito importante (se Diderot considerava que o jornalismo era o pasto dos ignorantes, Gustav Freytag, por exemplo, satiriziva o facto de os jornalistas se prestarem a escrever de acordo com as conveniências, servindo interesses económicos e políticos);
  • mas é igualmente verdade que, sendo válida enquanto actualidade, só nesse momento [na actualidade] a informação jornalística pode ser esclarecida, como sugeria Walter Benjamin (em “O Narrador”). Daí que seja da mais salutar importância não só a crítica em colunas de opinião e em blogues como o exercício de reflexão a que podem prestar-se as práticas metajornalísticas;
  • finalmente, a este imperativo de imputabilidade de responsabilidades e concomitante prestação de contas (que os anglo-saxónicos denominam “accountability”) deu especial fôlego a blogosfera que é um modo inteiramente novo de reagir à forma como o jornalismo e os jornalistas se ocupam do quotidiano. Salvo as excepções maliciosas a que se refere Paulo Querido, a participação dos cidadãos no debate sobre o que o jornalismo pode ou deve ser só pode ser o mais desejável.

Como ensinar jornalismo

Doug Fisher, no seu Common Sense Journalism, escreveu há dias uma reflexão pertinente sobre ‘como ensinar jornalismo?’.
O post surgiu depois de ter lido um texto com uma auto-admissão de ‘escrita criativa’ por parte de uma estudante numa das mais importantes escolas do Canadá. Em “Confessions of a teenage fabulist“, alguém que assina ‘Kate Jackson’ descreve em detalhe como enganou sucessivos professores com trabalhos totalmente inventados.
Excerto:

I was inordinately pleased. Professional journalism’s tone and style, the rules of story construction, the criteria of newsworthiness—all these could be fulfilled without leaving my room or interviewing anyone. No need for a thousand monkeys at a thousand typewriters. News isn’t Shakespeare: it practically writes itself.
(…)
Inventing news is remarkably easy. “It’s not a lie, it’s a gift for fiction,” William H. Macy’s character Walt Price says in the film State and Main, when accused of lying to impressionable, trusting country folk. Lying will always be a tempting option for practicing journalists.

O texto será, naturalmente, também de validade não verificada, mas o universo a que alude é real.
E é isso que parece mais importante sublinhar.
Estaremos nós também, em Portugal, a ensinar bem Jornalismo?
E o que será isso de ‘ensinar bem’?

Sem verdade não há jornalismo

«A comunicação jornalística não pode ser mais que a transmissão de uma experiência que se considera verdade; sem essa experiência, não há comunicação. Se não se acredita que a comunicação é verdade, não há jornalismo, mas propaganda.»

Joaquim Navarro-Valls, ex-director da Sala de Informação da Santa Sé, ontem, durante a entrega do Prémio “Bravo” concedido pela Comissão de Meios de Comunicação Social da Conferência Episcopal Espanhola

O tempo que a TV consome

Em Portugal, gastou-se, no ano passado, uma média ligeiramente superior a 33 milhões de horas diárias a ver televisão, dado que, segundo a Marktest, cada português viu, em 2006, em média, 3,5 horas de televisão por dia (base de cálculo: 9,459 milhões, que constituem o universo de telespectadores).
A discriminação destes dados por varáveis como a idade, a região, o nível sócio-económico e o sexo dá o seguinte retrato:
audiTV2006

Guia de análise:
– Quem vê mais e quem vê menos?

– Onde estão os que vêem mais?

– Que significam 3,5 horas de ‘consumo’?

– O que significa ‘ver televisão’?

Os novos mercenários da informação

O investigador canadiano Marc-François Bérnier termina assim um texto publicado ontem no Le Devoir com o título “Accommodement raisonnable – Les nouveaux mercenaires de l’information”:

“De plus en plus, nous avons besoin de lieux de recherche et de débat où l’on puisse analyser de façon critique, rigoureuse et indépendante les pratiques médiatiques qui influent grandement sur la qualité de notre vie démocratique. Il semble que les entreprises de presse soient peu enclines à assumer cette tâche.”

Prós e Contras – razão e coração

O programa ‘Prós e Contras’ de ontem à noite, na RTP1, terá sido um dos melhores de sempre.
A brutal actualidade do tema – o caso da criança no centro de uma disputa de paternidade que já levou uma pessoa a ser condenada a seis anos de prisão efectiva – reforçou a posição ímpar daquele espaço enquanto lugar de discussão pública dos assuntos que, no dia a dia, vão preocupando a maioria dos portugueses. É, nesse sentido (e mesmo tomando em conta os programas em que a produção parece dar o flanco às críticas de submissão à agenda da classe política), um formato plenamente enquadrado numa estratégia de serviço público de televisão conjugando conteúdo de qualidade com sucesso de audiências.
A escolha dos convidados – quase todos profissionais ligados a processos de adopção – deixou na maioria dos telespectadores que optaram por roubar horas ao sono uma noção (para alguns, pela primeira vez) da complexidade deste processo em particular mas, sobretudo, do que pode acontecer a uma criança quando os adultos em seu redor falham e o Estado que tem por obrigação protegê-la não é sensato.
Uma nota adicional para referir a qualidade da intervenção do Miguel Gaspar. Sereno e acutilante enquanto tentava explicar a um juíz que a razão não é objecto de propriedade (de indivíduos ou de classes profissionais) e que uma democracia precisa do questionamento permanente (também) para que a aplicação da lei possa, em todos os momentos, estar mais próxima de cumprir o seu fim – a justiça.

Tecnologia e empowerment – conferência

Terina no fim deste mês o prazo para o envio de propostas de comunicação a apresentar na conferência “Communication Technologies of Empowerment“, que se realiza no dia 18 de Maio, na Universidade de Leeds, no Reino Unido.
Diz-se no ‘call for papers’:

New forms of communication have become a key tool for global social movements. Whether their struggles are focused on questions of global justice, class, gender, race or the environment, activists have found in the decentralized and inexpensive nature of the Internet and mobile telephony the media they needed to organise themselves and make their actions public. Interestingly, these technologies are also being mastered by those actors who want to challenge the national and international orders through violent means. This reminds us that terrorism is in great part a communicative phenomenon, today more than ever before.

(Obrigado, Francisco Seoane)

Previsões da indústria para 2007

O grupo Deloitte de consultadoria e estudos de mercado acaba de disponibilizar um conjunto de análises prospectivas no domínio dos media, das telecomunicações e da tecnologia. Trata-se de um ponto de vista das grandes empresas e grupos do sector, elaborado, nomeadamente, com base em 36 entrevistas igualmente reunidas e publicadas, sob o título genérico “conversas sobre a convergência”:

O Sindicato dos Jornalistas e os estagiários

O Sindicato dos Jornalistas volta a criticar hoje as empresas de comunicação social, considerando continuar a verificar-se uma «utilização ilegal, imoral e inaceitável de estudantes nas redacções». Por não acolher a intervenção dos estagiários «no processo produtivo em substituição de profissionais», o Sindicato exige o fim da exploração de estudantes, considerando ainda que o aproveitamento do trabalho dos estagiários «é mais grave ainda quando persiste em empresas que têm procedido ao despedimento de jornalistas».

O comunicado pode ser lido na íntegra aqui.

[Dica do Blogouve-se]

Sobre a a verdade ‘formal’

“O problema, portanto, é que para os juízes portugueses existe apenas uma verdade: a versão da realidade que eles próprios defendem. Mas será a verdade ‘formal’ dos tribunais mais autêntica do que o discurso dos media? Ou estarão juízes a querer dizer-nos que só conta a verdade que é apoiada pela autoridade jurídica? (…) A parte da sociedade que se revolta contra a sentença de Torres Novas não está mal informada: tem uma noção de humanidade que falta ao tribunal. (…) Os media mostram que há mais do que uma verdade neste caso e procuram as respostas que o tribunal não foi capaz de encontrar. Sendo assim, qual dos dois estará a faltar à verdade?”

Miguel Gaspar, “Faltar à verdade”, DN, 22.1.2006

Notas de fim-de-semana

  • Dicas e pistas para compreender o fosso digital é o tema da mais recente peça de Mark Glaser, no Media Shift. Intitula-se “Your Guide to the Digital Divide” e, como de costume, vem acompanhado de uma listagem de recursos disponíveis online.
  • Ségolène Royale abriu uma sede de candidatura no “Second Life” para apoiar a sua campanha à eleição presidencial francesa. É a 748ª sede e, segundo a notícia do Libération, ainda não é possível encontrar por lá o avatar da candidata. “Mas ela virá!”, reporta o diário. Le Pen, esse, já por lá anda.
  • Big Media’s Crush on Social Networking” (de Richard Siklos, no The New York Times): “(…) What is striking about many of these mainstream media ventures into social networking is that they mirror the big debate over whether Internet surfers will continue to migrate to big portal sites like AOL and Yahoo or will use widely available tools to fashion their own customized Web lives (…)”.
  • O “Planeta Google” é o tema da revista EP[S] El Pais Semanal. “Google, explica [Eric Schmidt, el presidente de la compañía], contrata a unas cien personas a la semana; la única manera de alimentar la maquinaria de una compañía que, según Deloitte, es la que más rápido ha crecido en la historia: sus ingresos han aumentado un 437% en cinco años: desde los apenas 200.000 dólares que facturaba en 1999 hasta los más de 961 millones de 2003”.