Nove mil ou vinte mil?

Uma coisa é a posição que cada um possa ter relativamente à pergunta que é colocada aos portugueses no referendo sobre a despenalização do aborto, no próximo dia 11, e outra, bem diferente, é o rigor que se exige nas notícias acerca das iniciativas relacionadas com esse referendo.

Organizações ligadas ao “não” promoveram ontem uma “caminhada” em Lisboa. Que nos dizem os jornais de hoje acerca da participação nessa iniciativa?

– Segundo dados das autoridades policiais, terão participado entre oito a nove mil pessoas;

– De acordo com os promotores, esse número situar-se-ia em mais do dobro: à roda de 20 mil.

– Sendo dados tão díspares, apenas o Correio da Manhã e o Diário de Notícias nos disponibilizam os cálculos de ambas as fontes; ou seja o Público e o Jornal de Notícias apenas nos dão os dados da polícia (o JN escolhe o assunto para título da peça: Oito mil pessoas marcharam pelo ‘não’ em várias artérias de Lisboa“)

– O Correio da Manhã é o que transmite mais “calor” na reportagem do acontecido, a começar desde logo pelo lead (“milhares de pessoas (…) que durante duas horas e meia não se cansaram de entoar canções e fazer rimas ‘a favor da vida'”. O DN não deixa de passar a mensagem de que os dados da polícia sobre o número de manifestantes são mais credíveis do que os dos promotores (“foram milhares – oito a nove mil pelas contas da polícia, embora a organização tenha apontado 20 mil”).

– Quantos participantes teve a manifestação? Será que os organizadores puxaram os números para cima? Será correcto, como por vezes se ouve, que a verdade dos dados estará algures no meio? Mas: a polícia teria alguma razão especial para calcular por baixo? E não seria viável um cálculo, ainda que por alto, que nos desse a ideia de que a realidade dos factos se aproximava mais dos números policiais ou, pelo contrário, dos dos promotores?

– Em resumo: uma manifestação com oito ou nove mil pessoas é bastante diferente de uma com 20 mil, nos tempos que correm. E aí também se apreende o significado do evento. Dando-nos duas cifras completamente disparatadas ou fornecendo-nos apenas uma versão dos números, será que ficamos informados do que se passou?

One thought on “Nove mil ou vinte mil?

  1. Obviamente não ficamos esclarecidos sobre o número correcto de manifestantes, contudo penso que deveria ser informados os dois valores e as fontes onde foram recolhidos.

    Há quem defenda que em caso de dúvida o jornalista deve-se colocar do lado das autoridades, embora (infelizmente) a verdade não esteja sempre do lado das autoridades.

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