Provedor do leitor: dez anos depois

Faz precisamente hoje dez anos que o jornalista e professor Mário Mesquita publicava, no Diário de Notícias, a sua primeira coluna como provedor do leitor, inaugurando, assim, a função na imprensa de informação geral, no nosso país. Menos de um mês depois, o Público adoptava a mesma figura, designando para o cargo o jornalista Jorge Wemans, hoje director do canal Dois, da RTP.

Dez anos passados, é tempo de fazer um ponto de situação. Valeu a pena? Tem valido a pena?

Pessoalmente, entendo que tem sido uma experiência importante: talvez mais do que credibilizar o jornalismo, ela tem permitido abrir canais de contacto e de comunicação para os comentários e reclamações dos leitores (e, desde o ano passado, dos radiouvintes e telespectadores da rádio e televisão públicas). Nesse sentido, a existência da função inscreve-se numa tendência mais ampla que caracteriza os grandes media dos nossos dias: a abertura de múltiplas formas de interacção com os destinatários do jornalismo.

Considero que a função está longe de se encontrar consolidada nos media que a incorporaram. Um sinal disso mesmo é a descontinuidade que se tem observado na nomeação dos novos titulares, quando os anteriores cessam funções. Continua a haver resistências nas empresas e entre os jornalistas e as dificuldades económicas para assumir os encargos constituem argumento por vezes invocado. Mas a experiência que vivi no JN leva-me a pensar que há também, do nosso lado de cidadãos, uma grande responsabilidade neste processo: porque ficamos calados, porque exigimos pouco, porque, ainda quando exigimos, somos mais dados a criticar do que a aplaudir trabalho bem feito; reagimos quando nos tocam directamente na pele, mas emudecemos quando os media ferem a colectividade de que somos parte.

Mas entendo que se deveria aproveitar a oportunidade para reflectir, não isolando a função de provedor e os modos diferenciados como tem sido exercida do processo mais vasto de mudança – há quem prefira: de crise – que vive, hoje, o jornalismo.

2 thoughts on “Provedor do leitor: dez anos depois

  1. Estamos a falar de provedores activos como o Rui Araújo do PÚBLICO ou “provedores” inconsequentes como o Paquete de Oliveira na RTP ?

    O programa de hoje foi mais uma vez um exemplo de como a única coisa feita naquele programa é “dar voz aos cidadãos”.

  2. Penso que Paquete de Oliveira ainda está a definir um caminho, e o que tem feito até agora se situa mais no terreno pedagógico-profiláctico, assumido aliás pelo próprio. O Provedor da RTP tem preferido fazer o levantamento das questões e a sua discussão utilizando desde a opinião do público à dos responsáveis, e não assumindo um carácter demasiado interventivo e muito menos punitivo ou sancionatório. Em resumo: assume-se como um Provedor vigilante, não um juiz.
    Dito isto, como jornalista, e apesar de me contar na “classe” que, demonstram-no as informações disponíveis, mais resiste ao escrutínio do Provedor, gostaria de um maior aprofundamento e discussão de temas como os propostos ontem, que caem no âmbito da produção jornalística eventualmente condicionada pela falta do tempo de reflexão. Penso que o programa de ontem pecou desde logo num dos pressupostos da sua produção: a justificação de decisões editoriais tomadas “em cima do acontecimento” nem sempre se esgota na auscultação dos responsáveis máximos da cadeia de decisão (no caso, José Alberto Carvalho, ouvido e muito bem sobre as orientações gerais). Para se tornar mais eficaz, deve toda a cadeia, até à equipa de reportagem (no caso de existir, como era óbvio num dos casos apresentados), ser auscultada para que se perceba o processo, feito das suas urgências e discursos mais ou menos assumidos, e não apenas a circunstância. No entanto, percebo as dificuldades que um caminho desses encerra quando estamos a falar de um “media” tão contingente como a Televisão, em que a decisão de transmissão de uma imagem num directo ou demasiado próximo da edição sofre precisamente do mais imponderável factor de todos os que pesam: o imediatismo, inimigo óbvio da boa ponderação.
    O mesmo já não se aplica, obviamente, à situação dos Gato Fedorento que, não caindo directamente no âmbito de acção dos jornalistas, lhes invade, de certo modo, o território, e por isso, além das análises de “bom” ou “mau” gosto, nos pode merecer análises de outro nível. No fundo, o que está aqui em causa é uma ética da morte, que é muito mais transversal.

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