“Fact checking”

Lead de notícia do JN, intitulada Cardeal contra “acto egoísta”:

“O cardeal-patriarca de Lisboa considerou, ontem, que abortar é uma atitude egoísta de quem não quer enfrentar as dificuldades de criar um filho e que uma lei que facilite o aborto é “uma tentação acrescida” para a mulher”.

Texto da mensagem do patriarca de Lisboa:

“A dificuldade de uma maternidade não desejada pode ser a primeira dificuldade a ser ultrapassada pela mulher-mãe. As motivações do aborto não estão cientificamente estudadas. Elas vão desde a atitude egoísta de quem não está disposto a abraçar as dificuldades de criar um filho, ao medo dessas dificuldades, à pressão exercida, tantas vezes pelo pai da criança e pelo ambiente que rodeia a mulher”.

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Sobre o escrutínio do jornalismo…

Muito haverá a dizer a propósito do texto “Sobre o escrutínio do jornalismo na blogosfera e não só” de Paulo Querido, publicado há dois dias no Observatório de Imprensa. Não farei a análise detalhada que alguns comentários acrescentados ao texto já foram ensaiando, mas gostava de anotar alguns aspectos que poderão ser acrescentados a um debate sobre a possibilidade de escrutinar o jornalismo:

  • é estranhíssimo que Paulo Querido se refira à censura como um modo de escrutínio. A ideia de escrutínio está ligada à necessidade de legitimação social do jornalismo. Não tenho nenhuma ideia que a censura, que significa opressão, seja um modo de legitimação. Por outro lado, as “instâncias próprias” de escrutínio a que se refere são instâncias de regulação que fazem sobretudo uma “vigilância” da ética jornalística. Mas a ética não é o único ponto de vista pelo qual o jornalismo deve ser escrutinado.
  • apesar de não ser a questão essencial, é verdade que os jornalistas não “simpatizam” (o que se compreende) com a crítica das suas performances. Repare-se, por exemplo, nas respostas que jornalistas do Público deram recentemente ao Provedor (no caso Miguel Sousa Tavares e no mais recente episódio de plágio);
  • é verdade que, desde sempre, o jornalismo e os jornalistas estiveram de alguma maneira sujeitos a um escrutínio. A literatura teve nisso um papel muito importante (se Diderot considerava que o jornalismo era o pasto dos ignorantes, Gustav Freytag, por exemplo, satiriziva o facto de os jornalistas se prestarem a escrever de acordo com as conveniências, servindo interesses económicos e políticos);
  • mas é igualmente verdade que, sendo válida enquanto actualidade, só nesse momento [na actualidade] a informação jornalística pode ser esclarecida, como sugeria Walter Benjamin (em “O Narrador”). Daí que seja da mais salutar importância não só a crítica em colunas de opinião e em blogues como o exercício de reflexão a que podem prestar-se as práticas metajornalísticas;
  • finalmente, a este imperativo de imputabilidade de responsabilidades e concomitante prestação de contas (que os anglo-saxónicos denominam “accountability”) deu especial fôlego a blogosfera que é um modo inteiramente novo de reagir à forma como o jornalismo e os jornalistas se ocupam do quotidiano. Salvo as excepções maliciosas a que se refere Paulo Querido, a participação dos cidadãos no debate sobre o que o jornalismo pode ou deve ser só pode ser o mais desejável.

Como ensinar jornalismo

Doug Fisher, no seu Common Sense Journalism, escreveu há dias uma reflexão pertinente sobre ‘como ensinar jornalismo?’.
O post surgiu depois de ter lido um texto com uma auto-admissão de ‘escrita criativa’ por parte de uma estudante numa das mais importantes escolas do Canadá. Em “Confessions of a teenage fabulist“, alguém que assina ‘Kate Jackson’ descreve em detalhe como enganou sucessivos professores com trabalhos totalmente inventados.
Excerto:

I was inordinately pleased. Professional journalism’s tone and style, the rules of story construction, the criteria of newsworthiness—all these could be fulfilled without leaving my room or interviewing anyone. No need for a thousand monkeys at a thousand typewriters. News isn’t Shakespeare: it practically writes itself.
(…)
Inventing news is remarkably easy. “It’s not a lie, it’s a gift for fiction,” William H. Macy’s character Walt Price says in the film State and Main, when accused of lying to impressionable, trusting country folk. Lying will always be a tempting option for practicing journalists.

O texto será, naturalmente, também de validade não verificada, mas o universo a que alude é real.
E é isso que parece mais importante sublinhar.
Estaremos nós também, em Portugal, a ensinar bem Jornalismo?
E o que será isso de ‘ensinar bem’?

Sem verdade não há jornalismo

«A comunicação jornalística não pode ser mais que a transmissão de uma experiência que se considera verdade; sem essa experiência, não há comunicação. Se não se acredita que a comunicação é verdade, não há jornalismo, mas propaganda.»

Joaquim Navarro-Valls, ex-director da Sala de Informação da Santa Sé, ontem, durante a entrega do Prémio “Bravo” concedido pela Comissão de Meios de Comunicação Social da Conferência Episcopal Espanhola

O tempo que a TV consome

Em Portugal, gastou-se, no ano passado, uma média ligeiramente superior a 33 milhões de horas diárias a ver televisão, dado que, segundo a Marktest, cada português viu, em 2006, em média, 3,5 horas de televisão por dia (base de cálculo: 9,459 milhões, que constituem o universo de telespectadores).
A discriminação destes dados por varáveis como a idade, a região, o nível sócio-económico e o sexo dá o seguinte retrato:
audiTV2006

Guia de análise:
– Quem vê mais e quem vê menos?

– Onde estão os que vêem mais?

– Que significam 3,5 horas de ‘consumo’?

– O que significa ‘ver televisão’?