Insignificante o peso do digital na circulação dos diários

Com exceção do Público, é residual o peso da circulação digital na circulação total dos diários portugueses generalistas, a avaliar pelos dados mais recentes da PCT (Associação Portuguesa para o Controlo da Tiragem e da Circulação), relativos aos dois primeiros meses de 2013.
A circulação total refere-se ao conjunto dos exemplares de cada edição vendidos, independentemente da modalidade, assim como ofertas.
A queda da circulação total foi da ordem dos 10% relativamente a período homólogo de 2012, tendência que se mantém há bastante tempo.
O quadro seguinte mostra os dados:
Circulação Jan-Fev2013

“Pluralismo e diversidade nos media em Portugal – a blogosfera política em rede”: tese de doutoramento de Elsa Costa e Silva

Estão marcadas para amanhã, 22 de março (14h30, Anfiteatro B2 do CP2, na Universidade do Minho, Campus de Gualtar), as provas de doutoramento em Ciências da Comunicação, especialidade de Sociologia da Comunicação e da Informação, da mestre Elsa Costa e Silva, investigadora do CECS. A tese, orientada pela professora Helena Sousa (UMinho), tem por título “Pluralismo e diversidade nos media em Portugal – a blogosfera política em rede”.
O júri é presidido pelo Reitor da UMinho, sendo composto ainda por Moisés Martins, Manuel Pinto, Helena Sousa e Luís António Santos (todos da UMinho e investigadores

39_doc_elsa_costa_silva do CECS), Paulo Serra (Universidade da Beira Interior) e Gustavo Cardoso (ISCTE).

A investigação realizada pela candidata analisa o papel dos blogues políticos na promoção da diversidade e do pluralismo, enquanto elementos constituintes da esfera pública. Sendo um novo espaço para a participação dos cidadãos na discussão política, os blogues têm sido perspetivados como uma plataforma onde podem emergir novas vozes e alternativas no âmbito do debate democrático. O objetivo é perceber de que forma os blogues políticos portugueses podem cumprir este potencial de revitalização da intervenção cívica e política.

(Mais informação: AQUI)

Para Uma Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet

Introdução

A Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet culmina uma reflexão crítica desencadeada pelo Projecto Jornalismo e Sociedade (PJS) e que envolveu, ao longo do ano de 2012, cerca de 1 300 estudantes, docentes, jornalistas, gestores e empresários de comunicação social, opinion makers e outros cidadãos.

A iniciativa inspirou-se no resultado de um diálogo entre os jornalistas e a sociedade norte-americana, promovido pelo Committee of Concerned Journalists, uma organização que era, na altura (1997), administrada pelo Project For Excelence in Journalism, do Pew Research Center. O livro The Elements of Journalism (Kovach & Rosenstiel, 2001; Porto Editora, 2005), sintetizou esse diálogo em nove princípios que procuraram definir o jornalismo e o seu papel na sociedade. Em 2007, numa edição amplamente revista e actualizada, os autores acrescentaram-lhe um 10º princípio sobre direitos e responsabilidades dos cidadãos.

Com as devidas adaptações de lugar, de tempo e de cultura profissional, desafiámos a universidade, o campo jornalístico e os cidadãos em geral a reflectirem sobre o que deve ser o jornalismo, o trabalho dos jornalistas, o papel e as expectativas dos cidadãos portugueses na idade da Internet.

(…)

Apesar da ampla base de reflexão que sustentou a sua elaboração, a Carta de Princípios que apresentamos não pretende substituir-se e muito menos impor-se aos códigos do grupo profissional de jornalistas, donde, de resto, não emana e que muito menos representa. Elaborada no âmbito de uma investigação académica, ela ambiciona tão só dar um contributo reflexivo na enunciação, estudo e debate de alguns dos grandes desafios que questionam o jornalismo tal como o conhecemos e os jornalistas o praticaram durante o século XX.

1. A primeira obrigação do jornalismo é a busca da verdade e a sua publicitação

A “verdade jornalística” é a melhor aproximação à verdade conseguida até ao momento da sua publicação. Não se trata, assim, da verdade em sentido absoluto ou filosófico. A busca da verdade jornalística consiste na pesquisa, recolha, verificação e confronto de dados informativos e traduz-se num relato rigoroso dos factos apurados e do seu significado, válido no momento, susceptível de posterior evolução e aprofundamento. Desenvolve-se em dois tempos diferentes – o da actualidade, marcada pela urgência; e o da investigação, que se propõe ir muito para além da espuma dos dias. A publicitação, por seu lado, implica um processo de hierarquização e destaque (na paginação, no alinhamento, na colocação em linha), que não deve deturpar ou comprometer o significado ou a importância da informação apurada. A procura, sempre em aberto, da verdade dos factos implica e exige a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas.

2. O jornalismo deve manter-se leal aos cidadãos, estimulando o debate e a construção de opinião

O exercício democrático pressupõe um conhecimento informado do que é do interesse público, a partir de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista proporcionada por uma informação sem fronteiras e um confronto de ideias aberto. O jornalismo constitui-se, desta forma, num serviço a favor da cidadania, da liberdade e da democracia. Enquanto as empresas de média respondem a vários interesses legítimos (neles incluindo os dos accionistas e anunciantes), os jornalistas que nelas trabalham devem manter-se fiéis ao compromisso com os cidadãos, assumindo a produção de notícias sem medos ou favorecimentos a quem quer que seja. Esta é a base onde assenta a credibilidade das organizações jornalísticas, que ganham também em dela cuidar.

3. A essência do jornalismo assenta na verificação da informação e no confronto de fontes e de versões

O que distingue o jornalismo – tal como o conhecemos e os jornalistas o praticaram durante o século XX – de outras formas de informação que chegam aos cidadãos através dos novos media e das redes sociais é o seu compromisso com as regras e procedimentos que certificam a informação prestada aos leitores/ouvintes/espectadores/utilizadores. A validação das informações é alcançada através do cumprimento de uma disciplina de verificação que tem como instrumentos centrais a pesquisa e o exame continuado de dados e de factos, o confronto de diferentes fontes e testemunhos e, sempre que possível, o olhar directo do próprio jornalista.

4. O jornalismo deve escrutinar os diferentes poderes. Aqueles que o exercem devem ser independentes em relação às pessoas, organizações e acontecimentos que cobrem

Denunciar os abusos daqueles cujo poder e posição mais podem afectar cidadãos subjaz ao conceito de liberdade de imprensa. É uma defesa da sociedade contra a tirania e o nepotismo. Os jornalistas têm obrigação de não a desbaratar em usos fúteis, e na prossecução de interesses comerciais ou pessoais. Esta função de vigilância e fiscalização, tradicionalmente focada nos poderes públicos, deve ser alargada a pessoas, instituições ou grupos, formais ou informais, cuja actuação seja publicamente relevante. O seu cumprimento exige condições de independência e de autonomia dos jornalistas e das redacções.

5. O jornalismo deve tornar interessante o que é relevante e procurar no que é interessante ou mobiliza a atenção dos cidadãos o que é importante e significativo

Os jornalistas devem questionar-se em permanência sobre qual a informação mais relevante para os cidadãos e qual a forma, simultaneamente mais apelativa e rigorosa, de a apresentar. Combinar interesse público e interesses dos públicos permanece como um dos grandes e mais permanentes desafios enfrentados pelas redacções. Num ambiente comunicacional marcado pelo infoentretenimento nas suas diferentes e mais díspares declinações, torna-se necessário as redacções não eliminarem da agenda, devido a preconceitos culturais, de classe, de estatuto, ou outros, temas (muitas vezes apenas aparentemente) menores que concitam o interesse das audiências. Antes, devem esforçar-se por descobrir neles os motivos, sociais ou outros, na base desse interesse. Tal não deve fazer esquecer, contudo, que um jornalismo obcecado com trivialidades, em última instância, contribui para uma sociedade trivial.

6. A produção jornalística deve seguir princípios de rigor, isenção, clareza, abrangência e proporcionalidade, e deve empenhar-se em dar voz e visibilidade a cidadãos, grupos e comunidades mais esquecidas

Contexto, interpretação, comentário, crítica, análise e debate, marcas distintivas da oferta jornalística, constroem-se sobre os alicerces do rigor, da isenção e da clareza. Inflaccionar acontecimentos por sensacionalismo, estereotipar ou ser desproporcionadamente negativo, omitir, distorcer ou confundir, tudo isso resulta numa representação pouco confiável da realidade social. Dela não devem estar excluídos cidadãos, grupos, comunidades, mundos distantes, por razões do sexo, raça, nacionalidade, idade, classe social, geografia, instrução, religião, orientação sexual, ou outras. As redacções que integram diversidade de origens e perspectivas são as mais aptas a reflectir esta preocupação.

7. Os jornalistas devem ser livres de seguir a sua consciência

O jornalista deve ter um sentido pessoal de ética e responsabilidade – uma bússola moral. Deve estar disposto, se a veracidade e a lealdade aos cidadãos o exigirem, a expressar e debater divergências com colegas ou com a hierarquia. As empresas fariam bem em alimentar esta independência, encorajando-a. Ela estimula a diversidade intelectual, necessária para perceber e dar a conhecer uma sociedade cada vez mais complexa. Independentemente do direito à cláusula de consciência, corolário das garantias constitucionais de independência e autonomia, bem como, por outro lado, do respeito pelos estatutos editoriais dos respectivos media, previamente conhecidos, o jornalista deve ser livre, ainda, de seguir a sua consciência quando estejam em causa a expressão de opiniões ou o exercício de tarefas que repute contrariá-la ou que falseiem, deturpem ou escamoteiem a verdade dos factos. E não deve, pelas opções de livre consciência, sofrer quaisquer formas de discriminação.

8. O jornalismo deve ser transparente e favorecer o debate público das suas opções e práticas e o escrutínio das ligações, interesses e poderes que o suportam

Porque o jornalismo é uma força poderosa na sociedade democrática, impõe-se também aqui o escrutínio do escrutinador. Escrutínio público não apenas das suas opções e práticas, mas igualmente dos interesses e poderes que estão por detrás dele. Num mesmo quadro de transparência e de prestação de contas que se exige às outras instituições da sociedade.

9. O jornalismo deve adaptar-se às diferentes plataformas informativas e interagir com a diversidade de actores presentes no ambiente comunicacional, integrando as suas vozes no processo de produção profissional de narrativas noticiosas e de opinião

O jornalista deve estar atento à mudança nos vários domínios relevantes para a profissão e inovar desempenhos, tirando proveito de novas oportunidades de informar e aceder a informação. Erodido o controlo único e centralizado detido pelo jornalismo sobre a produção e circulação de conteúdos, informar bem a sociedade implica abrir-se a ela e com ela interagir no processo de produção noticiosa, no qual o papel central e insubstituível dos jornalistas deve ser salvaguardado.

10. Inovações empresariais e tecnológicas no ecossistema informativo devem ser feitas com respeito por padrões de exigência profissional e no quadro ético e deontológico em vigor numa imprensa livre e democrática

A mudança tecnológica, cultural e social repercute-se na transformação dos média, da indústria de média, do mercado de informação e das condições de exercício de jornalismo. A função do jornalismo exige a valorização de novas oportunidades de informar com melhor resposta a interesses de diversos públicos. A sustentabilidade do negócio pede inovação na configuração e disponibilização de plataformas informativas. O compromisso com o interesse público e o respeito por regras e padrões profissionais e por princípios éticos e deontológicos devem balizar estas transformações.

11. Os cidadãos têm direitos e responsabilidades, no que diz respeito à informação noticiosa

Os princípios do jornalismo nascem da função que a informação representa na vida das pessoas. Neste sentido, são uma declaração de direitos dos cidadãos, ao mesmo tempo que uma declaração de responsabilidades dos jornalistas. Na medida, porém, em que a difusão de informação própria e do comentário a assuntos de actualidade e às opiniões de outros aumenta, crescem também as responsabilidades éticas dos que intervêm no processo, do lado da cidadania. O conhecimento e exercício destes direitos e responsabilidades devem integrar a formação não apenas dos jornalistas mas também dos cidadãos, no quadro mais vasto e desejável de uma literacia mediática que proporcione o uso crítico, esclarecido e criativo da informação jornalística e dos media.

………………….

Nota de MP:

Este documento foi apresentado publicamente em Lisboa, no passado dia 3. Para uma perspetiva mais minuciosa dos passos dados até à formulação dos 11 Princípios, recomendamos a leitura integral do texto introdutório: AQUI.

“Aqui, no meio de nós”

Naquele que será o seu último contributo do ano na publicação Página 1 (Rádio Renascença), Manuel Pinto chama a nossa atenção para sinais que talvez deixemos passar, de tão preocupados que andamos com a ‘espuma dos dias’ (por exemplo, por ora, ocupamo-nos longamente do ‘caso Artur Baptista’).

Vale mesmo a pena ler todo o texto e, por isso, com a devida vénia à RR, aqui o replicamos:

Nos tempos que correm, tendemos a ver mais “o estado a que isto chegou” do que aquilo que prenuncia a saída e a superação. Também assim nos media, que noticiam e matraqueiam as dores, golpes e desgraças. Mas é neles, por eles e sobre eles que, com um pouco de atenção, detectamos também aquela “petite lumière”, a “pequenina luz bruxuleante” a que aludiu Jorge de Sena.
Dois sinais recentíssimos dessa luz que não se apaga. O primeiro foi a apresentação, no início do mês, de uma Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet. É verdade: princípios são intenções e não práticas. Talvez por isso os meios de comunicação social não lhe tenham prestado demasiada atenção. E, contudo, valia a pena contar como nasceu e floresceu a ideia, coordenada por Gustavo Cardoso e Adelino Gomes e, sobretudo, dar a conhecer o teor da Carta (ler o texto AQUI). Nos tempos que correm, falar de ética e, mais ainda, ser ético já exige coragem.
O segundo sinal de esperança acaba de ser dado pelo director do jornal económico Negócios, Pedro Santos Guerreiro. O grupo Newshold anunciou a intenção de concorrer à aquisição da RTP ou da sua gestão, caso o Governo decida nesse sentido. Apesar das diligências várias, parece que ninguém sabe quem é, afinal, esse grupo que pretende gerir o serviço público de televisão. E aquilo que se sabe – com Relvas à mistura – não é nada tranquilizador. Dá-se o caso de a Newshold já deter, comprados no último ano em Bolsa, 15% do capital da Cofina, grupo português que controla o Negócios. Pedro Guerreiro escreveu há dias, em editorial: “O meu pensamento é este: “A Newshold, como a (des)conhecemos, não pode controlar a RTP. Se um dia controlar a Cofina, o meu destino está traçado. Traçado por mim: obviamente, demito-me”.
Nos tempos que correm, já não estamos habituados a esta clareza e frontalidade em questões de valores e princípios. Este segundo sinal é, na verdade, a prova da importância do primeiro.
Como tudo na vida, não há perfeição. Mas estes gestos trazem um suplemento de vida e de esperança de que muito andamos precisados:

“(…) Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha”.
(Jorge de Sena)

Imagem

(imagem retirada daqui)

 

Por um ‘jornalismo de escuta’

“Jornalismo, crises e Democracia” é o lema da conferência nacional de jornalistas que se realiza no próximo dia 24, em Lisboa, por iniciativa do Sindicato representativo deste grupo profissional.

O debate sobre o sector e “as formas de intervenção nas redacções e na sociedade” são objectivos da Conferência que pretende ser também um “passo” para o 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses.
Os jornalistas têm motivos de sobra para se reunirem e reflectirem entre si, certamente. Com as gigantescas transformações que estão à vista devem ser o único grupo profissional que não reúne vai para década e meia. Cobrindo congressos de todos os outros organismos, não conseguiu arranjar tempo e motivação para ser ele próprio e o seu papel na sociedade motivo de encontro. Só isso já diz bastante das dificuldades e contradições que se foram agudizando no seu seio e nos contextos organizacionais em que exerce o metier.
Mas, dito isto, e correndo o risco de parecer contraditório, acrescentaria que os jornalistas não vencerão os impasses e desafios com que se deparam se pretenderem enfrentá-los sozinhos. Mais do que no passado, o jornalismo encontra-se hoje no epicentro de um ciclone que afeta não apenas as redacções e grupos de media, ainda que de forma diferenciada, mas o próprio regime democrático, sentido primeiro e último do próprio jornalismo.
Parece-me vital que a profissão se abra aos contributos de todos os sectores da sociedade que também estão seriamente preocupados com o futuro do jornalismo – associações e movimentos culturais, sociais e políticos, alguns setores da economia, centros de investigação e ensino, entre outros. Como poderão os jornalistas e suas associações (e não apenas o seu sindicato) servir melhor a sociedade se não se puserem à escuta do que esperam os cidadãos e do que estes podem dar?
Temo que se a Conferência Nacional que se avizinha for mais um momento para as lamentações do costume ou para “explicar à sociedade” os problemas da profissão será pouco mais do que tempo perdido. A profissão estiolará se se autocentrar e se puser a falar para si mesma. Poderá redescobrir-se e fortificar-se se for inovadora no modo de enfrentar as dificuldades. E isso passa por escutar mais os anseios, lutas, contributos e esperanças que germinam na sociedade e que são frequentemente silenciados no espaço público.

(Texto publicado no Página 1, da Renascença, em 12.11.2012)

Petição “Pelo Jornalismo, pela Democracia”

Está desde há dias a recolher assinaturas a petição ”Pelo Jornalismo, pela Democracia”, uma iniciativa de perto de uma centena de jornalistas, ex-jornalistas e académicos ligados à área do jornalismo. A petição desafia todos os cidadãos a “empenhar-se [na] defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade”.  Os destinatários não são apenas jornalistas ou outros profissionais dos media, mas todos os cidadãos. O texto, acompanhado da lista dos proponentes, é publicado abaixo. Para assinar, clicar AQUI:

“Pelo jornalismo, pela democracia 

A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática. 
O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão. 
As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas. 
Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos – empresários, profissionais, Estado, cidadãos – na descoberta de soluções. 
A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia. 
Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público; 
Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”; 
Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece; 
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia; 
Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa; 
Porque o jornalismo é um património colectivo; 
Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos. 
Por isso nela nos envolvemos. 
Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática. 
Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade”. 

Proponentes

Adelino Gomes – Jornalista
Agostinho Leite – Lusa
Alexandre Manuel – Jornalista e Professor Universitário
Alfredo Maia – JN (Presidente do Sindicato de Jornalistas)
Ana Cáceres Monteiro – Media Capital
Ana Goulart – Seara Nova
Ana Romeu – RTP
Ana Sofia Fonseca – Expresso
Anabela Fino – Avante
António Granado – RTP; Professor Universitário
António Navarro – Lusa
António Louçã – RTP
Avelino Rodrigues – Jornalista
Camilo Azevedo – RTP
Carla Baptista – Jornalista e Professora Universitária
Catarina Almeida Pereira – Jornal de Negócios
Cecília Malheiro – Lusa
Cesário Borga – Jornalista
Cristina Margato – Expresso
Cristina Martins – Expresso
Daniel Ricardo – Visão
Diana Andringa – Jornalista
Diana Ramos – Correio da Manhã
Elisabete Miranda – Jornal de Negócios
Fernando Correia – Jornalista e Professor Universitário
Filipa Subtil – Professora Universitária
Filipe Silveira – SIC
Filomena Lança – Jornal de Negócios
Francisco Bélard – Jornalista
Frederico Pinheiro – Sol
Hermínia Saraiva – Diário Económico
João Carvalho Pina – Kameraphoto
João d’Espiney – Público
João Paulo Vieira – Visão
Joaquim Fidalgo – Jornalista e Professor Universitário
Joaquim Furtado – Jornalista
Jorge Araújo – Expresso
Jorge Wemans – Jornalista
José Luís Garcia – Docente e Investigador (ICS-UL)
José Luiz Fernandes – Casa da Imprensa
J.-M. Nobre-Correia – Professor Universitário
José M. Paquete de Oliveira – Docente, cronista, ex-provedor do telespectador (RTP)
José Manuel Rosendo – RDP
José Mário Silva – Jornalista freelancer
José Milhazes – SIC / Lusa (Moscovo)
José Rebelo – Professor Universitário e ex-jornalista
José Vitor Malheiros – Cronista, consultor
Leonete Botelho – Público
Liliana Pacheco – Jornalista (investigadora)
Luciana Liederfard – Expresso
Luis Andrade Sá – Lusa (Delegação de Moçambique)
Luis Reis Ribeiro – I
Luísa Meireles – Expresso
Manuel Esteves – Jornal de Negócios
Manuel Menezes – RTP
Manuel Pinto – Professor Universitário
Margarida Metelo – RTP
Margarida Pinto – Lusa
Maria de Deus Rodrigues – Lusa
Maria Flor Pedroso – RDP
Maria José Oliveira – Jornalista
Maria Júlia Fernandes – RTP
Mário Nicolau – Revista C
Martins Morim – A Bola
Miguel Marujo- DN
Miguel Sousa Pinto – Lusa
Mónica Santos – O Jogo
Nuno Aguiar – Jornal de Negócios
Nuno Martins – Lusa
Nuno Pêgas – Lusa
Oscar Mascarenhas – Jornalista
Patrícia Fonseca – Visão
Paulo Pena – Visão
Pedro Caldeira Rodrigues – Lusa
Pedro Manuel Coutinho Diniz de Sousa – Professor Universitário
Pedro Pinheiro – TSF
Pedro Rosa Mendes – Jornalista e escritor
Pedro Sousa Pereira – Lusa
Raquel Martins – Público
Ricardo Alexandre – Antena 1
Rosária Rato – Lusa
Rui Cardoso Martins – Jornalista e escritor
Rui Nunes – Lusa
Rui Peres Jorge – Jornal de Negócios
Rui Zink – Escritor e Professor Universitário
Sandra Monteiro – Le Monde diplomatique (edição portuguesa)
Sara Meireles – Docente Universitária e Investigadora (ESEC-Coimbra)
Sofia Branco – Lusa
Susana Venceslau – Lusa
Tiago Dias – Lusa
Tiago Petinga – Lusa
Tomás Quental – Lusa
Vitor Costa – Lusa

 

Lusa e Público: não basta a solidariedade

Mensagem enviada hoje aos jornalistas reunidos no Porto, em solidariedade com os trabalhadores do Público e da agência Lusa, em dia(s) de greve:

“A greve da Lusa, tal como a greve do Público, deveriam ser um sinal de alerta para os cidadãos e, em particular, para os políticos.

No jornalismo independente  e comprometido com a verdade reside um dos pulmões da democracia e um dos apoios fundamentais para que Portugal vença a crise em que se encontra.

A Lusa é uma peça-chave da diversidade e da abertura do jornalismo português. Comprometer a qualidade do seu trabalho é comprometer a qualidade do jornalismo nos outros media e, nessa medida, um atentado aos interesses do país.

Nesse sentido, a notícia da aquisição da Controlinveste por um grupo económico angolano, a confirmar-se, é inquietante. Sobretudo se tivermos em conta que a Controlinveste é o segundo maior accionista da agência, detendo 23% do capital. É, pois, um assunto a seguir com a maior atenção, exigindo do Governo a efectiva salvaguarda dos interesses do país.

Nesta hora, não basta a solidariedade, que ninguém de boa fé negará.  É preciso ir mais longe e juntar energias de todos os que se disponham a examinar a situação dos media e procurar caminhos novos que  assegurem condições a um jornalismo aberto e próximo das pessoas, que seja voz daqueles que não têm voz. Do lado da academia a que estou ligado, estamos  disponíveis a criar ou reforçar as pontes que possam dar suporte a esse objectivo”.

Lusa: quando se toca num esteio…

A vontade governamental de amputar o serviço público de media tem-se encarniçado sobretudo em torno da RTP. A RDP e a agência Lusa têm ficado mais na sombra do debate público, talvez por serem, por natureza, menos visíveis, mas nem por isso menos importantes. O caso da Lusa merece ser seguido com atenção, visto ser um meio de características especiais: desde logo, porque fornece informação aos outos meios, sendo, nesse sentido, um ‘grossista’; por outro lado, pouca gente a conhece – é uma entidade abstracta e sem rostos. E, no entanto, sem ela muitos meios de comunicação social ficariam em sérias dificuldades para cumprirem a missão de informar.

A Lusa é uma empresa com cerca de 25 anos de vida, cujo capital é detido maioritariamente pelo Estado, cabendo a propriedade ainda à Impresa e à Controlinveste, bem como a outras entidades ultraminoritárias. É de longe o meio com a maior rede de delegados e correspondentes quer no país quer no estrangeiro, especialmente nos países lusófonos, onde, além de reportar, também distribui informação. Produz diariamente centenas de textos e imagens, bem como, nos últimos anos, serviço noticioso em vídeo. Tudo isto faz dela um dos mais relevantes esteios do serviço público de media.

Depois de medidas de forte contenção de gastos tomadas nos últimos anos, a Lusa estava “a trabalhar, gastando menos”, ainda que precisasse do Estado para prosseguir a sua missão com qualidade. Era o próprio ministro do pelouro que o reconhecia, em intervenção no Parlamento, em Abril deste ano. Pois é precisamente a Lusa que se encontra, presentemente, em risco de deixar de cumprir o contrato assinado com o Estado, se se verificar o corte anunciado de 30 por cento no valor da indemnização compensatória.

Sem pôr em causa o esforço de racionalização e poupança que não pode esmorecer, tudo indica que um tal corte implica restringir a malha de cobertura da agência, em Portugal e no mundo, e, logo, um empobrecimento da diversidade da informação. Tal não seria preocupante se não significasse que todo o panorama informativo português, já em sérias dificuldades, se ressentirá por arrasto. De uma coisa podemos estar certos: amputar a Lusa é abalar o conjunto da informação mediática. A informação independente custa dinheiro, mas a falta dela, especialmente em tempos de crises e convulsões, custa ainda mais.

(in: Página 1, 15.10.2012)

Relações conflituosas…com o meu jornal II

Na sequência de uma decisão pessoal que resolvi publicitar (a de ter quebrado a minha relação de compra – já era, confesso, mais bi-ou-tri semanal do que diária – com o jornal Público) o Manuel Pinto achou por bem – e bem! – usar o mote para aqui abrir a porta a um debate sobre o tema genérico ‘porque perdem os jornais as suas audiências’.
Gostava, antes de mais, de explicar a minha opção, até porque fui já – e bem! – confrontado com a sua aparente incoerência. Não nego, desde logo, que ela exista. A incoerência. Existe pois, como existe em muito de tudo o resto que fazemos na vida. E felizmente que isso acontece, dir-me-ia um amigo que usa com frequência a expressão: “ainda bem que são como as pessoas”.
Como posso eu, agora, neste momento, em que o jornal se prepara – dizia-se há dias – para despedir uma centena de pessoas e para nos apresentar um novo rosto online, ‘abandonar o barco’? Ainda por cima um ‘barco’ no qual já só viajava às vezes? Ora, ora. Logo agora.
O que me parece interessante é olhar para este caminho e tentar perceber porque me fui gradualmente afastando do jornal e porque me doeu agora muito pouco fechar a porta. E a imagem do ‘barco’ é relevante porque comecei, precisamente, por ser um ‘leitor profissional’ do Público. Era, à época do seu arranque, jornalista em início de carreira e o Público fazia…o que eu gostava de estar a fazer. E fazia-o de forma consistente: preparava dossiers sobre os temas, antecipava polémicas, divulgava novas histórias. Tinha paginação e fotografia cuidadas (muito à imagem de uma outra das minhas paixões de juventude, o britânico The Independent). Era um grande jornal. Dava gosto ser fã. Fazia-lhe um like, em grande, se pudesse.
Dir-se-á que era uma imagem construída, pouco ligada à realidade do projeto em si. Pois sim. Mas era a minha imagem. E sentia-me, de facto, num ‘barco’ onde seguia viagem com um número significativo de leitores fiéis.
A primeira grande mudança neste estado de coisas aconteceu com a Direção editorial anterior à que agora o jornal tem. Confesso que em muitos momentos – o caso mais gritante terá sido o do apoio declarado à estratégia da Administração Bush para o Iraque – senti vontade de ‘saltar fora’.
Fiquei a meio caminho. Deixei apenas cair o hábito da compra quase diária. Era o Público, afinal de contas. A coisa havia de ir ao sítio. E, se me esquecesse por instantes da Direção, a casa tinha ainda tantos e tão bons profissionais.
Hoje, a casa continua a ter muitos profissionais de grande qualidade, mas sinto que a coisa não foi ao sítio. Longe disso. Foi para um sítio ainda pior, já muito longe (talvez longe demais) da linha de rumo. A forma como a Direção do jornal reagiu a uma interpelação do Provedor sinaliza, além de um profundo desrespeito pelas regras básicas de funcionamento e pela função social da profissão, um enorme desconhecimento dos leitores. Mais grave ainda; não sabendo quem são os leitores, a Direção mostra ainda que não tem interesse nenhum em saber.
Chegado a este ponto tinha uma de duas opções: ou salvava, para mim mesmo, uma imagem benigna de um dos mais bem conseguidos projetos jornalísticos do país ou arriscava um caminho em que as boas memórias já começassem a empalidecer por entre um amontoado de asneiras e asneirolas.
Bem sei que o Público não é – no panorama nacional – o caso mais trágico, do ponto de vista da degradação do produto jornalístico. Mas, porque chegou a significar tanto, dói mais.
Há, na chamada ‘crise do jornalismo’ aspetos que, sendo de natureza financeira, condicionam severamente o produto final. Mas há, também, aspetos que resultam de escolhas deliberadas de quem dirige os projetos. Creio que, no caso do Público, a gestão do projeto editorial foi, nos últimos anos, mais danosa para a credibilidade do jornal do que os anuais apertos financeiros ditados pela administração.
Como alguém que agora vê o ‘barco’ afastar-se, sem tino, embalado por ondas que lhe atiram cada vez mais água para um convés já encharcado, mantenho no espírito uma derradeira dúvida: porque assim quis ou porque assim deixou que fosse um empresário perspicaz e pouco dado a ‘longos funerais’ como o Eng. Belmiro?
Se ele, um dia, nos explicasse…
(a confiar nas palavras recentes do Joaquim Vieira parece que a Administração do Público quer, por estes dias, que se saiba o menos possível sobre a vida real do jornal. É, também isso, uma enorme pena).

Luís António Santos

Relações conflituosas … com o meu jornal

O colega deste blog e amigo Luís Santos anunciou, na sua página do Facebook, um ‘corte de relações‘ com o jornal Público, na sequência do comportamento do jornal relativamente à manchete da passada quinta-feira (sobre a alegada excecionalidade dos alegados aumentos dos docentes do Ensino Superior) e, suponho eu, das respostas das jornalistas e da diretora à interpelação por parte do Provedor do Leitor daquele diário.

Diz ele que dá por finda uma relação que durava há cerca de 20 anos e que já vinha a definhar há algum tempo. Conheço mais pessoas que já tomaram idêntica atitude, mais lá atrás ou agora, por causa do mesmo caso.

Percebo-os, mas não os sigo. Por dois motivos principais: um é o facto de, apesar de tudo, ainda haver jornalismo no Público e profissionais lá dentro a lutar por serem jornalistas, produzindo, apesar de tudo, um trabalho que, desgraçadamente para nós todos, ainda continua a destacar-se no panorama jornalístico português (significando, com isto, que as alternativas são escassas e ténues). Outro motivo é o facto de termos lá dentro um provedor que ouve, que acolhe, que se bate por que o jornal seja fiel à sua carta de princípios e que continua a publicar dominicalmente uma avaliação do jornal, com uma prestação que acho ser globalmente muito positiva. Temos pouco disso, hoje em dia, e é preciso dar força – seja ao José Queirós seja a um futuro sucessor no cargo.

O gesto de cortar relações compreendo-o sobretudo como desilusão de quem acreditou num projeto jornalístico novo,  que tão importante seria, especialmente, no atual contexto histórico do país e da Europa, mas que se foi deteriorando, sobretudo com as últimas direções editoriais. Talvez o jornal também precise desses sinais, para ver se acorda. Pela minha parte, opto, por enquanto, por continuar a dialogar com o jornal, a picar, se for caso disso, a propor (mesmo que não obtenha qualquer resposta, com já me aconteceu com mensagens dirigidas à atual diretora).

Público: um tiro na confiança dos leitores

Ontem, o jornal Público fez manchete com um tipo de gente que raramente tem, como colectivo, esse privilégio: os docentes do ensino superior. Mas a matéria justificava. Num panorama geral de racionamentos e cortes, estas almas que não se sabe bem o que fazem, iriam ter o privilégio de escapar à redução de salários. Nada menos do que isso. E até mais do que isso: “Professores do Ensino Superior serão a excepção e poderão ter aumentos”, proclamava o destaque da primeira página. Claro, esses malandros andam pelos gabinetes dos ministérios e ocupam mesmo cargos governamentais e lá se arranjaram como puderam, terão pensado muitos. As jornalistas que assinaram o trabalho ou os editores que o supervisionaram não se deram ao trabalho de averiguar se seriam os perto de 40 mil docentes ou, por exemplo, apenas uma centena ou duas, como será o número que está em causa. Não. Arrancam com a peça assim: “os professores do ensino superior vão ficar a salvo dos congelamentos decretados para a função pública e, no próximo ano, a progressão na carreira destes docentes voltará a ser acompanhada dos respectivos aumentos salariais“. Lá mais para o meio do texto percebia-se – ainda que mal – que estavam em causa apenas alguns docentes, mas o mal já estava feito. E foi devastador, já que outros jornais, rádios e televisões, preguiçosos e seguidistas, se encarregaram de amplificar a mentira para Portugal e arredores.

Por múltiplos canais a falsidade foi denunciada ao longo do dia. Aguardava-se, assim, que ao menos no esconso recanto de “o Público errou” se viesse repor a verdade dos factos e esclarecer o assunto. Qual quê? Aproveitando aquilo que é um desmentido do ministro, o jornal faz de conta que não publicou manchete nenhuma e arruma numa discreta chamada de primeira página da edição de hoje, ao fundo, do lado esquerdo,  a informação: “Ministério da Educação diz que não há regime de excepção e que valorizações decorrem de obrigações legais”.

Uma vez que o Público se marimba assim para os leitores (mais grave: toma-os por uns papalvos que não pescam estas maroscas,  na expectativa de, no curto prazo, isso lhe trazer mais dois ou três compradores), resta recorrer ao provedor do leitor. Ficando no ar a suspeita de que a obstinação no erro e o não querer dar o braço a torcer tenham mais a ver com a mão dos responsáveis editoriais do que propriamente das jornalistas. É esperar para ver.

Seja como for, um caso assim (e que será de outros cuja matéria não conhecemos de perto?) é um golpe fundo naquilo que é o maior património de um meio de informação jornalístico: a sua credibilidade.

A entrevista televisiva: mais pode ser… menos?

Nos últimos anos, vem-se generalizando no jornalismo televisivo a entrega das entrevistas a grandes figuras do Estado, ou os grandes debates eleitorais, não apenas a um jornalista mas, muitas vezes, a dois ou mais.  Está ainda por demonstrar a vantagem, para o campo jornalístico e para o sucesso da sua produção discursiva mediadora, desta alteração do formato.

A leitura imediata é aparentemente favorável a esta situação: havendo mais jornalistas com possibilidade de fazer perguntas, há um alargamento do campo de possibilidades. No terreno das práticas, os jornalistas podem preparar melhor as questões, definindo e dividindo entre si os papeis que desempenharão, nomeadamente, na atribuição e desenvolvimento de questões relativas a áreas temáticas de generalidade ou de especialidade. Por outro lado, tratando-se da ocupação de um plateau televisivo, a presença de vários jornalistas pode indiciar uma vantagem semiótica de quem detém a função-pergunta, que é também quem detém a função mais geral de mediação e de representação do público. Mais representação e mais diversidade podem ser uma vantagem imediata. Será assim?

Julgo existirem algumas questões que, dentro de uma definição dinâmica do género entrevista, esta evolução do seu formato televisivo, nos coloca. Um dos problemas práticos, inerentes à sua própria execução em tempo real, das entrevistas conduzidas por mais do que um jornalista, é que nem sempre são fáceis de coordenar. A pré-coordenação, que comporta vantagens imediatas evidentes, já elencadas acima, pode esboroar-se nos próprios constrangimentos instantâneos do formato que colocam, directamente, em confronto, o estabelecimento do diálogo com o entrevistado com o limite temporal do formato.

Existem também, por um lado, o entrevistado e as dificuldades próprias que ele coloca (José Sócrates, por exemplo, era visto pelos jornalistas como “um animal político” por excelência, tornando-se cada entrevista televisiva em directo com o antigo Primeiro-Ministro um exercício que colocava, desde logo, os jornalistas, perante os seus mais íntimos receios de exposição de fragilidades próprias – em resumo, uma entrevista com alguém como Sócrates, era invariavelmente um exercício auto-intimidatório desde a fase de preparação) e, por outro, a própria necessidade de intercoordenação das questões e do seu sequenciamento temporal, dificultando o aprofundamento de qualquer estratégia dialógica, ou seja, a própria partilha do plateau com outro(s) jornalista(s) e a necessidade de respeitar as perguntas por ele(s) preparadas, tornam-se, muitas vezes, constrangimentos não totalmente previstos.
Assim, ao contrário do que possa parecer no imediato, o facto de uma entrevista de televisão ser conduzida por mais do que um jornalista não significará que haja uma vantagem final do lado jornalístico. Poder-se-á até especular e discutir a possibilidade de que a evolução do formato possa estar a gerar uma vantagem do lado dos entrevistados, porque lhes acabam por ser fornecidas, pela gestão do processo em tempo real, zonas de sombra, espaços maiores do que os inicialmente aparentes, para dominar a produção do discurso, transformando essas zonas de sombra em zonas de conforto, sabendo que dificilmente o formato os fará sair delas.

Um dos maiores problemas que se colocam ao campo jornalístico é que o grau de preparação técnica que uma entrevista, hoje, exige, nomeadamente no conhecimento dos intrincados assuntos da actualidade económica e financeira, restringe o campo de possibilidades dos jornalistas. Essa exigência é potencialmente geradora de um muito maior receio de errar, porque, desde logo, os meandros técnicos das questões permitem múltiplas linhas-de-fuga, ou seja, a própria especificidade temática constrói, também, para o entrevistado, zonas intersticiais, zonas de sombra.
Repare-se como, por exemplo, é em momentos posteriores de análise e opinião, que os jornalistas-especialistas que, muitas vezes, já se encontraram no papel de entrevistadores, se revelam particularmente cáusticos. Vimo-lo ontem, nas televisões, nos debates que se seguiram à entrevista de Pedro Passos Coelho à RTP.

Em tudo isto, há um outro problema de base: a entrevista televisiva, além de se inserir num género jornalístico amplo é, em si mesma, um formato próprio dentro desse género. Além do constrangimento do tempo, que não existe na entrevista para o jornal, por exemplo, a sua semiótica é muito mais complexa. Há jogos semióticos cruzados, produção de significações paralelas e variadas, que nem sempre têm relação directa com o discurso propriamente linguístico que está a ser produzido. A entrevista televisiva torna-se, assim, outra coisa. É um texto feito de múltiplos textos. Por isso, ontem e hoje, é possível lermos e escutarmos tanto sobre o conteúdo como sobre a forma. Diria mesmo que, em televisão, essa forma se torna, tantas vezes, mais decisiva do que o próprio conteúdo.

Leia-se, por exemplo, o modo como começa a análise da Estrela Serrano à entrevista.

Independência, avaliação e qualidade no serviço público de televisão e rádio

  • Recusa da venda, concessão ou retalhamento do serviço público
  • Aposta numa oferta diferenciada que se distinga dos privados
  • Avaliação da prestação do serviço público de rádio e TV por entidades independentes
  • Valorização das novas plataformas da TV digital

… eis quatro ideias fortes da tomada de posição do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, a propósito das medidas que o Governo está a estudar e no quadro do debate público que tem vindo a ocorrer no nosso país, mas com repercussão internacional.

É o seguinte o teor do texto que os media estão hoje a divulgar:

Por um Serviço Público de Média independente, avaliado e de qualidade

O recente debate sobre o futuro do Serviço Público de rádio e televisão, independentemente da forma como foi colocado, é urgente e indispensável. Neste contexto, o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, que há mais de uma década publica obra sobre o tema, entende apresentar este contributo que sucintamente exprime uma reflexão coletiva sobre a matéria.

Historicamente, o Serviço Público de rádio e de televisão tem sido gerido pelo Estado em função de interesses políticos imediatos. Em momentos cruciais, essa gestão fez-se totalmente à margem de qualquer sentido de interesse público ou valor público. Nada indicia que, no presente, esta linha de atuação seja diferente. Esta lógica de funcionamento tornou-se particularmente evidente quando, por exemplo, se aboliu a taxa de televisão e quando se entregou a uma empresa por um valor simbólico a rede de transmissão da RTP e, em tempos mais próximos, quando se cedeu aos interesses privados no processo de implementação da TDT. Importa salientar este traço histórico porque ajuda a explicar, em larga medida, a situação atual do Serviço Público e a imagem que dele fazemos enquanto bem comum.

Os intensos debates em curso na maioria das sociedades democráticas sobre os serviços públicos de média, sobretudo em tempos de acelerada mudança tecnológica, parecem centrar-se em torno de algumas questões-chave: disponibilização de conteúdos de qualidade e diversificados, tanto em termos temáticos como de género; reforço dos mecanismos de independência face aos poderes políticos e financeiros; desenvolvimento de modalidades de prestação de contas à comunidade e aumento da eficiência financeira das entidades que prestam este serviço público. Essencialmente, procura-se manter  viva a consciência de que o serviço deve ser universal no acesso e que não faz sentido sem uma cultura de funcionamento que entenda as audiências como cidadãos e não como consumidores.

Na esmagadora maioria dos casos, estas discussões presumem que a prestação de serviço esteja a cargo de uma entidade específica, com regras de funcionamento que a distingam dos operadores comerciais, que seja regulada pelo Estado e acompanhada pelos cidadãos. Um Serviço Público de média funciona assim como espaço agregador da sociedade, como instituição que alarga garantias cívicas de acesso, de diversidade, de pluralidade.
No atual contexto de crise económica grave, o caminho para o Serviço Público de média em Portugal passa, em primeiro lugar, pela discussão sobre como melhorar e qualificar o serviço público que (não) temos. Este serviço tem um papel específico a desempenhar na superação da crise, quer no plano interno, quer junto das comunidades emigrantes e no espaço da lusofonia. Deverá ser repensado considerando propostas de desempenho diferenciador em áreas como os espaços não demagógicos de participação dos cidadãos, a educação para os media ou formação crítica dos telespectadores, a programação criteriosa para a infância e os públicos mais jovens, a cultura portuguesa e as expressões culturais do espaço lusófono, a informação e a formação para a ciência e a investigação.
É precisamente agora que se abre uma clara oportunidade para enveredar por um  Serviço Público de média, gerido com independência e rigor, produzindo conteúdos de excelência e disponível em acesso aberto. O caminho da redução de custos foi trilhado com sucesso nos últimos anos; importaria agora trilhar esse outro que é o do aprofundamento do valor do serviço para os cidadãos, nomeadamente trazendo à consideração a presença noutras plataformas para além do universo audiovisual tradicional e envolvendo a empresa na discussão do chamado dividendo digital.
Acreditamos que, independentemente dos canais existentes ou a existir, este é também o caminho mais apropriado para Portugal – a disponibilização, tendencialmente em plataformas de sinal aberto, de um fluxo de conteúdos alargado e diversificado, produzidos por uma entidade pública, respeitando um caderno de encargos prévio e objetivos financeiros claros. Entendemos, nesta linha de salvaguarda do cumprimento efetivo desses compromissos, que devem ser instituídos processos periódicos de avaliação, quantitativa e qualitativa, da prestação das partes envolvidas, a desenvolver e publicitar pelas instituições científicas com competência para o efeito.
O Serviço Público de média não pode e não deve ser dividido em parcelas, não pode e não deve ser concessionado a uma entidade privada (com interesses legítimos, mas fundamentalmente distintos dos do Estado) e não pode e não deve ser vendido à melhor oferta. O Serviço Público de média é, em simultâneo, sinal de vitalidade e garante da democracia. É parte inteira do que somos, enquanto comunidade de interesses partilhados. Vendê-lo, concessioná-lo ou retalhá-lo são opções que servem apenas interesses de gestão política do instante. Qualquer delas contribui, de forma substantiva, para um empobrecimento real do que somos e para um diminuição da confiança dos cidadãos num Estado que serve.

Sinais do vigor da rádio – cá e no Brasil

São múltiplos e permanentes os sinais da vitalidade do meio rádio. Vejamos alguns relativos a acontecimentos que têm lugar por estes dias:

Hoje mesmo foi anunciado entre nós o III R@adio em Congresso, uma iniciativa que decorrerá no dia 26 deste mês no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas), em Lisboa. Nesta terceira edição, Nesta III edição, vários profissionais vão discutir futuro(s) modelo(s) de negócio da música e da rádio em Portugal.
Do outro lado do oceano,é manhã apresentado, na Universidade de Fortaleza, o Portal do Rádio, um site académico que “reúne informações em texto, áudio e vídeo sobre a radiofonia”. A iniciativa é do Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom (que está a realizar por estes dias o seu congresso anual precisamente naquela cidade brasileira) e surge associado à evocação dos 90 anos da primeira transmissão oficial de rádio no Brasil.
O site fica hospedado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), tendo o conteúdo sido produzido pelos pesquisadores do Grupo dePesquisa. Segundo a coordenadora, professora Nair Prata, “a ideia é que o Portal seja uma referência em radiofonia no país, pois todas as informações que interessam a pesquisadores, professores e estudantes estarão lá”. A professora lembra, no entanto, que é apenas o primeiro passo, “pois o site ficará aberto a contribuições permanentes, de modo que esteja sempre atualizado”.
O mesmo Grupo, de resto, apresentou ontem, também no contexto do 35º Congresso da Intercom, a Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro, um livro que biografa os 231 mais destacados radialistas desportivos de todos os Estados do país. O livro, organizado pelas jornalistas e professoras mineiras Nair Prata (UFOP) e Maria Cláudia Santos, tem prefácio do presidente da Intercom, Antonio Hohlfeldt. O trabalho é mais uma investigação coletiva do Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom e conta com a colaboração de 121 autores. Segundo a professora Nair, “o livro nasceu da necessidade de se contar a história de uma das facetas mais ricas e mais populares da radiofonia, a programação esportiva, mas não de uma forma linear. Buscamos contar essa história por meio da recuperação da trajetória dos personagens que a construíram”.

Manuel Pinto