Lomba propõe crónica “interactiva e dialogante” Janeiro 3, 2008
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“(…) Chegou, pois, a altura de eu, por deferência e interesse, solicitar a opinião e participação dos leitores para esta página. Escrever uma crónica não é um exercício complicado. Qualquer um pode fazê-lo. (…) Apelo à vossa prestimosa colaboração. Se vocês tivessem de escrever estes textos, escreveriam sobre o quê? O leitor costuma ser crítico, exasperado, insatisfeito. Um treinador de bancada. Um sinaleiro. (…) Os cronistas de imprensa tendem invariavelmente a escrever para os outros cronistas, quando não escrevem para eles próprios ou para a família. A minha ambição é conseguir fazer tudo isso e, em simultâneo, conceber uma crónica que seja interactiva e dialogante. Não é que eu tenha medo de vocês, leitores. Mas são vocês que mandam nos jornais, nos jornalistas e, por arrastamento, nos colunistas (…)”.Pedro Lomba, Diário de Notícias, 3.1.2008
“Há mais mundos…” Dezembro 30, 2007
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“(…) Faço parte das pessoas que já não suportam os telejornais. Parece que os comunicadoras, ou quem neles manda, continuam convencidos - não só na televisão - de que “uma boa notícia não é notícia”. Fica-se com a impressão de uma caça permanente à desgraça alheia: quando maior ela for, mais audiência terá, mais negócio. Não é por acaso que alterna com a publicidade. Esta procura convencer-nos de que, sem consumir os seus produtos, seremos infelizes.
(…) Compreendo quem anseia por um canal de televisão especializado em descobrir o mundo que não pode ser, apenas, uma colectânea de tristezas nem um mar de rosas, mas a casa do ser humano em todas as suas dimensões e em toda a sua complexidade. Há muito mais mundo que deveria entrar em nossas casas, em horas que não sejam roubadas nem ao descanso nem ao trabalho, do que o noticiário da desgraça. Mesmo acerca dos portugueses seria bom saber e ouvir mais do que a repetição, até a náusea, de que continuamos na cauda da Europa. (…) Será possível curarmo-nos da contínua alternância de exaltação e de depressão e optar por caminhos que nos levem ao encontro daquilo que existe, em nós, de melhor e mais profundo?(…)”.Frei Bento Domingues, in Público, 30.12.2007
Jornalismo “take away” Dezembro 29, 2007
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“O jornalismo está muito dependente dos assessores de imprensa e faz-se uma informação preguiçosa, que já está feita, “take away”. Há também muito jornalismo feito com fontes anónimas. Estamos a tentar inverter um bocadinho isso voltar a trazer as pessoas para a antena, ir ao terreno, recolher histórias. Faz falta o jornalismo que conte histórias, que não fale só do extraordinário, mas do ‘infra ordinário’, o que sustenta a realidade e que diz mais do nosso quotidiano”.
Daniel Cruzeiro, jornalista da SIC, entrevistado por Dina Margato (’A investigação é o calcanhar de Aquiles do jornalismo’, Jornal de Notícias, 29.12.2007)
A falta de um ’sobressalto moral’ Dezembro 15, 2007
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“(…) Os jornais do Porto e alguns desportivos, cujo papel na denúncia deste tipo de ‘meios’ [ do 'Apito Dourado', da claque do FCP, da 'noite' portuense] é escassa para não dizer nula, mesmo quando agressões violentas a jornalistas os deveriam ter obrigado a um sobressalto moral, fazem assim um péssimo serviço à cidade e aos seus valores. Deveriam lembrar-se do rol das agressões a jornalistas que se estende desde o final dos anos 80 até aos dias de hoje e em que os jornalistas desportivos têm um lugar de honra, mas não só. Carlos Pinhão, Eugénio Queirós, João Freitas, Manuela Freitas, Marinho Neves, Paulo Martins, entre outros, a que se associa José Saraiva, militante do PS e director durante muitos anos do Jornal de Notícias, já falecido, conheceram o “meio” na prática. O mais espantoso é que muitos deles nunca apresentaram queixa, outros nunca souberam o resultado das suas queixas, e mesmo quando as agressões são públicas, não se passa nada. Nunca se passa nada e nunca ninguém quer ver. E quando se fala do que está à vista de toda a gente, é uma conspiração ‘lisboeta’, ‘benfiquista’, contra o Porto, o Norte e o FCP e os tambores do ressentimento regionalista rufam contra os ‘mouros’ (…)”.José Pacheco Pereira in Público, 15 de Dezembro de 2007
“Do lado das fontes” Dezembro 15, 2007
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Correio da Manhã - O que pensa do jornalismo hoje?
Luís Marques - O jornalismo está a viver uma fase difícil, mas não está tão mal como alguns afirmam. O problema é que o sector mudou muito nos últimos anos, principalmente do lado das fontes, e o jornalismo não soube responder e acompanhar essas mudanças. A mim faz-me confusão, por exemplo, que se considere normal o intenso trânsito entre as redacções e as assessorias de imprensa, especialmente as governamentais. Devia haver um código de ética relativamente a estas situações, medida que já propus na RTP.
Entrevista do Correio da Manhã a Luís Marques [administrador cessante da RTP]
As duas culturas Dezembro 9, 2007
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“Nestes tempos em que as grandes palavras da moda estão associadas aos aparatos tecnológicos, em particular às tecnologias de informação e à Internet, as ciências humanas, a filosofia, as artes, a literatura, o corpo clássico da escrita e do saber estão, por assim dizer, fora de moda. Isso vê-se quando se discute o muito falado Plano Tecnológico, um dos símbolos da governação Sócrates (e dos seus alter-egos no PSD), muito hábil com telemóveis, computadores, gadgets e devices, mas pouco sensível àquilo que, com alguma comiseração, hoje se nomeia de “conteúdo”. É a forma, o instrumental, o brilho das luzinhas e a rectidão perfeita dos lasers que os entusiasma, perpetuando assim mais uma vez o divórcio das “duas culturas” que no passado pendia para a ignorância científica e para o sebentismo nas humanidades e hoje pende para o deslumbramento tecnológico e para a extinção das humanidades. Nem uma, nem outra “cultura” da clássica divisão de C. P. Snow existem como cultura sem se olharem entre si.(…)”.José Pacheco Pereira in “Publico”, 08.12.2007.
Questionar a profissão Novembro 25, 2007
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“[...] se assim era no meu tempo de jovem repórter, pior é ainda hoje, porque maiores são os constrangimentos e as ameaças: a competição desenfreada, o desemprego, a contenção de custos e o impacto das novas tecnologias. O sistema pressiona o jornalista, esmaga o jornalismo. A informação era um serviço. Passou a ser mais uma mercadoria, é promovida como tal. Os cidadãos ficaram reduzidos a meros consumidores. A opção lógica é, portanto, dar-lhes o que querem, já que o freguês tem sempre razão. O ‘infotainment’ alastrou, invadiu as páginas dos jornais. É provável que a confusão de géneros acabe por fomentar a apatia. É uma perspectiva preocupante porquanto a democracia não depende só da eficácia das instituições e do desenvolvimento tecnológico, mas também e sobretudo dos cidadãos. E a informação é vital. É por isso que os jornalistas não podem ser acríticos, inofensivos, irresponsáveis e objectivos. (…) Aprendi com Bill [Kovach] a questionar-me, enquanto jornalista. E a questionar a profissão. ‘É crucial que os jornalistas definam claramente os valores e as responsabilidades comuns do jornalismo, na perspectiva da promoção da cidadania’. É, portanto, urgente repensar as regras sob pena de o jornalismo se tornar dispensável”.
Rui Araújo, in Público, 25.11.2007, na última crónica como Provedor do Leitor
“Pinças deontológicas” Novembro 19, 2007
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“Nunca serão suficientemente louvadas as pinças deontológicas com que jornais e TV pegam em casos criminais que envolvem muitos zeros. E seria tema interessante para uma tese a volubilidade de conceitos jornalísticos como o de “interesse público”, que este fim-de-semana fez com que tantos jornalistas corressem para a porta de um tribunal onde eram interrogados uns árbitros e uns dirigentes do futebol regional, suspeitos de câmbio de 500 euros pelo resultado de um jogo (neste momento, já todos os portugueses estão informados sobre o nome, idade, estado, profissão e morada de cada um deles) e ninguém se tenha interessado minimamente por saber quais são as “grandes empresas” que o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais acusou de estarem envolvidas em crimes de fraude fiscal, provavelmente de valor superior (digo eu, que tenho uma imaginação perversa) a 500 euros.(…)”
“Fraude” Novembro 10, 2007
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“O debate de terça-feira foi o inverso do prometido pelos media, que fabricaram a fraude do ‘duelo’ Santana Lopes-Sócrates. O líder parlamentar do PSD incentivou a fantochada por ser do seu interesse político e pessoal. Porque digo que a fraude foi fabricada? Porque o nosso sistema parlamentar não permite “duelos”, é multipolar, não bipolar. (…) Ao seguir a estratégia egoísta de criar expectativas de bipolarização do debate (de o concentrar em si mesmo), Santana cometeu um erro grosseiro. E os media foram incompetentes e enganaram os leitores e audiências ao fomentarem a expectativa (…)”.Eduardo Cintra Torres, in Público, 11.11.2007
“Um país distante” Novembro 7, 2007
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“Quem ontem tivesse visto a SIC/Notícias durante o debate do Orçamento de Estado julgaria que o aparelho de TV havia enlouquecido ou apanhara o comando e fazia “zapping” por sua própria conta. Nas intervenções do primeiro-ministro, dava o Canal Disney e passava o filme de fantasia mais visto dos últimos dois anos, “O mundo perfeito”, acerca de um país distante onde tudo corre bem e a cores, o Governo governa, não há pobreza, desemprego, insegurança, o Benfica ganha campeonatos (…) começava a falar a Oposição e, de repente, a TV saltava para um filme “gore” no Canal Action; então, estava o espectador suspenso (iria a ministra da Educação comer as criancinhas?, o ministro da Saúde conseguiria fechar mais maternidades e urgências e abrir mais morgues?, o ministro das Finanças iria apropriar-se, depois da carteira, também do cotão do bolso dos contribuintes?), pedia a palavra Santana Lopes e via-se, alternadamente, uma comédia no Canal Happy e uma reposição de “O leão da Estrela” na RTP Memória. (…)”.
Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 7.11.2007
